Silêncio. Conversar Atrapalha a Brincadeira das Crianças

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(Esse texto apresenta algumas dicas importantes sobre o relacionamento entre adultos na presença das crianças. Essa história aconteceu no começo de 2013 quando ainda morávamos em campinas e demora apenas 3 minutos para ler)

Recebi uma ligação da Julia, uma mãe que conheci na Praça do Côco em Campinas. Eu estava com Luna e Leo e ela estava com a Livia, sua filha de 3 anos. Não me lembro bem como começou a conversa mas ao final decidimos nos ligar para que as famílias se conhecessem melhor. Pois bem, ela me ligou e como eu estava no meio de um trabalho, pedi para Regiane falar com ela. As duas combinaram de se encontrar na chácara da sogra da Juliana, a Miriam. Chegamos lá por volta das 17:00. Julia nos recebeu no portão e Livia estava logo atrás com uma saia vermelha. Quando ela viu a Luna foi logo comentando: “Olha a minha saia, ela é rodada.” Luna não perdeu a oportunidade e respondeu que a dela também era e fez um rodopio para mostrar.

Fomos para dentro da casa e logo estávamos naquela situação muito familiar: os adultos querendo conversar e especialmente nesse caso se conhecer e trocar ideias sobre os filhos e ao mesmo tempo os filhos querendo brincar, explorar tudo e também se conhecendo.

Em um determinado momento percebi que era importante estar com as crianças nesse novo lugar para possibilitar que fosse um ambiente relaxado. Deixei Regiane conversando e lá fui eu. Leo, Luna e Livia estavam em uma sala de brinquedos.

Primeiro eles começaram a brincar com um jogo da memória. Luna pegando vários cartões e montando o jogo com as peças viradas para baixo. Livia estava mais interessada em enfileirar os cartões. E Leo estava deitado com alguns cartões na mão, explorando a textura e as imagens.

Depois de algum tempo eles resolveram desenhar, mas Luna pulou dessa ideia para a ideia de pintar. Perguntei para Miriam e ela disse que pintar só lá fora. Porém, nesse horário, havia muitos pernilongos lá fora. Eu então falei: agora não vamos pintar pois pintura tem que ser lá fora e agora tem muito mosquito. É claro que essa explicação foi recebida por Luna como uma possibilidade de debate. Ela disse: “Eu quero ir lá fora. Não tem problema. Eu sou muito esperta e se um mosquito chegar perto de mim eu grito “sai” e ele sai.” Respirei e senti que não deveria entrar no debate. Eu já havia dado a explicação e agora era hora de apenas estabelecer o limite. Eu disse: “Nós não vamos sair para pintar agora.” Falei de uma forma segura mas não violenta. Foi o suficiente para Luna se voltar para a atividade de desenho. Miriam que estava assistindo olhou pra mim e comentou baixinho: “Nossa que bom, não precisa ficar dando milhões de explicações???” Eu disse que não e que bastava colocar o limite de forma clara, sem que isso fosse uma punição. Eu queria ter dito a Miriam que não deveríamos conversar sobre as crianças na presença delas ou na verdade não deveríamos conversar sobre nada para não atrapalhar o desenvolvimento da atividade, mas não tive vontade de fazer isso. Preferi modelar a não conversa e fiquei em silêncio observando as crianças brincarem.

Miriam, percebendo que a atividade de desenho não estava agradando muito disse em voz alta que havia massinha. As crianças gostaram e ela pegou a massinha para distribuir. Eram tiras de massinha de diversas cores. Luna já foi dizendo: “Eu quero muitas cores, eu quero muita massinha.” Miriam, com muita objetividade disse: “Pegue o pedaço que você precisa para brincar. Pode pegar várias cores.” Livia, Luna e Leo entenderam o recado e destacaram pequenos pedaços de massinha para brincar.

Ficamos observando em silêncio uma atividade que durou aproximadamente 30 minutos. Livia e Luna brincaram de fazer comida com a massinha e colocar no forno e depois nos serviram e comeram. Em um determinado momento Livia queria usar uma faca de plástico para cortar a massinha em pedaços. Só havia uma faca que estava com Luna que havia acabado de cortar sua massinha. Quando Livia falou que queria a faca, Luna reagiu dizendo que estava com ela. Miriam disse: “Só há uma faca e vocês precisarão dividir.” Livia pediu novamente e Luna continuou com a faca. Eu disse: “Eu ouvi a Miriam dizer que só tem uma faca e vocês precisarão dividir.” Acho que falei em um tom levemente ameaçador. Tenho certeza que poucas pessoas perceberiam esse tom, porém ele estava lá. Nessa hora eu acredito que meu lado escolarizado veio à tona e eu queria que minha filha tivesse boas maneiras, especialmente na casa de pessoas que nem bem conhecíamos. Luna entregou a faca. Em retrospectiva, sei que deveria ter ficado presente e conectado com Livia e Luna oferecendo suporte para que elas sozinhas resolvessem a situação. Eu poderia descrever a situação que eu estava observando e esperar que elas criassem uma solução. Elas poderiam ter dado várias outras soluções, como por exemplo pegar uma faca na cozinha. Mas dessa vez eu não tive presença suficiente. É assim mesmo, vai e volta.

