Briga entre irmãos

Briga entre irmão: como lidar com uma situação de agressão

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(Esse texto descreve uma situação de briga entre meus filhos, como eu reagi e como a questão se dissolveu. Tempo de leitura: menos de 5 minutos)

Fomos convidados para lanchar na casa de um casal que conhecemos através dos padrinhos da Luna e do qual gostamos muito, apesar de ser a segunda ou terceira vez que nos encontramos. Eles moram em um apartamento bonito e espaçoso. Levei materiais de arte: papel, giz de cera e lápis de cor, caso as crianças quisessem fazer esse tipo de atividade. Os padrinhos da Luna já estavam lá quando chegamos. Após os cumprimentos iniciais, fiquei com as crianças enquanto elas exploravam esse espaço novo.

As crianças precisam de mais tempo para chegar nos lugares. Por estarem mais no presente, elas realmente se conectam com o ambiente onde estão. Nós adultos, em segundos, olhamos para o novo ambiente e rapidamente montamos uma imagem em nossa cabeça, baseada em todos os apartamentos que já vimos: sofá, varanda, mesa, quadro, etc. As crianças não. Elas se conectam com aquele sofá específico, daquela cor, textura e tamanho. É sempre bom lembrar disso quando chegamos com nossos filhos em lugares diferentes e, por que não, aproveitar o processo deles para nos conectarmos com cada lugar genuinamente.

Ao longo das 3 horas que ficamos lá os adultos se revezaram, de maneira espontânea, no estar com as crianças. Elas brincaram com uma grande bola que estava na sala, esconderam-se atrás da cortina e desenharam. Chegou a hora de comer. É importante mencionar que havíamos combinado com as crianças que íamos comer uma canja em um restaurante perto de casa que elas conhecem e gostam. Quando o casal nos convidou para ficar e jantar, consultei as crianças e elas disseram que queriam ficar. Acho que a informação de que havia pão de queijo foi crucial para essa decisão.

O jantar foi servido na mesa que, como a maioria das mesas na maioria das casas, não é adaptada para crianças. Luna ficou no colo da Regiane e Leo sentou-se em uma cadeira com uma almofada para ficar mais alto. Essa não é uma situação ideal para as crianças, pois diminui muito a autonomia delas.

Bom, as crianças atacaram o pão de queijo e a pamonha. Luna saiu do colo da Regiane e começou a brincar deitada no chão ao lado da mesa. Leo pediu para descer da cadeira. Ajudei de uma forma que não é muito bacana, suspendendo ele da cadeira, sem deixar com que ele fizesse o esforço e o movimento necessários para descer. Eu estava mais interessado no papo dos adultos. Leo caminhou até a Luna, que estava deitada no chão. Senti que ele chegou muito perto dela e acho que ela disse para ele se afastar. Regiane se virou para ver o que estava acontecendo e eu relaxei e voltei a ouvir a conversa.

Pelo canto do olho, pude ver o Leo preparando e dando um chute na Luna. Leo estava calçando uma pantufa bem macia e o chute pegou de leve na bochecha dela. Regiane, apesar de estar perto e olhando para a situação não conseguiu evitar o chute. Faz uma semana que Leo começou a ter esse tipo de comportamento  e ainda não estamos acostumados com isso. Luna começou a chorar, muito sentida.

Eu imediatamente saí da minha cadeira e sentei no chão entre os dois. Na minha cabeça, pensava: “Fique presente. A agressão não pode continuar. Conecte-se com os dois e não tome partido. A criança que bate precisa de tanto carinho quanto a que foi atingida.” Esses milisegundos de conexão e de trazer a consciência o que é importante para aquele momento foram cruciais. Segue abaixo o diálogo que se sucedeu entre Luna, Leo e eu.

Marcelo (apenas descrevendo a situação):  “A Luna está chorando”.

Luna: “O Leo me chutou”.

Marcelo:  “Leo, a Luna está dizendo que você chutou ela.”

Leo: “O que aconteceu Luna?”.

Luna “Você me chutou!”,

Leo: “Eu chutei sua perna.”

Luna: “Não, você chutou na minha bochecha”.

(Senti que o Leo estava se sentindo triste por ter machucado a irmã.)

Leo: “Você também me chutou”.

Luna: “Eu não te chutei”.

(Enquanto isso eu permaneci presente, olhando para os dois, sem raiva, tentando manter empatia com ambos.)

Leo: “Você me chutou lá em casa”.

Marcelo: “Eu ouvi o Leo dizer que a Luna chutou ele lá em casa”

Luna (se acalmando): “Leo, se você quiser pode ir chutar a parede.”

Nesse momento senti que a tensão se dissolveu. Luna parou de chorar e começou a oferecer para uma Leo uma forma de descarregar sua tensão, sem precisar bater nela.

Não sei exatamente porque Leo chutou a Luna. Não sei se a Luna chutou o Leo lá em casa. Sei que nem eu nem Regiane estávamos presentes o suficiente para evitar o chute e portanto tivemos que lidar com a situação que se instalou. Resumindo o que fiz:

1- Fui para perto dos dois e fisicamente com meu braço entre as crianças, impedi mais agressões

2- Não tomei partido de ninguém. Reconheci que os dois estavam sofrendo. O agressor, agride pois está com alguma necessidade não atendida e naquele momento só encontrou essa forma, equivocada, de atender sua necessidade

3- Fiquei observando e descrevendo a situação

4- Não fiquei preocupado com o que os outros adultos estavam pensando sobre a situação. Estava completamente com as crianças.

