Cena do filme O Pão Nosso de Cada Dia

O Pão Nosso de Cada Dia

Esse texto já foi lido5501 vezes!

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=0mfpUF2DgJQ]

O que você sentiu ao ver esse video?

Eu assisti ao filme inteiro, de uma hora e meia, na semana passada e a cada cena fui me sentindo cada vez pior. Pensava: “Como conseguimos transformar essa atividade sagrada que é se alimentar, em algo tão mecânico e frio?”, “Como eu, que trabalho com sustentabilidade, não sabia, não conhecia essas imagens?”, “Como posso continuar me alimentando e alimentando os meus filhos dessa maneira inconsciente e insustentável?”, “Qual é a relação entre a forma que produzimos os alimentos em nossa época e a forma em que educamos nossos filhos?”.

Fiquei com esse desconforto. Fui até a cozinha. Minha percepção sobre os alimentos que haviam lá, era outra: “Como foi tirado o leite utilizado para produzir esse queijo?”, “Em que condições viveram as galinhas que botaram esses ovos?”

Você que já tem essa consciência alimentar deve estar achando que eu sou um ingênuo por não ter me feito essas perguntas antes. Você que não tem tempo para pensar sobre isso deve estar achando que eu só estou impactado pelo filme e que em breve tudo voltará ao normal.

No dia em que vi o filme, fui a feira de produtos orgânicos na Lagoa da Conceição em Florianópolis e comprei os alimentos na barraca do Dom Orgânico. Me dei conta de que não tinha dinheiro e precisa ir ao caixa automático. Eu estava sem a Regiane e com Leo e Luna. Não ia dar tempo. Perguntei para as crianças se eles poderiam ficar dentro da barraca da feira. Perguntei para o pessoal da barraca se poderia deixa-los ali por alguns minutos e todos toparam. Será que eu conseguiria fazer isso no caixa de um supermercado? Corri para tirar o dinheiro. Quando voltei, Luna e Leo estavam dentro da barraca desenhando e uma das pessoas estava do lado deles, abaixada, sem interferir em suas atividades, só olhando.

Fiz as compras. Luna quis escolher algumas coisas. Pediu alface e salsinha. A pessoa que estava nos atendendo disse que eles tinham frango orgânico. Uma bandeja de 600g de coxinha da asa custava R$13. Resolvi levar para experimentar.

Ontem cheguei na cidade de São Paulo e fui para uma reunião na casa de uma amiga que tem uma alimentação super consciente. Além de tudo ela é uma doceira que faz bolos deliciosos sem açúcar. Fui pensando: “Que bom, não vou precisar me preocupar com a comida.” Na hora do almoço, havia tortas e quiches. Foram comprados de uma padaria normal. “O que eu faço?”. Decidi comer as tortas que não tinham frango nem carne.

Depois da reunião fui para casa de outros amigos, onde jantei e dormi. Há tempos que não os vejo e estava com muitas saudades. Pedro chegou com a filha, Lara. Ela me chamou para seu espaço de brinquedo e me convidou para desenhar junto. A mãe, Irma, tem um super cuidado com a alimentação e inclusive contratou uma nutricionista com mestrado em nutrição infantil para fazer o cardápio da casa. Pensei: “Posso ficar tranquilo com a comida aqui.”.  Estava  desenhando com Lara com Lara, quando o interfone anunciou a chegada do nosso jantar: pizza. Pensei: “Que delícia!”, “Quer dizer….e agora….o que eu faço?”, “Relaxa e aproveita uma boa pizza paulistana com seus amigos.” A pizza era meia calabreza, meia frango com catupiri. Pensei: “Quando você estiver na sua casa, você compra e prepara os alimentos da forma que quiser. Na casa de amigos e na rua, pega leve. Tente escolher com mais consciência, mas não deixe de ter bons momentos.” Comi um pedaço pequeno de cada pizza. Antes, eu teria comido dois pedaços de cada.

Mas essa reflexão só está no começo.

Só sei que não quero mais fechar os olhos para esse processo industrial de alimentação, de educação, de trabalho e de relacionamento que virou a norma na nossa vida.

(O título desse texto foi extraído do nome de um filme que em inglês chama-se Our Daily Bread, dirigido por Nikolaus Geyrhalter, produzido em 2005. O filme, de uma hora e meia, é composto de cenas que mostram o processo produtivo de vários alimentos que chegam à nossa mesa.)

