Criança gargalhando

Rir Traz Vida para Nossos Filhos e para Nós

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(Esse texto é sobre outras formas de brincar. Formas onde há mais interação entre adultos e crianças. Ele demora uns 3 minutos para ler e foi inspirado em um comentário de uma leitora do blog)

Uma amiga escreveu o seguinte comentário aqui no blog:

“eu naturalmente sou mais do tipo que está presente, deixa brincar e observa, mas fico com uma certa inveja de ver a Paola brincando com pessoas mais “animadas”. Ela ri mais, interage mais, fala mais alto, parece estar se divertindo muito mais do que quando está brincando em ambiente relaxado. Agradeceria se você comentasse um pouco sobre isso, para ajudar nas reflexões.”

La vai.

Quando fiz o curso de Educação Ativa com a Margarita Valencia, ela ressaltou diversas vezes que as necessidades das crianças vão mudando ao longo de seu desenvolvimento e que nosso papel era preparar os ambientes para serem seguros, relaxados e próprios para cada etapa. Se o ambiente estiver preparado e se houver um adulto relaxado, amoroso e presente, a criança vai buscar sozinha o que ela precisa. Pode ser areia e água, pode ser massinha, ou talvez bonecas.

Quando falo aqui no blog sobre deixar a criança brincar, quero dizer que, se o seu filho está em um ambiente preparado e decidiu brincar com alguma coisa, ele está fazendo isso “de dentro pra fora”, tentando atender a uma necessidade sua, de seu desenvolvimento. Se, nessa hora, um adulto começa a dirigir a brincadeira, a criança claro que vai começar a prestar atenção no adulto e então vai “aprender” que o desenvolvimento se dá “de fora para dentro”.

Porém, as crianças até uns 6 ou 7 anos de idade estão em uma fase de desenvolvimento chamada sensório-motriz-afetiva (é claro que essas idades podem variar e esses processos não são lineares, mas isso fica para outro post). Por exemplo, a Luna está com 4 anos e ela precisa e gosta de fazer movimentos como correr, se pendurar, dar cambalhota, nadar. Quase todos os dias ela me pede para fazer ela dar uma cambalhota. Eu seguro nas mãos dela e ela pisa nas minhas pernas, depois na minha barriga e dá um impulso para traz, caindo com os pés no chão. Ela pede para fazer isso. Ela faz o esforço de subir. E aí geralmente nós dois damos uma bela gargalhada juntos. Dessa forma, atendo a necessidade afetiva dela, de estar em conexão amorosa comigo, atendo também sua a necessidade motriz. Faço isso sem precisar dirigir a brincadeira e sem tira-la de outra brincadeira.

Outro exemplo. Antes de chegar a hora de contar histórias de noite, eu faço 15 minutos de brincadeira com Luna e Leo. Vale tudo. Vamos para uma área no apartamento preparada para isso, com colchões, almofadas. Ontem Luna falou: vamos brincar de carro! Eu, ela e Leo começamos a fazer barulho de carro e correr por esse espaço. Eu peguei uma almofada e fiz como se fosse um volante. Quando eu dava de frente com eles, os empurrava para cima do colchão. Eles caiam, morrendo de rir e levantavam pedindo mais. Estou fazendo um curso on-line sobre relação pais e filhos com a Patty Wipfler do site Hand in Hand Parenting.

Em um de seus livros ela escreve: “Crianças adoram rir. Quanto mais elas rirem, mais vivas estarão. As crianças se sentem seguras e compreendidas quando os adultos relaxam, se aproximam e permitem que a brincadeira livre e as risadas aconteçam.(…) Você deve procurar brincar de uma forma que a ela ria muito sem, para isso, mudar o dirigir o conteúdo da brincadeira”.

Ela fala que, na maioria das vezes, é melhor fazer o papel de um clown e deixar a criança fazer o papel de quem tem mais poder, ou seja, talvez eu devesse ter deixado com que eles me derrubassem e eu até tentei fazer isso, mas eles não viram muita graça. O importante, para mim, é estar atento e perceber para onde eles estão levando a brincadeira e o que eles precisam, sem forçar a barra. Uma coisa importante e que eu fazia, mas diminui muito é a cosquinha. Tanto a Margarita quanto a Patty falam que devemos evitar fazer cosquinhas, pois assim que a criança começa a rir com a consquinha ela perde controle sobre seu corpo e muitas nem conseguem falar para parar. Eu também torci o nariz quando ouvi isso a primeira vez, mas aos poucos descobri que a outras formas de fazer as crianças rirem, sem precisar utilizar esse recurso. Hoje, no máximo, eu faço um segundo de cosquinha e paro.

Resumindo, aqui em casa tentamos não dirigir e não intervir quando eles estão compenetrados fazendo algo importante para o seu desenvolvimento. Acreditamos que eles sabem muito do que precisam. O corpo deles sabe. E, em outras horas, brincamos juntos, com muito contato físico e com muitas risadas, mas sempre cuidando para seguir a energia deles e sem impor nossas vontades ou nossos conteúdos em suas brincadeiras.

6 respostas
  1. Yanna Seabra
    Yanna Seabra says:

    “…preparar os ambientes para serem seguros, relaxados e próprios para cada etapa. Se o ambiente estiver preparado e se houver um adulto relaxado, amoroso e presente, a criança vai buscar sozinha o que ela precisa.”

    Dá pra desenvolver um post sobre ambientes próprios pra cada etapa da criança?? O que compõe o ambiente ideal além de segurança e comodidade?? Agradecida!

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  2. Henrique Versteeg-Vedana
    Henrique Versteeg-Vedana says:

    Marcelo!

    Maravilha o blog. Esqueci de te elogiar no final de semana. Bom conviver com vocês, me fazem refletir bastante…

    Sobre o post acima, achei super ricas tuas ideias, sugestões e histórias, mas não sei se foi bem isso que a mãe da Paola queria ouvir… fazer as crianças rirem é super importante, mas qual a “habilidade” dos pais que pode apoiar isso, e como desenvolver isso? Me comparando, por exemplo, ao padrinho da Luna, vejo que nunca teria a capacidade criativa que ele tem e empatia para fazer a Luna rir como ele faz… e acredito que todo pai e mãe quer poder ser “engraçado” (meio herói bobão) com os próprios filhos, né?

    Abração!
    Henrique

    Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Fala Henrique! Valeu pelo comentário e por me chamar atenção para o que ela gostaria de ouvir. Acho que já me fiz essa mesma pergunta: como desenvolver essas habilidades. Vou responder algumas coisas aqui e depois escrevo um post maior, ok? Bom, em primeiro lugar, cada um de nós temos nossas próprias habilidades e estamos mais confortáveis com um tipo de interação do que outra. Então, é bacana que a criança tenha contato com vários adultos diversos para ter uma gama maior de interação. Mas, se você quer desenvolver isso, a primeira coisa que eu pensei em fazer foi um curso de “Clown” ou de “Teatro Espontâneo”. Em são paulo, posso indicar os cursos da Silvia Leblon que é uma clown excelente. Em campinas, tem o Grupo Lume. Com relação ao teatro espontâneo, eu procuraria o Moyses Aguiar que foi o professor da minha esposa. Além disso, ontem eu estava fazendo um curso por skype sobre parenting e a minha professora, me falou: “da próxima vez que sua filha não quiser começar a comer até o irmão terminar, faça uma voz esquisita e diga que também não pode comer enquanto ela não comer. Faça uma voz bem boba.” Eu fiz, mesmo que não estivesse 100% confortável com a ideia. Ela não gostou muito. Aí, na hora, eu decidi que o meu garfo e a minha faca iriam falar e comecei a conversar com eles, e eles faziam uma voz engraçada e discutiam comigo. Ela começou a rir, entrou na brincadeira. Foi uma delícia e ela comeu super feliz sem nem olhar para o prato do irmão. Por último, quero compartilhar que quando estou cansado, ou ansioso por causa do trabalho fica bem mais difícil ser engraçado. Então, é uma questão de organizar o mês, a semana e o dia, para estar bem, estar presente e aí poder ser espontâneo e bobão. Vou pesquisar mais e fazer um post mais completo sobre isso, com dicas mais práticas, mas espero ter respondido um pouco. Obrigado pela oportunidade! Abração!

