Limites na Hora da Comida ou Como Percebi o que Minha Filha Precisava

Esse texto já foi lido9247 vezes!

(Esse texto de 4 minutos fala sobre uma situação onde coloquei limites na hora das refeições, mas não satisfeito com o resultado, explorei o que estava acontecendo de forma mais profunda e a consequência foi linda)

Há 3 semanas Luna (4 anos) começou com um novo hábito à mesa: só começava a comer quando o Leo (2 anos) já estava quase acabando. Ela argumentava que queria ter mais no prato dela. Vocês podem imaginar o transtorno que isso causa, pois as refeições começaram a durar uma eternidade.

Eu comecei a ficar irritado com isso. “Luna, come filha. O Leo já está comendo, eu e a mamãe já terminamos.” Ela dava uma colherada e parava por mais alguns minutos. Minha irritação foi crescendo, até que um dia eu disse: “Luna, o almoço vai acabar em 5 minutos.”. Ela então começou a dar colheradas que nem uma louca, enchendo a boca, mal mastigando e engolindo tudo as pressas. Tudo errado! Continuei na mesma direção, sem parar para respirar e refletir. “Luna, se você não terminar quando todos tiverem terminado eu vou tirar seu prato.” Falei isso, e depois respirei. Pensei comigo: vou tirar o prato dela, pois preciso colocar um limite, mas não vou fazer com violência ou com raiva. Preciso me acalmar. Respira. Dito e feito, ela não acabou e eu fui para tirar o prato. Ela com a boca cheia de comida, segurando o prato e chorando e eu segurando a outra ponta do prato dizendo: “Agora acabou o almoço.” Luna falou: “O que você vai fazer com a comida?”. Sentindo que ela não queria que eu jogasse fora, respondi: “Vou guardar na geladeira”e comecei a caminhar. Ela continuava a chorar. Dei meia volta. A geladeira podia esperar. Fiquei perto dela.

Luna: “De noite, quando você estiver dormindo, eu vou abrir a geladeira e comer tudo!”

Eu: “Tudo bem filha, eu ouvi que você vai comer tudo.”

Luna: “Um dia eu vou pegar toda a sua comida e jogar fora!”

Eu (repetindo com calma): “Você vai jogar minha comida fora.”

Luna: “Pai, eu quero colo”

Ela veio para meu colo e foi se acalmando.

Eu havia colocado um limite e isso possibilitou que ela chorasse e descarregasse suas tristezas e frustrações. Segundo a Patty Wipfler da organização Hand in Hand parenting: “nossos filhos choram para eliminar seus sentimentos negativos. Ficar ao lado dos filhos enquanto choram dá a eles um senso de estarem sendo apoiados e cuidados ao mesmo tempo em que estão se sentindo mal. Do ponto de vista deles, sua vida está desmontando e, você está lá, ao lado deles, navegando essa tempestade junto. Quando seu filho tiver descarregado a tristeza através do choro, ele volta a vida renovado. Sua confiança, inteligência e esperança voltam a todo vapor, permitindo que eles aprendam e amem novamente.”

Mas eu não estava satisfeito.

Por sorte, alguns dias depois, tive a possibilidade de conversar com uma amiga querida que também  está nessa jornada de criar seus filhos de uma forma que promova a vida. Contei para ela essa mesma história. Ela perguntou por que eu achava que isso estava acontecendo. Eu parei e disse: Luna não tem mais um espaço só para ela. Ela fica do lado do Leo o dia inteiro. Todas as atividades que ela faz (Capoeira, Yoga, Tecido Acrobático e Natação) ele também faz. Ela não tem nenhum momento sozinha comigo ou com a Regiane.

Não precisava dizer mais nada.

Na manhã seguinte, era dia de natação. Luna então olha para mim e diz: “papai, eu não quero ir para a nataçãocom o Leo ficar esperando ele fazer a aula dele. Eu quero ficar com você e ir direto para minha natação.” Fiquei emocionado e impressionado pelo fato de que quando entendi a questão, minha filha se antecipou e conseguiu pedir o que precisava.

Eu tinha milhões de coisas de trabalho para fazer, mas diante dessa sincronicidade, apenas relaxei e disse, sim!

Ficamos juntos por meia hora. Plantamos feijões em nossa varanda, fizemos sorvete de iogurte com suco de uva integral e fomos caminhando até a natação. Vimos uma betoneira e uma escavadeira no caminho. Luna ficou impressionada. Passamos por uma alameda e Luna apanhou uma flor, caída no chão, dizendo que era para enfeitar nossa casa. Chegamos na natação. Regiane estava lá. Olhei para Luna e me despedi. Ela perguntou se eu poderia ficar. Eu disse que o professor não gostava que adultos ficassem olhando a aula e que eu precisava trabalhar. Limites. Ela me deu um beijo, se virou e foi para aula.

