Pai conectado com o filho

Como Colocar Limites e Aumentar a Conexão com os Filhos

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As vezes nossos filhos se comportam de uma maneira que desafia nossa compreensão. Por que o convite para vir tirar uma soneca na cama dos pais se transforma em um problema? Como enxergar isso como uma oportunidade para colocar limites e aumentar a conexão? Nessa história que aconteceu ontem eu conto tudo isso, explico como coloquei o limite e como isso ajudou meu filho a extravasar alguns sentimentos e depois a se conectar ainda mais comigo. Foi emocionante.

Lembre-se que não existe fórmula mágica. É apenas uma história, um conto, um “causo”. Se fizer sentido, fez. Se servir, serviu.

Separação, Trabalho e Descanso

Na 6a passada viajei e fiquei três dias fora de casa em uma vivência fantástica de Taketina. Antes de ir decidi fazer 15 minutos de Momento Especial com cada um dos meus filhos. Minha filha mais velha tem quase 5 anos e meu filho tem 2 anos e meio. Na minha opinião não deu muito certo pois parte de mim estava fazendo o Momento Especial para minimizar o fato de que no dia seguinte eu ia viajar e queria que eles ficassem bem. O incrível é que quando você faz isso sem expectativa, a coisa flui, mas quando você coloca um resultado esperado, a coisa degringola.  Degringola por que esse tipo de “ferramenta” requer presença e no momento que começamos a colocar resultados esperados, saímos do presente. Não é por acaso que ouvi e senti a mesma coisa lá na Taketina.

Voltei para casa no domingo de noite e as crianças já estavam dormindo. Na 2a de manhã tomei um café da manhã mais prolongado com eles e tivemos tempo para conversar e brincar um pouco. Depois fui trabalhar. Precisava escrever e entregar um documento super importante até a noite. Não rendi muito durante o dia. Parei para jantar.

Depois eu e as crianças fomos para minha cama fazer uma sessão de 15 minutos de Brincar-escutando. Pulamos, caímos, rolamos e demos muita risada. Entramos os 3 no banho e depois fomos tomar o nosso chá da noite. Relembramos as coisas boas do dia e agradecemos às pessoas que nos ajudaram. As 21:00 fui trabalhar e só parei as 4:00 da manhã quando enviei o documento.

Acordei 9:30 ainda meio grogue. Minha esposa pediu para eu ficar com nosso filho enquanto ela dava banho na mais velha. Aproveitei para fazer um Momento Especial com ele, sem ter um objetivo além de me conectar. Ele pediu para brincar com fósforo e uma vela.

Ele tem dois anos e meio. Tentou acender um fósforo mas não conseguiu. Segurei em sua mão e risquei o fósforo que ascendeu. Ele levou o fósforo até a vela que também se ascendeu. Ele apagou o fósforo  logo colocou o dedo na cabeça do fósforo que acabara de apagar e queimou um pouco o dedo. Não chorou. Ficou chateado e pediu para colocar gelo e água. Fizemos.

Almoçamos todos juntos e então eu fiz o convite: vamos tirar uma soneca no meu quarto? Eu coloco o colchão de vocês lá e descansamos todos juntos! Eles adoraram a ideia e me seguiram. Mas, minha filha tinha acordado tarde, então ela logo se levantou e saiu do quarto para brincar.

Colocando Limites e Escutando o Choro

Meu filho estava super inquieto. Ele acordou as 6:00 e, portanto, estava cansado depois do almoço. Para deixar o assunto mais complexo, minha esposa decidiu que não vai mais deixar ele adormecer mamando, portanto nada de mamar antes da soneca. Ele pediu para mamar e ela disse não. Ela ficou oferecendo várias alternativas para ajuda-lo. Vou chama-la de “R” e meu filho de “L”.

R: “Você quer vir aqui na cama conosco?”

L: “Quero.” Ele vinha e não parava quieto

R: “Você quer vir no colo?”

L: “Sim.” E não parava quieto. “Quero ir no seu colo com você sentada!”

