Cena do filme "Happy"

Felicidade, Filhos, Comunidade e Meditação

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(Nesse texto eu comento o documentário sobre felicidade, Happy e faço relações com minhas escolhas de vida e com meus filhos. São 5 a 7 minutos de leitura.)

Estou em um avião, viajando sem minha família, a trabalho. Vou ficar três dias e meio sem ver meus filhos e minha esposa. Falei ontem com o Leo (2 anos e 3 meses) e a Luna (4 anos e meio) que eu ia viajar e que chegaria 5a de noite quando eles já estivessem dormindo. Estou indo fazer um trabalho relevante e que muitas pessoas dariam tudo para fazer. Sinto gratidão por isso. Mas ao mesmo tempo, sinto tristeza por estar longe da família. Sei que preciso fazer esse trabalho para gerar os recursos que necessitamos para vivermos a vida que escolhemos, na qual Regiane, trabalha em tempo integral cuidando das crianças.

Aproveitei o vôo para assistir ao documentário “Happy” (Dá pra assistir on-line com legendas em português), recomendado em um post dessa semana do Gustavo Gitti do blog, Papo de Homem. Vale muito a pena assistir ao documentário, que traz dados científicos misturados com exemplos de várias partes do mundo sobre o tema da felicidade. Eu sou uma pessoa crítica e analítica e não achei nada superficial.

Em determinado momento, o documentário  discute a diferença entre valores ou objetivos extrínsecos  e objetivos intrínsecos. Segundo, Tim  Kasser (Ph.D.), professor de psicologia do Knox College, objetivos extrínsecos dependem de algo externo e são focados em reconhecimento, prêmios, em obter coisas. Os três principais exemplos deste tipo de objetivo são: dinheiro, imagem e status. Os objetivos intrínsecos, tem a ver com as necessidades humanas que todos temos, sendo que os mais importantes, segundo ele, são:

1- desenvolvimento pessoal: buscar entender e viver quem você realmente é,

2- relacionamentos: ter uma comunidade de apoio composta por amigos e/ou família), e

3- desejo de ajudar o outro ou a comunidade.

Pesquisas mostram que as pessoas mais interessadas em dinheiro, imagem e status, são mais deprimidas, ansiosas e tem menor vitalidade. Notem que eles não falam que as pessoas que tem mais dinheiro são deprimidas, mas sim as mais interessadas em dinheiro. Sejam ricas ou pobres. O oposto ocorre com as pessoas mais interessadas nos objetivos intrínsecos. Geralmente são pessoas mais de bem com a vida.

Eu, particularmente sinto que o nascimento e o desenvolvimento dos meus filhos me ajudou a focar cada vez mais em valores intrínsecos. É sobre isso que o documentário me ajudou a refletir e que agora compartilho com vocês.

Quando eu e Regiane resolvemos ter filhos decidimos morar fora de São Paulo e para que isso fosse possível eu pedi demissão de um banco multinacional no qual trabalhei durante 8 anos e que poderia me oferecer uma carreira promissora. Apesar de tentarmos engravidar por mais de um ano (enquanto eu ainda trabalhava no banco) inclusive usando remédios, foi justamente quando pedi demissão e quando paramos de fazer o tratamento, que a vida de Luna resolveu surgir.

Depois de sair do banco, fomos morar em um sítio na cidade de Cunha (SP) que tem 25 mil habitantes. Essa mudança para Cunha (em julho de 2008) atendia várias necessidades:

– Auto-desenvolvimento: queria ter a experiência de gerenciar uma organização e queria aprender a viver com menos, em um ambiente mais natural.

– Desejo de ajudar o outro: não queria que Regiane passasse a gravidez em meio a poluição e barulho, como era o lugar onde morávamos em São Paulo. Além disso, ao aceitar trabalhar na ONG eu queria tentar ajudar os agricultores familiares a produzirem mais, com menos danos ao planeta e a oferecerem alimentos sem agrotóxicos para a população, especialmente quando vendiam para a merenda escolar.

Quando Luna fez 10 meses (dezembro de 2009) começamos a nos sentir muito isolados em Cunha e foi a necessidade intrínseca de relacionamento que nos fez mudar para Campinas, perto da nossa família e de alguns amigos.

Em março deste ano (2013), decidimos nos mudar novamente, para morarmos próximos de duas famílias de amigos muito queridos e experimentarmos uma vida mais comunitária. Fazemos algumas refeições juntos, nos damos caronas, fazemos compras um para o outro e eles ficam com nossos filhos para que eu e Regiane possamos sair, ir ao cinema e conversar. Tenho essa sensação de que esse processo de ser um pai ou uma mãe melhor, dependem do apoio de um grupo. É um processo individual, mas não pode ser solitário e desamparado.

O documentário veio confirmar essa minha intuição. Eles dizem que um dos motivos para os dinamarqueses terem altos índices de felicidade é o fato da Dinamarca ser o país com maior quantidade de co-habitações por habitantes. Co-habitações ou co-housing, são arranjos de moradias nos quais as pessoas compartilham um mesmo terreno ou um mesmo prédio e vivem como uma comunidade que se ajuda. Se a imagem que veio a sua cabeça foi uma comunidade hippie dos anos 70, esqueça. São casas e prédios normais, onde moram profissionais liberais, funcionários de empresas, aposentados, crianças, etc. No exemplo apresentado, vemos uma mãe (solteira e com 3 filhos) dizendo que onde ela vive, as refeições são compartilhadas e por isso ela só tem que se preocupar em decidir, comprar e cozinhar comida 2 vezes por semana ao invés de 2 vezes por dia e isso libera muito tempo para ela trabalhar e ficar com os filhos. Ela diz: “É um presente para os meus filhos o fato de eu morar aqui. Sou grata pelos idosos que vivem aqui e que servem como avós para eles. Estar em comunidade transforma a pergunta de “O que eu não tenho?” para “O que eu tenho e posso compartilhar?”.