Voltei para casa caminhando. O dia parecia muito lindo e a vida pulsava.

14 respostas
  1. Thaís Monteiro Tibali
    Thaís Monteiro Tibali says:

    Lindo, lindo, lindo..
    Por Deus… estive muito tempo pedindo esse blog ao universo, buscando e vocês chegaram até mim!!
    Meu filho faz 2 anos semana que vem e me deparo diversas vezes com situações de expressão de raiva e está sendo bem difícil lidar com elas, mas já diagnostiquei muitos erros que cometo só de ler alguns textos!
    Vou continuar meu aprendizado por aqui, lendo os demais, mas já gostaria de deixar meu agradecimento e parabenizar pelo lindo trabalho!

    Responder
  2. Rossana Vasco
    Rossana Vasco says:

    To lendo todos os seus textos e amando demais! To vivendo essa fase de ter dois filhos, um de ter3 e um de apenas 10 meses, difícil demais! Vcs me indica alguma leitura? O meu mais velho está retrocedendo , coco na cueca, querendo se bb algumas vezes, to meio perdida e confusa!

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Obrigado Rossana. É difícil mesmo. O de 10 meses está naquela fase legal onde engatinha ou já quase anda, faz gracinhas, etc. Todo mundo ri dele, as pessoas chegam na sua casa e vão direto falar com ele sem nem olhar para o mais velho. O mais velho teve atenção total durante 2 anos e agora perdeu. Ele está sentindo isso e pedindo socorro para se reconectar. Não sei bem qual é a sua situação familiar, mas sugiro que você combine com seu marido, ou com alguma pessoa que te apoie para ficar com o mais novo pelo menos durante meia hora por dia. Nessa meia hora, você vai dar atenção total ao mais velho, sem atender celular, sem parar para beber café, e principalmente sem se distrair com o mais novo. Em alguns dias, fale para ele que vocês terão um “Momento Especial” e que você vai fazer o que ele quiser por 10 ou 15 minutos (30 minutos é bem difícil, mas você pode tentar). Nesse momento, faça tudo o que ele pedir, desde que seja seguro. Passe um pouco dos limites do normal. Deixe ele sentir que está no comando. Faça isso no momento em que estiver com muita energia e não quando estiver cansada. Esse tipo de momento, faz com que a criança se sinta segura e especial e muitas vezes ela vai falar ou demonstrar coisas que estão sendo difíceis para ela. Não precisa fazer “Momento Especial” todos os dias, mas dedique 30 minutos por dia para ficar só com ele. Se quiser, me escreva um email contando mais detalhes. Se você lê em inglês ou espanhol, sugiro os livretos do hand in hand parenting, começando pelo “How Emotions Work”, depois “Special Time”. O site é http://www.handinhandparenting.org/store. Tenho certeza que você está fazendo o melhor que pode. Abraços, Marcelo.

      Responder
  3. Priscila T G Ng
    Priscila T G Ng says:

    Uma amiga me recomendou seu blog e eu simplesmente amei!
    Parabéns por descrever tão bem algo que no dia-a-dia buscamos encontrar… fazer um mundo melhor começando pela educação dos nossos filhos na nossa casa!
    Abraço
    Priscila

    Responder
  4. Jaqueline Giordano
    Jaqueline Giordano says:

    Marcelo e Regiane: Parabéns pela maneira amorosa que vocês educam seus filhos e generosamente compartilham conosco. Limites sem raiva, sem desespero, isto é fantástico. Eu tive sérios problemas com meus 2 filhos para enfim chegar a um bom termo na hora das refeições. Algumas vezes fui bem sucedida, outras não. Mas como crianças são anjos, eles nos indicam o caminho e se soubermos ouvir e respeitar, é possível. beijo grande e com saudades
    Jaque Giordano

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Oi Jaque! Que bom reconectar por aqui. Nós também temos altos e baixos. Não é algo linear que resolvemos. Sempre aparecem novos desafios, que tentamos encarar com oportunidades para nosso crescimento e para o fortalecimento dos nossos laços. Beijão com saudades!

      Responder
  5. Lucia
    Lucia says:

    Muito lega, Marcelo, vc está mesmo um psicólogo infantil à altura de sua mãe, que sempre soube como lidar com as emoções de vcs!
    Beijinhos da tia Lucia

    Responder

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *