Parquinho: lugar de brincar

A Menina e a Ponte

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(Esse texto, de 3 minutos, relata uma situação na qual um pai não confiou na capacidade de sua filha de resolver um problema e, ao querer ajuda-la, atrapalhou. Faço  também uma reflexão sobre controle e confiança)

Sabe aqueles brinquedos de madeira que tem em parquinhos e algumas praças, no qual a criança sobe por uma escada, passa por uma ponte, chega até uma casinha e de lá pode escorregar? Pois bem, Luna e Leo estavam brincando juntos na parte da ponte. Estavam pulando, caindo, deitando na ponte, ou seja, se divertindo. Uma menina que deveria ter entre 3 e 4 anos começa a subir a escada e vai precisar passar por ali. Quando ela está chegando no final da escada, alerto Luna e Leo que a menina está subindo e que vai querer passar pela ponte. Os dois, então, começam a ir para o canto da ponte para deixar a menina passar. Antes que a menina chegasse ao final da escada e tentasse passar por Luna e Leo, o pai pega a filha por trás no colo, carrega pelo lado de fora do brinquedo e a coloca sentada no começo do escorrega dizendo: “Vem por aqui que é mais fácil”. Quando o pai solta a menina, ela começa a chorar. O pai, lá de baixo insiste: “Vai, escorrega!”, “Para de chorar.”. A menina não para e a mãe que estava sentada observando, se levanta e o pai vai se sentar. A criança então escorrega e vai chorar no colo da mãe.

Você já se pegou agarrando seu filho por trás dessa maneira? Eu me lembro de fazer isso com a Luna antes de ter feito o curso de Educação Ativa. Eu simplesmente passava e a pegava no colo, geralmente dizendo algo como “vamos comer” e a colocava no cadeirão. Ou “vamos pro carro” e a levava para fora de casa. Que desrespeito! Imagine se eu tivesse sentado lendo um livro e alguém me agarrasse e começasse a me levar para algum lugar. Nenhum de nós aceitaria isso, mas muitos de nós fazemos isso com nossos filhos.

A repetição desse ato diariamente ou semanalmente pode fazer com que a criança vá aos poucos perdendo a possibilidade de estar relaxada pois ela sabe que a qualquer momento pode ser carregada para algum lugar. É claro, que a criança consegue ficar muito no presente, sem ansiedade sobre o que pode acontecer, mas a repetição desse ato vai aos poucos minando essa capacidade.

Além disso, agindo assim ensinamos a elas que alguém mais forte pode se impor através da força. Como resultado, essa criança tenderá a se tornar um adulto que ao mesmo tempo vai temer e obedecer pessoas em posições de poder e abusar do poder quando estiver com pessoas mais fracas.

O que o pai poderia ter feito de diferente? Em primeiro lugar ele poderia ter deixado a filha lidar com a situação de atravessar a ponte passar por duas crianças estavam lá. Se o pai estivesse relaxado e presente, ele poderia observar como ela lida com essa situação. Que soluções ela encontraria para esse desafio? Geralmente, crianças que estão relaxadas conseguem tranquilamente lidar com essas questões e achar soluções sem a interferência de um adulto. Isso não quer dizer que os adultos não precisam estar lá presentes e conectados com o que está acontecendo. A presença de um adulto relaxado, atento, amoroso, é muito importante para criar um ambiente seguro e relaxado para as crianças.

Agora, voltando a lente para o meu comportamento nessa situação. Eu mesmo tentei me antecipar ao desafio que a criança ia enfrentar e já fui falando para meus filhos o que eu achava que ia acontecer: “A menina vai querer passar pela ponte.” Apesar de eu ter feito isso de forma respeitosa, eu também não permiti que a situação acontecesse naturalmente. Acho que fiz isso pois queria ajudar o outro pai. Queria evitar que ele interferisse no movimento de sua filha. Eu quis facilitar a vida dele. E nesse momento, eu saí do presente. Fiquei ansioso com um possível futuro, que no final das contas aconteceu mesmo. Será que eu ajudei a cria-lo? Com certeza!