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  3. Mariana
    Mariana says:

    Marcelo, o finalzinho seu post me fez pensar sobre uma questão que estamos vivendo aqui em casa. A Bel, que agora tem 3 anos, ultimamente só quer ficar em casa, sozinha, brincando com as coisinhas dela. Estamos mal com isso, pois ela é uma menina tímida e queremos que ela se socialize, conviva com outros adultos e outras crianças. Mas mesmo nos finais de semana, quando propomos algum passeio, ela diz que prefere ficar em casa. As vezes acabamos forçando a barra, dizendo que vai ser super legal e tal, mas da última vez que fizemos isso ela chorou o tempo todo. Ficamos desnorteados! Agora estou pensando… tá certo, eles sabem do que precisam… melhor segurar a minha onda e respeitar!

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Olha só Mari, isso acontece com a Luna também. Tem dias que ela encasqueta que não quer sair de jeito nenhum. Tem vezes que respeitamos e outras, quando nós queremos sair, que “forçamos”. Tenho notado que a forma como falamos faz uma diferença grande. Se eu vou, com medo que ela não vai querer sair, e falo que vamos sair, meio em tom de pergunta: “Luna, vamos lá pra pracinha da lagoa?”, aí, como fiz uma pergunta, ela tem todo o direito de dizer não. Se vocês querem sair, já colocaram isso na cabeça e não é uma opção para ela, é melhor falar de forma mais direta: “Bel, em 10 minutos vamos sair para ….” É legal falar esses “10 min” mesmo que ela ainda não tenha noção perfeita do quanto isso significa. Se ela chorar, aí é hora de se conectar com ela, com amor, olhar no olho e ficar junto. Falar pouco, não dar muitas explicações. E repetir de vez em quando: “Agora nós vamos sair para ….”. Se ela precisar, ela vai chorar mais ainda. A ideia é ficar assim pelo tempo que for necessário, então se programe para não precisar sair com pressa. Depois de chorar, pode ser que ela peça colo ou que ela dê uma solução, do tipo: “vamos no lugar tal, mas depois eu quero voltar pra casa e ficar brincando aqui.” Uma outra coisa, é tirar alguns dias para ficar em casa mesmo, sem ansiedade de querer fazer outra coisa, ou de querer que ela se socialize. Seria legal entender melhor sobre a rotina dela. Se preferir, me escreve um email contando se ela vai na escola, quanto tempo fica longe de vocês, quando ela quer ficar em casa, qual é a coisa que ela mais gosta de fazer fora de casa, etc. Ahh, tem uma outra coisa bacana, que é fazer uma coisa chamada Special Time. Defina um dia e um horário e fale para ela: “amanhã as 11:00 vai ser nosso tempo especial. Vou ficar só com você, sem fazer mais nada por 15 minutos (pode ser mais, mas sugiro não prometer muito nos primeiros). Você pode escolher fazer o que quiser e eu vou ficar sozinha com você.” Aí, o negócio é não atender telefone, celular, não conversar com outro adulto, não deixar outras crianças juntas e aceitar o que ela pedir (desde que seja seguro e não destrua nada). Faça isso regularmente, e alterne com seu marido. Não precisa ser todo dia. Pode ser uma vez por semana. O que for confortável para vocês. Caso essa coisa de não querer sair continue, programe o special time para logo antes de falar que vão sair. É como se você estivesse falando um grande “SIM” para ela, antes de, potencialmente ter que falar um “não, você não vai ficar em casa”. Depois me diz o que você testou e como foi. Boa sorte!

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