Dormir, trabalhar e estar presente

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São 6:36 da manhã. Levantei para ir ao banheiro e decidi não voltar para a cama. Poderia ter voltado. Fui dormir meia-noite e meia ontem. Dormir é uma atividade que ganhou outro significado depois que tive filhos. Antes eu podia ir dormir e acordar a qualquer hora e eu sabia que geralmente iria dormir a noite inteira. Hoje, posso até escolher a hora de dormir, mas nunca sei como será a noite e sei que acordarei no máximo as 8:00.

Espera um pouco…Esse primeiro parágrafo contém tantos erros que nem sei por onde começar.
Bom, para começar devo dizer que antes de ter filhos eu sempre trabalhei em organizações com horários bem tradicionais e durante a semana eu nunca pude realmente escolher a hora de acordar. A diferença é que eu acordava pois o trabalho exigia. Quando eu morava em São Paulo, consegui me mudar para perto do trabalho e só precisava caminhar 10 minutos até o metrô e depois eram apenas 4 ou 5 estações até o trabalho. Eu calculava 1 hora entre acordar e estar sentado em frente ao meu computador na minha baia dentro de um prédio com mais 4 mil pessoas, cuja maioria nunca iria conhecer. De qualquer forma, eu e essas quatro mil pessoas chegávamos mais ou menos entre 8 e 9 e saíamos mais ou menos entre….entre…..hummmmm.

É, não tinha muito horário de saída. As vezes era seis da tarde, as vezes dez da noite. Como nessa época eu não tinha filhos, eu podia sair e fazer o que eu quisesse. Mas geralmente eu chegava cansado e não era só por conta da carga horária. O trabalho me sugava de uma tal maneira que eu não tinha forças para fazer e nem para pensar em muitas coisas. O resultado era quase sempre o mesmo: sentar na frente da televisão com um jantar que variava entre sanduiche, pizza e esfiha.

Por volta das sete horas a Luna, minha filha mais velha que hoje tem 3 anos e 9 meses acordou e me chamou, com uma voz chorosa. Subi e a encontrei no corredor. É verdade que passou pela minha cabeça o pensamento: “justo hoje que decidi acordar cedo para escrever, ela também resolve acordar cedo. Que sacanagem!” É impressionante como eu tenho essa tendência de achar que os atos dos meus filhos tem como propósito impactar a minha existência. Dessa vez, consegui observar esse pensamento e essa sensação e rapidamente ela foi embora. Peguei Luna no colo, sentei-me em uma poltrona e lá ficamos por pelo menos uns 20 minutos. É difícil precisar o tempo. Ela experimentou umas dez posições diferentes. Acho que consegui entender um pouco o porquê as pessoas tem gato.

Leo, que está com 1 ano e 7 meses, estava na cama onde eu durmo, mamando deitado e feliz. Regiane dormia enquanto ele se refastelava em seu peito. Ele largou o peito e veio para perto da poltrona dizendo: “Luna, Luna”. “É, a Luna está no meu colo.”, eu disse. Lembrei de uma conversa com a Margarita Valência, educadora ativa que nos iniciou no caminho educativo que estamos trilhando. Ela disse: “Lembre-se de respeitar a posição da Luna no núcleo familiar. Ela é a filha mais velha e o Leo deve entender isso. Ela precisa saber que tem um lugar reservado com vocês e que não precisa ceder aos pedidos do Leo, só por que ele é pequeno.” Fiquei tranquilo. Não precisei falar nada. Leo não pediu para subir na poltrona. Ele parecia feliz de estar ali por perto.

Bom, voltando para a questão do sono. Quando Luna tinha 10 meses parei de trabalhar como funcionário de uma organização e virei consultor. Isso me permite uma flexibilidade muito maior. Hoje, pude acordar cedo por que eu queria escrever e depois pude ficar com meus filhos por 1 hora entre acordar e tomar café da manhã. E não é só ter o tempo. Tem uma outra coisa que é a capacidade de estar presente. Nessa uma hora eu estive muito presente. É claro que a minha mente de vez em quando escapava. Uma hora eu olhei para o lado e vi Regiane dormindo profundamente apesar dos barulhos que estávamos fazendo. Eu tive uma inveja dela. Eu não consigo dormir com tanto barulho. Notei esses pensamentos e esse sentimento de inveja. Observei que estava perdendo minha conexão com meus filhos. Voltei minha atenção para o meu corpo. Dei um largo bocejo. Fui para a cama e fiquei sentado. Luna e Leo vieram para junto de mim. Luna pegou o lençol e estendeu sobre sua cabeça e disse: “Cabaninha!” Segurei o lençol com minhas mãos para que ela pudesse curtir sua “cabaninha”. Leo entendeu a brincadeira e os dois ficaram curtindo juntos.

Eu não consigo imaginar como seria continuar trabalhando em uma organização, por 10 a 12 horas por dia e ainda conseguir dar a devida atenção aos meus filhos. Eu sei que quando trabalho muito e chego cansado em casa, o cansaço vai embora assim que vejo meus filhos e começo a brincar com eles. Talvez eu fosse capaz de disciplinar mais meu horário de chegada e de saída. Talvez o que me cansava mais era a dificuldade de achar propósito no meu trabalho ou talvez era o ambiente árido, cheio de politicagem que ocupava setenta por cento do meu tempo. Não sei. Mas me parece que ter flexibilidade e a possibilidade de escolher projetos que façam sentido, tem me ajudado a manter uma relação não só saudável, mas significativa com meus filhos e minha esposa. É claro que tenho altos e baixos. É claro que tenho clientes que me sugam. É claro que as vezes tenho que trabalhar muitas horas para cumprir prazos. É claro que perco a presença e a paciência com meus filhos. Mas eu sei o que é preciso fazer para recuperar essa presença e hoje eu tenho o privilégio de tirar uma soneca de uma hora com minha família quase todos os dias depois do almoço. E essa soneca é fantástica.

1 responder
  1. Ayrton
    Ayrton says:

    Olá Marcelo. Descobri seu blog esta semana através da minha esposa, ela me enviou um link (Um Bom Choro Pode Promover o Apego Seguro) e daí resolvi ler tudo, desde o primeiro texto. Estou adorando a leitura e as informações contidas em cada um dos textos. Parabéns! Sou pai de Clara, que completou 3 meses no último dia 18 e é simplesmente a coisa mais linda deste mundo. Espero aprender e compartilhar muitas experiências por aqui e por outras maravilhosas redes existentes.
    Um abraço!

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