Existe uma virada de chave necessária para esse estar diferente no mundo. É a virada do controle para a confiança. É difícil virar essa chave, pois fomos (a maioria) criados por meio de controle e, portanto, é nosso padrão. Mas, ao olhar para minha vida nos últimos anos, consigo perceber essa transformação ocorrendo, ainda de forma tentativa, com idas e vindas. Cada vez que olho para e estou com os meus filhos a partir do lugar da confiança sinto que isso gera vitalidade, criatividade e presença. E cada experiência dessa, por consequência, amplia minha coragem e minha capacidade de confiar. Confiar em mim, nas crianças, na Regiane e no pai da menina que queria passar pela ponte.

9 respostas
  1. Talitha Rpzenbaum
    Talitha Rpzenbaum says:

    Muito bom Marcelo! Acho que todos nós precisamos de patrocinadores, que confiem em nós e nos incentive a seguir em frente, inclusive qd nos deparamos c/ desafios. Quando não temos isso fica difícil termos auto-confiança. Quanto antes temos isso, sem dúvidas, melhor é. Muitas vezes não encontramos nos pais isso, e vamos encontrar num tio, num professor ou num amigo mais experiente que acredita na gente.

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  2. Tiago
    Tiago says:

    Então Marcelo, situação real.

    O nosso Miguel está cada vez mais consciente de suas necessidades e muitas vezes não quer vestir a fralda. Em alguns momentos acontece dele fazer xixi onde estiver. Na última (que aconteceu agora há pouco), estávamos fazendo um sessão de Skype com minha irmã que mora no Rio e ele fez no sofá. Tivemos muita dificuldade para convencê-lo a vestir a fralda e só não foi “forçada”, pois colocamos nele enquanto ele assistia ao DVD do Pequeno Cidadão. Isso é uma forma de forçar seu filho a fazer algo que ele não quer?

    Abraços.

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  3. Tiago
    Tiago says:

    Oi Marcelo,

    Legal esse post. Já observei várias situações semelhantes a que você descreveu. Depois das diversas vivências de educação ativa também evito fazer isso com o Miguel.
    Minha pergunta vai em outro sentido: como lidamos quando nós temos necessidades que vão de encontro com os desejos de nossos filhos. Como lidamos com isso?
    Em diversas situações precisamos sair ou fazer outra coisa, mas nossos filhos não querem isso. O que fazer?

    Abraço,

    Tiago

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  4. Laura Gonçalves
    Laura Gonçalves says:

    Difícil mesmo essa virada. Eu, pessoa MEGA controladora…que usa o controle para “controlar” a ansiedade desde pequena e vive a missão de mudar isso. Confiar…fiar junto, né?

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  5. Andrea Bacellar
    Andrea Bacellar says:

    A virada do controle para a confiança… difícil isso, em qualquer momento da vida, Marcelo. Acredite, quando os filhos são adolescentes e os desafios são outras pontes, onde vc não pode estar presente, o desafio fica cada vez maior, rsrs! Mas vamos tentando… beijos!

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  6. Andy
    Andy says:

    Maravilhoso seu texto e suas observações!! Acredito muito nessa forma de educar na qual permitimos que nossos filhos acertem, errem, se machuquem um pouquinho e aprendam com suas próprias experiências… temos que lembrar que eles demoram mais para fazer coisas que são automáticas para nós, não porque são lentos, mas porque estão aprendendo… por isso mesmo, temos que sair mais cedo de casa, se quisermos deixá-los livres para essas experiências, para evitar que tenhamos que “arrastá-los” de um lugar a outro para cumprir os nossos compromissos. Quem disse que o meu compromisso é mais importante do que o aprendizado deles? Um beijo a você, à Regiane, à Luna e ao Leo!!

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