5- Deixei que os dois conversassem e dissolvessem a situação sem ficar dando ideias do tipo: “Pede desculpas.”

Eles ainda brincaram juntos por mais uma hora, muito felizes, sem nenhum incidente. Eu me senti muito bem depois da intervenção que fiz. Hoje é um novo dia. Mais uma oportunidade para exercitar a presença.

15 respostas
  1. Flávia Ilíada
    Flávia Ilíada says:

    Marcelo, bem legal esse texto!

    Fiquei pensando como reproduzir algumas dessas dicas com minha filha de 3 anos que vez por outra vem batendo no irmãozinho de 3 meses (afff, fico p/ ter outro filho qdo ela faz isso). Seguro a mão dela, falo, converso que ele é pequeno e tals, mas tem hora que ela é mais rápida que eu.

    Ah, suas suas dicas quanto ao cabelo amarrado foram ótimas. Hoje a pequena deixa eu arrumá-la numa boa… de vez em quando faz uma birrinha, mas no fim acaba deixando e nem se compara com as celeumas de antes. Bem grata mesmo.

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  2. Maro
    Maro says:

    Puxa Marcelo, que blog bacana, entrei rapido e li o texto da briga entre os irmaos, realmente o que precisamos e presenca mesmo e isso e tao dificil, presenca em relacao aos nossos sentimentos de forma a nos conectar com os sentimentos dos pequenos, adorei! Grande beijo para a familia, eles estao grandes e lindos, tudo de bom, Maro e meninos

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      É isso mesmo Maro. O trabalho é em nós mesmos e não “sobre” eles, como se tivéssemos que “consertar” algo neles. É difícil e não consigo fazer isso sempre. Mas faz uma diferença!! Por favor, compartilhe o blog e a página do Facebook (www.facebook.com/filhasefilhos) para pessoas que possam se beneficiar dessas reflexões! Beijão pra você e para seus 3 meninos.

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  3. Marcelo Michelsohn
    Marcelo Michelsohn says:

    É isso aí. Eu fiz uma intervenção sim, mas uma intervenção não-diretiva. Meu trabalho interno diário é não ter expectativa, não ter um resultado esperado durante a intervenção, do tipo: “vou fazer isso e eles nunca mais vão brigar”. Exercício constante, que exige paciência e compaixão por nós mesmos.

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  4. Marcelo Michelsohn
    Marcelo Michelsohn says:

    Eu me ajoelhei e fiquei com o braço estendido no meio dos dois e disse: “agente não bate”. Isso deve ter durado uns 5 a 10 segundos no máximo pois senti que eles não iam mais bater. Quanto menos falarmos, melhor. Aí então tirei o braço, mas mantive a atenção. Então comecei a descrever o que estava observando, sem tomar partido de nenhum dos dois. Sempre o que conta é o nosso estado de presença. Já tentei reproduzir os gestos, sem estar presente e não funciona. Então, o trabalho é na gente. Beijos e obrigado pela reflexão!

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    • Laura Gonçalves
      Laura Gonçalves says:

      Entendi. Acho que entendi outra coisa tbém. Não é que vc não interviu, mas é que vc não tomou partido, pois ao descrever para eles o que estava acontecendo vc fez uma baita intervenção…

      Responder
  5. Laura Gonçalves
    Laura Gonçalves says:

    Marcelo, ótima história! Me conta mais do item 1. Vc com o braço impediu ou impediria outras agressões. Falaria algo ao mesmo tempo ou seria apenas uma intervenção corporal?

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  6. Nielse
    Nielse says:

    Querido Marcelo, só agora conheci seu blog. Muito, muito, muito bom!!! Compartilhei com filho e nora, estou certo que será um belo convite à reflexão. Parabéns e beijo carinhoso.

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Boa observação comadre. O que posso fazer nos textos para gerar uma reação diferente? Será que tenho que contar histórias onde errei mais do que acertei? Apesar disso, e te conhecendo, posso falar com certeza que você é uma mãe super especial e que seus filhos são privilegiados! Beijo grande!

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      • Larissa
        Larissa says:

        hum… Acho que os dois “tipos” de histórias são ótimos para a reflexão, dão a referência. Eu falei da sensação de ter errado pois tinha vivido uma situação de briga aqui em casa e achei que tivesse acertado, mas, lendo seu texto, fui vendo que tomei partido (dos dois, o que é mais “engraçado”), defendi os dois e ditei regras para os dois… ou seja, diretividade pura… o que tenho conseguido cada vez com mais frequencia é identificar os meus sentimentos e compreender que eles (os sentimentos) são “problema” meu e não dos meus filhos! Beijão

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  7. Simone
    Simone says:

    Nossa, Má, td é mto bacana, mas o item 4 realmente é crucial para uma boa presença e uma fala mais adequada. Exercitar isso é enriquecedor e, sinceramente, libertador, tanto para poder exercitar e melhorar meu papel de mãe quanto para mostrar para a Lana que o que realmente importa é resolvermos a situação de maneira boa para todos os envolvidos e para seu próprio crescimento.

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