Já no final, avisei que em 5 minutos iríamos embora. Luna pediu para conhecer a varanda. Passamos óleo de citronela e fomos para a varanda. Pedi para ela calçar a sandália, mas ela disse que queria sentir o chão da varanda. Aceitei e ela foi descalça. Não só ficou descalça na varanda como foi até o portão por um caminho de pedrinhas descalça sem reclamar. Fiquei super feliz de ver essa cena. Eu corro descalço e sei do prazer que é pisar com o pé em diferentes superfícies.

Miriam se despediu me abraçando e dizendo que aprendeu muito ao observar meu comportamento e que aceitava o convite para vir em casa para poder observar mais. Tenho certeza que o convívio e a observação atenta do relacionamento entre adultos e crianças de forma respeitosa, não diretiva e amorosa é uma ferramenta poderosa para criarmos um mundo no qual a criança seja valorizada.

6 respostas
  1. marta estela
    marta estela says:

    Puxa, que blog bom!
    cheguei aqui por um link que encontrei no facebook e qual nao foi minha surpresa ao ver a foto de capa….. “É o cara que corre descalço!” – pensei. Sou a Marta, mae da Joana e companheira do Moises. Nos conhecemos no sítio da Ana Thomaz, no ano passado…. Passamos por lá de novo ha um mes e perguntamos de vocês! Boa surpresa encontrar teus escritos por aqui… são ótimos! Seus filhos estao lindos!!!! Forte abraço!

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Oi Marta!!! Que legal essa re-conexão através do blog. Como vocês estão? Nós nos mudamos para Floripa, sempre em busca de uma vida mais significativa para nós e para as crianças. Esse blog faz parte dessa nova fase. Como está a Joana? Fique à vontade se quiser me mandar um email sobre as experiências de vocês como pais. Quem sabe, vira um texto para o blog? Fala para o Moises que o chapati ainda é um sucesso! Abração!

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  2. Marina
    Marina says:

    Texto veio em boa hora. Sempre me questiono sobre a forma como estou criando (fiquei tentando encontrar palavra melhor, mas não achei) meu filho. Por que será que, instintivamente, as pessoas tem vontade de gritar? Li uma passagem em um livro budista que fala sobre esse absurdo: por que gritar se a pessoa está bem aí, na sua frente, quando é seu espírito quem precisa escutar? algo assim…
    Mas, de fato, tenho me policiado muito, o que já é bem difícil no corre-corre do faz-tudo-ao-mesmo-tempo com bebê pedindo atenção. Tenho ficado feliz comigo. Antigamente eu pensava nos meus atos depois de cometê-los e achava quase impossível uma mudança de atitude ANTERIOR. A escolha. Nada como trinta e poucos anos, uma dose de humildade e muito amor no coração.
    Que legal encontrar esse blog. Estou adorando.

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Lindo depoimento Marina. Depois, se quiser, me conte por email alguns casos interessantes sobre como você e seu filho estão interagindo. O que está dando certo e o que não dá? Onde o bicho pega? Obrigado pelo carinho. Abração!

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  3. Bruna
    Bruna says:

    puxa que bacana…..eu respeito muito o brincar da minha filha, permanecendo em silêncio, porém conectada com ela…mas ainda sinto que na presença de outros adultos, tento fazer prevalecer as boas maneiras, utilizando esse tom ameaçador, mesmo que sutil……..ainda há muito para aprender!!!!!! abraço!

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      É isso aí Bruna. É difícil mesmo, pois aprendemos com nossos pais que temos que respeitar mais os outros adultos do que nossos próprios filhos. É muito maluco isso. Por que a necessidade de ser bem visto por um outro adulto supera a necessidade de conexão com nossos filhos? Ainda me pego fazendo a mesma coisa, de vez em quando. Trazer isso à consciência já é um bom primeiro passo. Obrigado pelo comentário. Abraço!

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