Brincar-escutando: como deixar os filhos liderarem

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Toda noite, após o jantar, por volta das 19:30 eu brinco com meus dois filhos, Luna (4) e Leo (2). Eles decidem onde e como querem brincar. Ultimamente eles tem escolhido brincar em minha cama. Antes de começarmos eu aviso que estou colocando o despertador para tocar em 15 minutos. Fazemos diversas brincadeiras, em sua maioria brincadeiras físicas.

Hoje de noite, estávamos brincando e Luna pediu para eu ficar de quatro para ela montar em mim como se eu fosse um cavalo. Deixei ela montar, andei um pouco pela cama e depois virei o corpo para ela cair. Não foi um movimento brusco, porém ela me disse: “Pai, eu não gostei disso.” Me dei conta que não deixei que ela controlasse a brincadeira e introduzi um elemento que não estava alinhado com a necessidade dela naquele momento.

A partir desse momento, fiquei mais atento às necessidades deles e passei a perguntar mais o que eles queriam que o cavalo fizesse. Eles então criaram toda uma brincadeira na qual o cavalo levantava, passeava com eles em cima, parava para comer, para beber e em certo momento o cavalo foi até penteado.

Em outro momento, Luna disse que eu era um leão e que eu comia as crianças. Perguntei para o Leo se ele gostaria de brincar assim e ele disse que não. Se eu não estivesse atento, poderia ter entrado na brincadeira sem checar se era realmente algo que ele também queria. Mesmo Luna, que sugeriu a brincadeira, depois disse que não queria que o Leão a comesse. Acho que ela queria que o leão comesse apenas o Leo, mas não vou entrar em interpretações sobre a relação entre irmãos aqui.

Patty Wipfler chama essa técnica de “Brincar-escutando” (Playlistening). Uma das regras básicas é não deixar suas próprias questões se intrometerem na brincadeira. “Às vezes, devido a questões que nunca resolvemos quando éramos crianças vamos levar a brincadeira para uma direção que não foi definida pela criança (…) Não é fácil se deixar guiar pela criança durante a brincadeira.” (Listening to Children: Playlistening). Acho que a melhor coisa que aconteceu foi ela ter me mostrado o que queria e o que não queria e ao invés de eu ficar me punindo por ter errado, eu simplesmente lembrei de prestar atenção e segui adiante.

Não sei exatamente o que eu não resolvi quando criança, mas a idéia de derruba-la do cavalo foi minha e me colocou na posição de mais habilidoso. Ainda segundo Patty Wipfler  “(ao brincar-escutando) Você está oferecendo ao seu filho um alívio das dificuldades da infância, que incluem ser menores, mais fracos, menos respeitados, menos habilidosos e menos livres para determinar sua vida. O riso que resulta de brincadeiras em que seu filho se sente mais poderoso do que você, faz com que ele libere muitas tensões. E também aproxima vocês(…) Constrangimentos, medos leves e timidez são dissolvidas.” (Listening to Children: Playlistening).

Não dá pra saber sempre ao certo, quais as tensões que a criança está liberando durante a brincadeira. Sinto que ao tentar interpretar o que está acontecendo durante a brincadeira, eu perco a conexão. Então, agora, nem tento entender o conteúdo da brincadeira, contanto que eles estejam se divertindo e dando boas risadas.

Este artigo está disponível em inglês no blog do Hand in Hand parenting. 

This post is also available in english at the Hand in Hand Parenting blog here. I am a Parenting by Connection Instructor in Training at Hand in Hand Parenting. )

3 respostas
  1. Fernanda
    Fernanda says:

    Olá, Marcelo
    Meu menino de 3,5 anos me pede sempre para brincar de desenhar ou de massinha, mas ele não faz nada, não se permite parece; ele quer que eu faça bichinhosde massinha e desenhe coisas para ele. Como posso estimula-lo a desenhar? Obrigada!!!! Fernanda
    Ps. Descobri ontem o grupo, e já estou querendo ajudar nas traduções!

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  2. Joana
    Joana says:

    Marcelo, é possível brincar-escutando com bebês? Meu filho de 2 meses gosta muito dos seu móbiles, e é pode ficar observando-os por muito tempo (às vezes, mais de meia hora sem que ele reclame ou me olhe), e, geral fico com ele no mesmo ambiente apenas observando, sem interromper a concentração dele, mas noto que depois de um tempo ele fica muito agitado e logo depois começa a chorar – tenho a impressão que ele fica frustrado por não conseguir pegar/tocar o móbile, além de ficar cansado pelo esforço…

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  1. […] das técnicas que aprendi foi usar o “Brincar” como uma forma de me conectar com ela (e comigo mesmo). Na verdade eu adoro esses momentos e fico […]

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