7 respostas
  1. Andrea Borges
    Andrea Borges says:

    Oi, Marcelo!
    Lembro-me de ter visto cenas parecidas num dos filmes da trilogia Quatsi – Koyaanisqatsi: Life out of balance (1982); Powaqqatsi: Life in transformation (1988); Naqoyqatsi: Life as war (2002). É chocante, se me perdoa o contrassenso, porque essas pobres aves nunca vão saber o que é chocar… No outro sentido, bom, do choco. Como disse minha prima médica, se é pra comer frango e ovo, pelo menos que seja de galinha feliz. E fica a eterna tensão: o vegetarianismo restringe o consumo de proteínas necessário na fase de crescimento dos nossos pequenos… Substituições são possíveis, mas para que deem conta do recado (e há quem defenda que isso é impossível), são em si uma tarefa muitíssimo exigente. Pergunto: vale a pena investir esse tempo e energia nisso, considerando que pais e mães estão em geral já super-exigidos, dividindo-se entre milhões de afazeres ligados ao trabalho e à educação dos filhos, no mais das vezes sem uma rede de apoio social que dê sustentação concreta e emocional a essa tão delicada e sagrada função – a de educar essas pessoinhas, estar com elas, amá-las, curti-las?
    Parabéns pelo blogue!
    Quando passar por Sampa (se é que ainda passa por esta poluída urbs…), venha tomar um café comigo, tá?
    beijo
    Andrea

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Ei Andrea, que bom ver seus comentários maternais-literários por aqui! Sua pergunta vai ao cerne do que me proponho nesse blogue: fazer reflexões sobre como o sistema de vida que criamos facilita ou prejudica a VIDA com V maiúsculo. A nossa vida, das crianças e do planeta em geral. E, realmente, com toda essa correria e com essa inundação de informação por vezes desencontradas, o que fazer? Eu, por enquanto, estou experimentando cortar a carne vermelha, mas continuar com frangos e peixes de fontes orgânicas ou tradicionais. Devo ir bastante para Sampa nos próximos meses e vou aceitar o convite para o café. Beijo!

      Responder
  2. Tiago Egger Moellwald Duque Estrada
    Tiago Egger Moellwald Duque Estrada says:

    Oi Marcelo,
    Sensacional esse Blog e esse Post me tocou, pois estou nesse dilema de abandonar as carnes há algum tempo.
    Apesar de já ter abandonado os derivados de leite de vaca ainda consumo os de leite de outros animais como cabras, ovelhas e búfalas. Não consegui abandonar as carnes vermelhas totalmente, mas raramente a consumimos em casa. Frango comprávamos o Korin, mas não sei mais por quanto tempo faremos isso. Agora que estamos de volta em Campinas devemos partir para os frangos caipiras.
    Peixes será um drama por que existe uma enorme crise mundial nos estoques pesqueiros marinhos. Os de água-doce também tem seus problemas.
    Verduras procuramos consumir orgânicos sempre que possível. Só precisaremos encontrar fornecedores aqui em Campinas.
    Acho que é isso!
    Abs,

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Obrigado pelo relato Tiago. Quando chegarem em Campinas, procurem o coletivo Trocas Verdes. Acho que é a melhor forma de conseguir frutas, verduras e legumes orgânicos por um preço justo para todos. Aqui em Floripa descobrimos a feira agroecológica da Lagoa da Conceição. Mas, por exemplo, 600g de coxinha da asa de frango custa R$13,90 e boa parte do peso é osso. Se alguém souber onde comprar frango caipira aqui em Floripa, eu agradeço. Abraços!

      Responder
  3. Liziane
    Liziane says:

    Que post legal!! :)
    O mais tenso e consciente desses filmes é o “Earthlings”, ou “Terráqueos” em português. Eles abordam várias questões além da alimentar (pele, derivados, animais de estimação, etc…), vale a pena ver e pensar!!
    Sou vegetariana há 6 anos, e só não me tornei vegana ainda por questões sociais como essa da pizza que você mencionou. É uma questão de equilíbrio de prioridades para mim. O fato de ser vegetariana já é super tranquilo socialmente, diz que já somos 8% da população brasileira!! Comecei por questões ambientais ligadas à produção, logo pesquisei mais sobre a forma de produção e isso fortaleceu ainda mais minha convicção. Depois de um tempo passei a me sentir melhor fisicamente também, e em uma terceira fase, agora no 5o ano… passei a sentir muito mais respeito pelos animais. Tem sido uma jornada muito divertida e cheia de aprendizados e consciência. Me divirto até com as pessoas chatas que fazem comentários sem noção do tipo “ahhh, mas a vaca só come vegetais, então eu tbm sou vegetariano, mas de segundo nível!” hahahaha
    Enfim… beijos e boa jornada!! :)

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Obrigado pela força Lizi! Vou ver o earthlings. Uma reflexão que tenho é: por que não comer um peixe que foi pescado por um pescador tradicional hoje pela manhã aqui perto de casa? Alguma reflexão? Alguma sugestão de livros? Beijos!

      Responder
  4. marciojappe
    marciojappe says:

    este foi o filme que motivou a Gabi Morais a não comer mais frango. Comer de forma consciente é um processo que demanda vários novos hábitos, não só à mesa, mas nas compras, na cozinha… um desafio importante em uma jornada de bastante aprendizado.

    e sobre a flexibilidade na visita aos amigos, let go of guilty. O importante é ir transformando teus hábitos e práticas e compartilhando tuas percepções, pois assim mesmo os amigos que te recebem passaram a debater o assunto e a, quem sabe, mudar algumas práticas. Lembra de que o processo tem que ser tomado com leveza e sem pregação =)

    abs,

    Responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *