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Há Tempos que Eu não Via um Pai bater em um Filho!

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(Esse texto, de 3 minutos, descreve uma cena de agressão que presenciei em um parque público e questiona esse tipo de prática a partir de estudos recentes)

Há muito tempo eu não via uma cena de uma criança apanhando covardemente de um pai. Estávamos em pleno parque da cidade natal da minha esposa. Levamos todos os apetrechos para brincar com areia e água: balde, pá, colheres, xícaras, bule, coador, potes, etc. Eu estava sentado na areia perto dos meus filhos e da minha sobrinha, quando um menino de mais ou menos 4 anos se aproximou e começou a brincar junto.

Estava tudo tranquilo. O menino brincava em harmonia. Em um momento, porém, minha sobrinha que tem três anos e meio, pegou uma pá que estava na mão do menino. Ao ver o movimento dela, que não foi brusco, eu falei: “a gente não puxa as coisas da mão do outro”. Ela olhou pra mim e disse: “mas eu quero essa pá.” e eu repeti com tranquilidade “A gente não puxa as coisas da mão do outro.” Ela soltou e foi brincar com outra coisa. Vindo não sei de onde, um adulto chegou por trás do menino, arrancou a pá da mão dele, agarrando-o e levantando-o por trás dizendo: “tá na hora de ir embora”. Não tive reação. O homem atravessou a área de brinquedos do parque, suspendeu o menino por cima das grades e passou junto para o lado de fora. Colocou o menino no chão e quando o menino começou a andar, lhe deu um tapa com raiva e violência na bunda. Fiquei assustado e paralisado. Regiane estava mais próxima da cena. Olhou pra mim espantada e, indignada, foi em direção ao homem, falando: “Ele pode continuar brincando. Ele não fez nada. Está tudo bem.” O homem parou e disse: “Ele desobedeceu.”. Regiane continuo explicando que ele estava brincando tranquilo e que não fez nada de errado e o homem repetia que ele desobedeceu e que eles tinham que ir embora mesmo. Menino e adulto se afastaram. Regiane voltou com os olhos cheios de lágrimas, mas não tivemos tempo de processar o acontecido pois nossos filhos e nossa sobrinha continuavam a brincar felizes pelo parque. Após alguns minutos, vimos o menino, o adulto e uma mulher passeando pelo parque, sem a menor pressa de ir embora, como o homem havia sugerido.

Tente se colocar no lugar desse menino. Imagine que você está tranquilo, lendo um livro em um belo lugar ao ar livre. De repente, alguém muito maior que você, chega por trás e sem você ter tempo de reagir, tira o livro da sua mão e o joga no chão, arrasta você pelas costas por uns dez metros e depois te dá um tapa. É impossível ou pelo menos muito difícil imaginar essa cena acontecendo entre dois adultos. Parece algo surreal e imediatamente pensamos que a pessoa que fez esse ataque deve ser louca. Posso imaginar a pessoa que sofreu o ataque tentando se desvencilhar e revidando o tapa, gritando, chamando a polícia. Mas, quando acontece entre um adulto e uma criança a maioria das pessoas não só acha normal, mas rapidamente diz que é direito dos pais fazer o que quiserem para “educar” os filhos.

Alfie Kohn, em seu livro “Unconditional Parenting” apresenta estudos mostrando que a punição é algo extremamente ineficaz. Algumas pesquisas mostram que crianças que são punidas vão para um dos extremos: super-obedientes ou super-desobediente. Muitas começam a apresentar comportamentos muito distintos dependendo do ambiente. Podem ser extremamente comportadas na presença dos pais ou de figuras de autoridade, mas quando estão apenas com outras crianças aproveitam para extravasar essa raiva contida através de comportamentos agressivos. Kohn escreve “A única coisa que ensinamos ao bater é que é possível que as coisas sejam feitas do seu jeito se você achar alguém mais fraco e submeter essa pessoa.” Apesar da punição física ser a mais fácil de ser observada e até de ser questionada, qualquer tipo de punição tem consequências ruins para a criança e para sua relação com os adultos mais importantes para ela, seus pais. “Mau comportamento e punição não são opostos que se cancelam, mas sim pólos que se reforçam.” escreve Alfie Kohn.

O menino do parque não estava demonstrando nenhum comportamento que habitualmente os adultos tendem a considerar errado e que exige punição. Ele não bateu, não empurrou, não puxou um brinquedo. Será que aquele adulto, de longe, interpretou que Lucas tentou pegar a pá da minha sobrinha e não vice-versa? Acho que não. Provavelmente, esse adulto, que por sinal estava muito longe da cena, não quer nem saber o que está acontecendo. Ele já assume que a criança está fazendo algo errado e não perde a oportunidade para puni-lo.

Provavelmente ser agredido sem apresentar comportamentos entendidos como “errados” pelos adultos deve ter uma consequência terrível para a criança. Ela deve se sentir o tempo inteiro com medo, sem saber quando e porque será agredida. Mas é bom ficar claro, que a punição, em qualquer circunstância e sob qualquer forma traz consequências ruins para a criança. A punição, seja batendo, seja colocando de castigo, seja através da fala ou mesmo de um olhar ensina para a criança que nosso amor por ela é condicionado. Ou seja, só a amamos quando ela se comporta da forma que nós achamos certo. Estudos mostram que amor condicionado leva ao desenvolvimento de adultos que se sentem mais rejeitados e que tem piores relações com os pais. A Universidade de Denver fez um estudo com adolescentes e concluiu que aqueles que sentiam que tinha que agir de determinada maneira para serem amadas, tendem a ser mais deprimidas e a levar uma vida na qual não sabe quem ela realmente é.

Uma sociedade que  incentiva punição, castigo ou qualquer tipo de abuso só poderia ter as características que observamos hoje: índices crescentes de depressão, ansiedade, suicídios, baixo senso de comunidade. Imagine como seria uma sociedade que respeitasse as crianças? E a pergunta que ficou para mim é: o que eu poderia ter feito de diferente? Como lidar com esse tipo de situação?

12 respostas
  1. Priscila
    Priscila says:

    Olá Marcelo,
    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que adorei seu blog, a forma singela, tranquila e franca com que você relata as situações e suas reflexões. Parabéns!
    Gostaria também de dividir com você um questionamento que sempre me faço: como agir quando outra criança (desconhecida) é quem rouba a pá da mão do seu filho?
    Pergunto isso porque essa situação é recorrente conosco. Sempre vamos ao parque, nossa filha Alice brinca muito com as crianças, todos levam brinquedos que são usados por todos. Mas por vezes isso acontece e ficamos muito inseguros sobre como agir. Se é a Alice, conversamos com ela e explicamos que não é legal, normalmente ela devolve com muita tranquilidade. Mas quando é outra criança que tira dela e os pais não estão por perto, tentamos conversar, mas nem sempre a criança devolve. Aí gera uma frustação na Alice e imagino que passe na cabeça dela “poxa, porque eu sempre tenho que devolver mas não devolvem para mim?”
    Como vocês lidam com essa situação? Gostaria muito de ouvir sua opinião sobre isso….
    Desde já, muito obrigado e prazer em conhecê-lo! :)
    Abraços
    Priscila

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  2. Larissa
    Larissa says:

    Oi, Ma!
    Tinha lido este texto rapidamente, mas hoje fiz com mais calma… Há muito tempo não presencio cenas como esta que você presenciou, mas já passei por elas e sempre fico na dúvida de como agir… acredito que ainda é muito forte a crença do tipo “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, embora saibamos que não é bem assim. Uma vez eu e um amigo presenciamos uma cena semelhante, mas o pai estava levando a filha para o carro, puxando-a pela mão e gritando com muita violência. Este amigo reagiu, chamando-o de covarde, anotando a placa do carro dele e ameaçando chamar a polícia (o que deixou o pai ainda mais nervoso). Eu fiquei paralisada. De um lado, achei ótima a reação do meu amigo, de outro fiquei pensando o que de fato poderia ter ajudado àquela criança, naquele momento… Ainda não consigo ter respostas… Mas vamos pensando juntos! beijos

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  3. Alexandre Costa
    Alexandre Costa says:

    O texto é bem interessante, mas alguns pontos não ficaram claros para mim. Qual a relação entre a punição e o amor paternal? Acho perfeitamente possível repreender por um comportamento errado e, após o assunto ter se encerrado, continuar demonstrando meu amor pela criança. A punição, que não é uma invenção humana, funciona para mostrar ao indivíduo que aquela forma de comportamento não é aceitável naquele grupo social. Outra coisa que não ficou claro foi a questão de comportamentos que adultos consideram errado. Não é esse o mundo, os adultos ensinam e as crianças aprendem? Ou seja, comportamento que adultos consideram errado é pleonasmo. E se a criança não quer aprender, não deve ser punida por um comportamento socialmente inadequado? Aí tem outro ponto: o “socialmente” depende da sociedade. O que aceito no Brasil não é na Ásia. E aqui eu discordo do fim do seu texto. Dizer que a sociedade atual deprimida e ansiosa é culpa de crianças que foram punidas é absoluto exagero. Além disso, falta de senso de comunidade existe no Brasil. Diversos países tem senso de comunidade bastante desenvolvido, como EUA e Japão.

    Mais importante que tudo, Marcelo, gosto dos seus textos e não quero, de forma alguma, criar polêmica. Quero entender mais do que vc comenta e questionar seus textos é uma das formas, certo? Se vc achar mais adequado, continuamos por email. Abs!

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    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Oi Alexandre. Obrigado pelo seu comentário, suas críticas e perguntas. Acredito que as principais questões que você trouxe podem ser explicadas por uma diferença de crenças. Não estou falando de crenças religiosas, mas sim daquelas peças que juntas formam nosso modelo mental. Se você acredita que as crianças são seres que naturalmente tem comportamentos socialmente inaceitáveis, então o papel dos adultos seria realmente controlar e coibir esses comportamentos. Eu, atualmente, acredito que as crianças naturalmente tem atitudes adequadas que servem a sua vida e a vida dos demais, desde que elas estejam bem. Ao longo dos dias, das semanas vão acontecendo coisas com as crianças que vão gerando sentimentos de tristeza, raiva e medo. Se os pais dão oportunidades e ajudam a criança a extravasar esses sentimentos ela volta a “funcionar bem” e não há necessidade de punição ou controle. Cada vez que um adulto pune uma criança, ao invés de ajuda-la a extravasar essas emoções que prejudicam seu funcionamento, eles criam mais sentimentos de tristeza, medo ou raiva. Isso que estou falando se baseia numa meta-pesquisa* que revisou 600 estudo principalmente em língua inglesa, que mostram que a conexão entre pais e filhos é o principal fator que previne problemas na adolescência. O estudo fala que essa conexão é melhor realizada quando não há punição e sim a colocação de limites de forma carinhosa. Uma criança que está invadida por sentimentos de raiva, tristeza e medo começa a se comportar inadequadamente como forma de pedir ajuda. Se a criança conseguisse falar nesse momento, diria: “Por favor, não estou conseguindo pensar direito. Meu sistema límbico inundou meu cérebro com emoções com as quais não consigo lidar sozinho. Meu neocórtex não está funcionando e por isso não consigo raciocinar direito. Preciso de conexão. Não preciso de uma punição que só vai me deixar mais triste e com medo. Não preciso de explicações, pois quando meu neocórtex não funciona, eu não consigo entender as coisas direito.” Mas, exatamente por conta dessa inundação de sentimentos, ela não consegue se expressar assim e portanto pede ajuda com sinais que vão ficando cada vez mais altos, se os adultos não interferem logo.

      Outra questão. Quando você diz: “Não é este o mundo, os adultos ensinam e as crianças aprendem?” Também diria que isso é baseado em um determinado paradigma, em determinado modelo mental. No meu modelo mental atual eu penso que nossa função como adultos é criar ambientes seguros e que promovam o desenvolvimento das crianças, deixando que elas explorem o mundo da maneira como quiserem, buscando seus satisfazer suas necessidades e buscar seus interesses. Por exemplo, não acho que uma criança de 4 anos deve ser ensinada a escrever. Nessa idade, sua necessidade é muito mais sensório-motriz e afetiva. Ela precisa de um ambiente que permita várias experimentações sensórias. Eu não preciso ensinar meus filhos a brincar com água e areia. Eu preciso deixar eles explorarem. E se eles colocarem areia na boca? Bom, vão aprender por experiência e não por punição, que isso não é tão agradável.

      Japão e EUA são dois países onde as pessoas mais trabalham e onde tem menos férias e portanto menos tempo para passar com seus filhos. Por outro lado, assisti um documentário chamado “Happy” que cita a Ilha de Okinawa como um dos lugares mais felizes do mundo exatamente pela coesão social. Mas não acho que a Ilha represente a maior parte do Japão. Mas posso estar enganado.

      Obrigado pela oportunidade de reflexão. Abraços.

      *Para acessar a pesquisa, clique aqui: http://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CCoQFjAA&url=http%3A%2F%2Frecapp.etr.org%2Frecapp%2Fdocuments%2Fresearch%2Flitreview.pdf&ei=4Y9FUt2wK4-08QSk8YGYBg&usg=AFQjCNE3E_Y4XfOvmevQmlgbbNw-PzF_ZA&bvm=bv.53217764,d.eWU

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  4. Lais Cortes
    Lais Cortes says:

    Olá, gosto muito dos seus textos e sempre leio, este para mim nao ficou muito claro, gostaria que vc explorasse mais a questão do errado/castigo/correção.
    A atitude que você teve com sua sobrinha nao seria uma forma saudável de corrigir um erro? Apontar, fazê-lá devolver a pá, pois no final do texto tive uma certa duvida, entendi que os erros nao deveriam ser corrigidos, ou um questionamento maior do que é certo e do que é errado.
    Um abraço,
    Laís – mae do Samuel (3 meses)

    Responder
    • Beatriz Azevedo
      Beatriz Azevedo says:

      Laís, eu entendi que o autor agiu de igual para igual com sua sobrinha ao dizer a ela o que é certo. Ele a tratou como um ser pensante e que merece respeito e com o qual se pode falar sobre o que é certo e o que não é. Ele corrigiu, exemplificou o erro, mas não puniu seja falando duro, gritando, tomando a pá da mão dela, sacudindo-a, batendo nela.

      Responder
    • Marcelo Michelsohn
      Marcelo Michelsohn says:

      Oi Lais, obrigado pela sua pergunta. Gostei da resposta da Beatriz. O que fiz com minha sobrinha foi falar para ela que “eu não puxo as coisas das mãos das pessoas” e deixei que ela decidisse o que fazer. O legal é que nessa situação duas coisas poderiam ter acontecido: se ela estivesse emocionalmente invadida por sentimentos de raiva, tristeza ou medo e portanto com dificuldade de se conectar consigo e comigo, ela teria reagido de outra maneira. Teria chorado, esperneado, insistido. Se esse fosse o caso, eu iria manter o limite, repetindo a mesma frase e estendendo minha mão para que ela pusesse a pá na palma da minha mão. Isso poderia durar 5, 10, 15 minutos ou mais, dependendo da necessidade dela de chorar para extravasar sentimentos. Como ela estava bem, como estávamos conectados, bastou que eu a lembrasse de uma regra, para ela devolver a pá. Isso mostra que, quando as crianças estão bem, elas vãõ tomar as decisões certas. Isso é uma crença que demora pra se instalar em muitos de nós (eu inclusive) pois fomos criados para acreditar que as crianças precisam ser controladas, caso contrário irão sempre optar pelo comportamento “errado”. Quando eu parei de acreditar no controle e comecei a acreditar na conexão, minha vida e minha relação com meus filhos mudou. No final do texto, eu faço uma pergunta: “O que eu poderia ter feito diferente?” Essa pergunta não se refere à ação com minha sobrinha, mas sim à minha falta de reação com o pai do menino. Eu estou me perguntando se deveria ter falado com ele, se deveria ter chamado sua atenção pelo gesto covarde que ele teve com o filho. Será que foi isso que causou confusão no texto? Novamente obrigado pela oportunidade de refletir e caso minha resposta não tenha sido suficiente, pode continuar perguntando aqui ou no email marcelo@filhasefilhos.com. Abraços!

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