O tom de voz e o tipo de pedido me fizeram ascender a luz vermelha. Quando ele está bem, um convite para descansar junto conosco na nossa cama, seria a coisa mais tranquila e certa do mundo. Lembrei da Patty Wipfler explicando que quando a criança está cheia de emoções e não consegue descarregar, ela começa a ter comportamentos que ela não teria se estivesse tranquila. E, portanto, ela precisa de limite para poder chorar e extravasar esses sentimentos. Continuei ouvindo, para me certificar.

R: “Tá bom, eu fico sentada.”

Ele veio para o colo dela, continuo se mexendo e depois eu vejo que ele escorregou para o colchão que estava no chão e começou a brincar com a persiana. Bingo. Era hora de agir. Desci da cama, fui até onde ele estava, olhei em seus olhos e disse: “Agora é hora de descansar. Você vai descansar na cama no meio da mamãe e do papai.”

L: “Não! Eu quero ficar aqui!”

Eu: “Você não vai ficar aqui. Agora eu vou mover o seu corpo e você vai descansar na nossa cama.”

É importante notar a diferença do limite e da tentativa de coerção. Eu não falei: “Ou você vem para a cama, ou eu vou te pegar.”. Também não usei punição: “Ou você vem, ou não vai poder brincar com a vela mais tarde”. Também não usei chantagem: “Vem, que depois da soneca te dou um chocolate”. Eu simplesmente expliquei para ele, com um tom de voz seguro, porém calmo que aquela era a hora de descansar e que ele iria descansar conosco. Lembrando, que descansar no meio da mãe e do pai é uma das propostas mais atraentes para ele, quando está tudo tranquilo.

Também preciso mencionar que eu não estava fazendo isso para “ensina-lo” a dormir ou para “educa-lo”. Eu estava servindo como um limite, como algo contra o qual ele pudesse se deparar para poder descarregar suas emoções.

Não sei ao certo quais emoções eram e ao que estavam relacionadas, mas poderia supor que ele estava triste por eu ter passado três dias fora, ou que ele estava chateado por ter se queimado com o fósforo apagado. Não importa. Não precisamos e não conseguiremos entender tudo o que está em jogo.

Levei ele para cama e ele tentou sair. Mantive meu braço na frente dele, sem agarra-lo para impedir que ele saísse da cama. Ele começou a chorar e dizer que queria ir para o colchão dele. Eu fiquei ouvindo, olhando nos olhos dele e de vez em quando falava: “Agora você vai descansar na nossa cama.” ou “Eu sei que você quer ir para o seu colchão”. Essas frases ajudavam o choro a fluir. Ele tentou pular por cima da mãe, e ela  também colocou o limite com seu corpo, sem agarra-lo. Ele empurrou meu braço e disse: “Tira o braço de mim!” Eu tirei e fiquei olhando em seus olhos enquanto ele chorava sentido. . Estava soluçando baixinho. Deitei e fiquei olhando para ele enquanto seus olhos começaram a pesar e adormecemos.

Carinho e conexão

Acordei. Ele ainda estava dormindo. Minha esposa já tinha levantado. Deixei ele em nossa cama e fui para o outro quarto, trabalhar. Deixei a porta aberta para vê-lo quando acordasse. Depois de 15 minutos, ouvi ele descendo da cama e saindo do quarto. Geralmente ele procura a mãe para mamar, mas dessa vez ele olhou para mim e veio direto em minha direção. Estava com uma cara linda de quem ainda está naquele mundo entre o dormir e o despertar. Ergueu os braços. Eu o peguei no colo e ele se esparramou em cima de mim. Que encontro gostoso. Comecei a balançar a cadeira, fazendo carinho em suas costas e cantando algumas melodias que ainda ressoavam em mim desde o fim de semana de Taketina. Senti uma conexão profunda com ele.

Em determinado momento percebi que ele adormeceu. Levantei da cadeira com ele no meu colo. Seus olhos se abriram e ao me ver ele deu um sorriso lindo. Coloquei-o na cama junto à minha escrivaninha e ele adormeceu. Ficou lá por 10 minutos. Acordou feliz da vida. Ficamos brincando por alguns minutos. Eu fingia que era um cachorro que tentava cheirar seu pescoço e sua barriga e ele ficava me empurrando com a mão. A cada empurrão, eu exagerava e voava longe, para seu deleite. Suas risadas eram contagiantes. Depois de um tempo avisei que precisava trabalhar (escrever esse texto) e tranquilamente ele desceu da cama, saiu do quarto e foi brincar com a irmã e com a mãe.

6 respostas
  1. Rê
    says:

    Boa tarde Marcelo!

    Talvez esteja sendo um pouco precipitada, pois confesso que não li todo o seu blog e as propostas da conexão ainda. Os relatos que li estão me deixando cada vez mais curiosa, porém ao ler esse seu relato me veio uma dúvida e preciso perguntar, talvez já até tenha abordado alguma coisa aqui, mas cabe minha explicação acima. Então vamos lá: essa técnica existe a quanto tempo? Fico muito curiosa e confesso até reflexiva em saber o resultado dessa nova forma de agir quando essas crianças forem adolescentes, adultas…

    Responder
    • conexaopaisefilhos
      conexaopaisefilhos says:

      Oi Rê, essa forma de de criação chama-se Parenting by Connection e tem sido desenvolvida há 40 anos pela Paty Wipfler, fundadora do Hand in Hand Parenting (handinhandparenting.org). Há um meta-estudo de mais de 600 arquivos acadêmicos mostrando que a conexão entre pais e filhos é o fator que mais “protege” os adolescentes contra coisas como abuso de drogas, gravidez precoce e violência. E nesse artigo, a metodologia que eu pratico é apresentada como uma das melhores para criar esse tipo de conexão. Se você quiser, a pesquisa está disponível em: http://www.handinhandparenting.org/wp-content/uploads/2013/08/Full-Lit-Review-2012.pdf
      Grande abraço e obrigado pela pergunta!

      Responder
  2. Gustavo Gitti
    Gustavo Gitti says:

    “Eu o peguei no colo e ele se esparramou em cima de mim. Que encontro gostoso. Comecei a balançar a cadeira, fazendo carinho em suas costas e cantando algumas melodias que ainda ressoavam em mim desde o fim de semana de Taketina. Senti uma conexão profunda com ele.”

    Durante a formação em TaKeTiNa eu me perguntei: “Por que a gente perdeu o costume de vocalizar espontaneamente uns para os outros? Apenas cantar do coração em vez de falar?”

    E desde então naturalmente algumas vezes eu respondo conversas (até por email) com expressões do tipo: “Helelediba!”. Eu acho que “Helelediba” diz algo que nenhum palavra com significado diria naquela hora pra mim.

    Francisco Bosco escreveu sobre isso:

    http://oglobo.globo.com/cultura/em-artigo-ensaista-letrista-francisco-bosco-fala-sobre-os-momentos-shimbalaie-da-musica-3051650

    O texto revisado está no livro “Alta ajuda”.

    Abração, Marcelo. Obrigado pelo relato!

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  1. […] Colocar limite (“vai ser o prato azul”) e escutar o choro são práticas de conexão que ajudam a criança a extravasar emoções estagnadas e a voltar a funcionar no seu máximo potencial. Contudo não são ferramentas que devem ser usadas como receitas rígidas. Nessa prática, o mais importante é a presença, a amorosidade e a empatia momento a momento com a criança. Mas como ter isso no meio da correria do dia a dia? É preciso estar 100% zen antes de colocar o limite e escutar? Não. Tenho descoberto que o próprio processo de escutar o choro dos meus filhos me ajuda a retomar minha conexão, minha presença. […]

  2. […] in Portuguese and English. Marcelo is a Parenting by Connection Instructor Candidate in training. If you prefer to read in Portuguese click here. If you would like to suggest his blog to Portuguese speaking friends, go to […]

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