Para terminar, gostaria de mencionar que uma das coisas que tem me ajudado na relação com meus filhos e que só consegui fazer depois que eles nasceram: meditar. Medito diariamente por 20 minutos utilizando um site em inglês chamado Get Some Headspace. É rápido, fácil e não tem nada a ver com religião. Não é preciso acreditar ou mudar sua crença para meditar. No documentário, o professor Richard Davidson (Ph.D em Personalidade, Psicopatologia e Psicofisiologia pela Universidade de Harvard nos EUA) diz que  “Algumas formas de meditação focando em compaixão, amor e gentileza mostram aumento de felicidade em apenas duas semanas e inclusive o algumas áreas do cérebro efetivamente crescem após o início dessa prática.” Mas ele continua dizendo que, além da meditação, outro fator que influencia muito a felicidade é a prática de atos de gentileza.

Fiquei pensando que meus filhos me propiciam fazer atos de gentileza diariamente (o que não significa fazer tudo o que eles querem). Colocar um limite com calma e amor, é um ato de gentileza. Brincar é um ato de gentileza. Contar histórias é um ato de gentileza. Tudo isso desde que estejamos presentes e sem fazer essas coisas com expectativas ou objetivos pré-determinados. Simplesmente estar.

12 respostas
  1. Edith Michelsohn
    Edith Michelsohn says:

    Que bom que você está gostando da meditação, Edu e Cristina praticam ha muito tempo, eles vão 2 vezes por ano a um sitio onde tem palestras e meditações e saem de lá renovados, bjs

    Responder
  2. thais stoklos kignel
    thais stoklos kignel says:

    Oi Marcelo, Oi Regiane. Acho que ela vai se lembrar de mim, “fizemos ” tacatum juntas, sou mãe da Tina e da Lia. E depois experimentamos a aula com a professora nova, Lembra?
    Só para dizer que estou adorando o blog. Não para não…rs
    E depois se quiser e puder, vc acha que seria legal falar da birra?

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  3. Maria
    Maria says:

    Marcelo, que delicia poder sempre ler os seu blog… parece que a sincronico as questões provocadas vem sempre em boa hora! Obrigada!!!! Saudades de vocês. bjo grande a todos ai… acho que hoje vc já voltou para casa!!!! E olha só o espaço para o encontro dos homens continua em pé ein!

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Querida Maria! Que saudades!!! Sim, já estou em casa. Agradeço muito a oferta do espaço para o grupo de homens. Assim que eu me organizar vou falar com você. O blog está abrindo muitas oportunidades e vou me dedicar cada vez mais ao tema da conexão entre adultos e crianças. Em breve trocaremos mais sobre isso. Quero ouvir como está o seu trabalho com o coach para mulheres. Tenho certeza que poderemos colaborar. Beijão!

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  4. Talitha Rozenbaum
    Talitha Rozenbaum says:

    Eu me identifico muito c/ essa sua forma de viver e c/ esses valores. A meditação faz parte da minha vida já há um tempo e percebo que me ajuda muito a estar mais presente comigo mesma e c/ todos ao meu redor. Atos gentileza é algo que de fato cresceu muito na minha vida c/ filho. Quanto a viver em comunidade, é algo que não faço mas acredito que deve facilitar a vida de todos. Por acaso eu estou justo agora lendo um livro que tem algumas falas nesse sentido, que me tocaram muito. A autora Laura Gutman diz: “creio que somos “desenhados” para viver em comunidade, como a maioria dos mamíferos porque um pai e uma mãe não são suficientes para criar um filho”. Achei muito interessante na verdade tudo o que ela diz em torno da maternidade.

    Acredito que é p/ algo assim que vamos ainda, a maioria, caminhar!

    Abçs

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  5. Diogo
    Diogo says:

    Ei Marcelo,

    Esse post me lembrou este livro aqui http://www.amazon.com/Ethics-New-Millennium-Dalai-Lama/dp/1573228834.

    Logo no início do livro, o DL ressalta a importância da ajuda mútua e da vida em comunidade apara a felicidade jumana. P

    Procurando entender por que as pessoas dos países pobres parecem, em geral, mais felizes que as pessoas de países ricos, ele aponta a necessidade que as pessoas dos países pobres tem de pedir ajuda (e de ajudar) aos mais próximos como uma dos principais fatores para esta diferença de felicidade.

    É por aí mesmo.

    Abraços

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Que legal Diogo. É incrível como as tradições antigas e as pesquisas mais modernas estão confluindo. E como, ao mesmo tempo, nosso sistema sócio-econômico nos leva para o outro lado. Mas acredito no que a Ana Thomaz fala: não precisamos esperar algo externo mudar para transformarmos nossa vida. Começa com cada um de nós, na situação em que estamos hoje!. Grande abraço!

      Responder

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