By Father of JGKlein, used with permission (Father of JGKlein, used with permission) [Public domain], via Wikimedia Commons

Minha filha me xingou!

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Esse texto traz a história de um pai que está incomodado com a filha que o chama de bobinho quando é contrariada. Além disso, traz uma sugestão de como lidar com essa situação. 

Acabei de fazer uma sessão de coaching para um pai que me procurou após ler os primeiros textos do blog. Ele me contou que sua filha de 3 anos e meio está “xingando” ele e a esposa de bobinho e bobinha. Isso acontece quando os pais contrariam alguma vontade da criança. O pai disse que no começo decidiram ignorar para ver se essa fase passava. Falei pra ele que por mais que queiramos ignorar racionalmente, nossa emoção sempre aflora e as crianças são programadas para captar as mudanças emocionais mais sutis dos pais. É uma questão da evolução da nossa espécie: as crianças mais atentas às reações emocionais dos pais sobreviviam mais pois entendiam que era preciso correr do tigre que estava se aproximando.

Bom, ignorar não deu certo e a filha continua chamando os dois de bobinho. Eles agora estão preocupados que a filha vai chamar outras pessoas assim também e aí vai ser uma vergonha. Mostrei para ele que essa preocupação tem base em uma necessidade deles de ter uma boa convivência social que pode ser ameaçada pelo comportamento da filha. É uma necessidade normal, mas se colocada a frente da necessidade da criança, não vai adiantar.

O pai me contou que a criança vai a pré escola cinco vezes por semana das oito da manhã até as cinco e meia da tarde. Além disso, eles  tiveram uma segunda filha que hoje está 7 meses e portanto naquela fase deliciosa de engatinhar, sorrir, brincar. Se não bastasse, a mãe acabou de conseguir um emprego e voltará a trabalhar em Julho. Ele mesmo falou que entende a reação da filha mais velha a toda essa situação.

Segundo Margarita Valencia, educadora equatoriana que trouxe a Educação Ativa ao Brasil e com quem aprendi muito através do Grupo Famílias Educadoras, a criança nessa fase precisa de muito contato com os pais. Ela também precisa de estímulos sensoriais diversos e de ambientes que propiciem experiências motoras, mas o contato com os pais ou as pessoas significativas para a criança é o componente fundamental. Expliquei isso para o pai ao mesmo tempo em que disse sinceramente que entendia que a organização atual do seu sistema família-trabalho dificultava esse contato. Dito isso, sugeri que da próxima vez que a filha o chamasse de bobinho, ele seguisse um processo que utilizo e que une elementos que aprendi com Ana Thomaz, com o pessoal da Comunicação Não-Violenta e na meditação guiada pelo Andy Puddicombe.

1- Ao ouvir, não reaja. Respire. Conecte-se com o seu sentimento. Mantenha a conexão com sua filha através do olhar.

2- Note o que você está sentindo, sem resistir e sem se apegar ao sentimento. Ao invés de “Estou magoado. Que saco! Não queria sentir isso.” tente algo como “Hum, tristeza.”

3- Tendo reconhecido seu sentimento, empatize com sua filha e tente reconhecer, em silêncio, o sentimento dela e a necessidade que está por trás desse sentimento. Exemplo: “Tristeza. Ela tem necessidade de ficar comigo.”

4- Nomeie o sentimento e a necessidade dela em voz alta: “Você está triste pois está indo para a escola e não vai ficar com o papai. Você quer ficar junto.”

5- Se você não acertar a necessidade dela na mosca, não se preocupe pois nessa idade ela já conseguirá te corrigir e talvez consiga expressar a necessidade correta.

6- Ache uma estratégia que atenda a necessidade de vocês dois naquele momento da melhor forma possível.

É bom relembrar que, isso é apenas uma estratégia paliativa para lidar com uma situação causada pelo sistema sócio-econômico-cultural que criamos e recriamos diariamente. Há um trabalho mais profundo, que Ana Thomaz chama de desescolarização ou transmutação que trata sobre como podemos criar realidades diferentes e que não estejam presas no paradigma atual. Quem quiser uma boa provocação, sugiro esse texto da Ana: http://anathomaz.blogspot.com.br/2012/09/uma-nova-cultura.html

No futuro trarei o relato desse pai a respeito das suas experiências com esse novo processo. Se vocês também experimentarem, me escrevam dizendo o que acharam, como se sentiram e o que aconteceu. Abraços!

4 respostas
  1. Carol
    Carol says:

    Oi Marcelo,

    Conheci seu blog essa semana e gostei muito. Tenho um bebê de 8 meses e já estou me famiiarizando com as situações que podem acontecer no futuro, para que talvez eu tenha reações mais parecidas com as suas e menos com as dos pais do mundo em que fomos criados :) Acho importante começar a aprender agora! Obrigada por dividir suas histórias. Abs

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Que legal Carol! Cadastre seu email no blog para receber as histórias assim que eu for escrevendo e se puder de uma passada lá no facebook.com/filhasefilhos para curtir e compartilhar com as pessoas que possam se beneficiar. Abraços!

      Responder
  2. Marcia Elias
    Marcia Elias says:

    Olá Marcelo!

    Então, me identifiquei mesmo com este pai, porque minha filha que está quase completando 4 anos, me mostra a língua quando contrariada e começa a repetir com ironia aquilo que peço, do tipo: “hora de dormir, vamos escovar os dentes, etc” repete tipo “cantando”. Respiro fundo, já sei que passamos o dia longe, tento não dar grande importância, mas sempre digo que não gosto qdo ela se comporta assim…mas sugiro: vamos ver uma história na caminha! Não é fácil, porque fico sempre com aquele sentimento se agi corretamente?!

    Vamos lá partilhando…
    Abração

    Marcia

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Obrigado por compartilhar sua história, Marcia. Não é fácil mesmo, especialmente quando estamos cansados. A Margarita Valência diz que as crianças notam que o que elas falaram mexeu conosco porém elas não conseguem conceitualizar e por isso ficam repetindo para ver se entendem o efeito das suas ações. É chato passar o dia longe e só voltar para fazer as “tarefas”. Nós estamos experimentando uma nova abordagem em casa a noite: depois do jantar e do banho ao invés de levar as crianças para a cama, nós damos 15 minutos para eles literalmente “pirarem”. Eles podem brincar com o que quiserem durante esses 15 minutos. Está funcionando super bem. Eles tem demorado muito menos no banho e no jantar pois querem ir para a brincadeira e depois a transição para a “historinha” da noite está sendo tranquila. Se você testar algo assim, me avise como foi. Abraços!

      Responder

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