Brincar e Confiar: Como Meu Filho Adormeceu Sozinho

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Ontem minha esposa foi fazer um curso das 18:30 às 22:30 e avisou para as crianças dizendo que, quando chegasse, elas já estariam dormindo. Aqui em casa, ela é quem fica com as crianças na hora de dormir. Eu fico um pouco e saio do quarto, enquanto ela ainda canta algumas músicas ou simplesmente fica deitada.

As 18:00 ela se despediu e saiu. Parecia que não queria sair. Ficou me dando dicas do que fazer para o jantar. Quando a porta fechou eu pensei: vou aproveitar para ficar uma hora fazendo aquilo que chamamos de brincar-escutando. (Para conhecer mais sobre o brincar-escutando e outros princípios do brincar, baixe o ebook gratuito sobre brincar)

Falei para as crianças: “São seis horas. Nós temos até as 7 para brincar do que vocês quiserem. Uma hora!” Coloquei o despertador e elas me ajudaram a escolher o som do mesmo. Primeiro brincamos de pular em cima da cama e cair, que é uma brincadeira que elas adoram. Depois elas pediram para ver vídeos que eu havia gravado no meu celular, inclusive o batizado de capoeira deles. Vimos um pouco. Eles sabem que eu não gosto de usar o tempo do brincar para assistir vídeos. Depois de um tempo eles desistiram disso e voltamos a brincar.

Aí a coisa ficou interessante. Meu filho (2 anos e meio) disse que era um bebê e que ia dormir. Ele jogou tudo o que estava na minha cama no chão, incluindo os dois travesseiros, lençol e colcha. Disse que estava fazendo a cama dele no chão e se deitou. Minha filha (4 anos e 8 meses) entrou na onda. Primeiro ela disse que era outro bebê, mas depois resolveu que ela era a mãe e eu o pai.

Os dois tiraram todos os lençóis e fronhas de uma cômoda e jogaram no chão. Começou a me bater um desespero por causa da bagunça, mas eu respirei e aí me veio o pensamento: “depois que a brincadeira acabar vamos arrumar tudo isso juntos.” Há algum tempo eu iria cortar o fluxo da brincadeira proibindo essa bagunça. Pode ser que eu ainda faça isso no futuro quando estiver com pressa ou sem paciência. Acontece.

Bom, a brincadeira seguiu com meu filho deitando em cima desse monte de roupa de cama enquanto eu e minha filha deitamos na minha cama fingindo que estávamos dormindo e então nosso filho acordava e tínhamos que acalmá-lo. Minha filha pulava da cama, segurava ele e dizia: “Calma, tá tudo bem. Pode dormir.” Fizemos esse jogo umas 4 ou 5 vezes. Depois eles resolveram pular da minha cama em cima daquela montanha que eles criaram umas 10 vezes dando muita risada. A hora passou voando. Eles usaram a brincadeira para trazer algo que potencialmente estava gerando uma tensão emocional neles: como vamos dormir sem a mamãe? A teoria diz que quando brincamos dessa forma, as crianças sentem-se seguras para trazer e extravasar esse tipo de emoção.

Depois que o alarme tocou, eles quiseram continuar brincando então eu falei que tínhamos que arrumar a roupa de cama e minha filha deu uma ótima idéia: “Vamos brincar de arrumar a roupa de cama!” Fantástico. Algo que poderia ser uma chateação, virou uma brincadeira. Cada um pegava um lençol, dobrava e colocava no armário. É claro que eu tinha que supervisionar e ajudar a dobrar, mas eles não pararam até tudo estar no armário e até a minha cama estar feita, com lençol e colcha.

Depois disso tomamos banho e jantamos. Tudo foi bem tranquilo. Eu avisei que ainda dava tempo de lermos uns livros antes de dormir e foi isso que fizemos. Depois disse que era hora de ir para cama. Meu filho perguntou se poderia dormir no colo. Falei que ficaria com ele no colo por um tempo. Minha filha disse que queria colo também. Dei colo pra ele e depois pra ela. Os dois estavam agitados, virando para um lado e para o outro.  Eu estava começando a sair do eixo. Sentia que não estava ali. Meus pensamentos estavam rápidos e buscando prever o que ia acontecer e o que eu deveria fazer: “Devo cantar mais uma música? Mas aí estou sendo muito permissivo. Devo falar para eles fecharem os olhos? Mas aí estou querendo controlar, não estou confiando. Devo sair do quarto? Ahhhhhh.”

Respirei e lembrei do encontro que participei com Ana Thomaz no dia anterior. Ela me relembrou sobre a importância de trabalhar em mim e não nas crianças. A Ana propõe essa idéia que nós somos criadores de realidade, então alguma coisa em mim estava criando aquela realidade deles não conseguirem dormir. No seu texto “O Grande Desafio” ela escreve: “…no desafio, já não creio que o outro é a causa do problema, e que o outro precisa mudar para que minhas emoções mudem. no desafio, eu assumo o que sinto, reconheço que eu produzo aquela emoção e que está em mim a chave da mudança…” Então respirei e pensei: “Tenho que trabalhar em mim. O que estou sentindo? Impotência e raiva. Nossa, me sinto impotente pois não consigo controlar o outro! Sinto raiva por ainda querer controlar o outro.” Só de trazer à tona esses sentimentos e olhar para eles com curiosidade, eles começam a perder a força. De repente, não sei de onde, me veio um pensamento: “Eles vão se ajudar a dormir. Confie neles.” Então eu disse boa noite e sai do quarto. Do escritório eu conseguia ouvir os dois conversando, mas não sabia o que estavam falando. Tudo bem. Depois de 7 minutos, abri a porta. Os dois estavam juntos na mesma cama e minha filha disse: “Eu estou falando umas coisas e ele está ficando calminho”. Eu disse: “Que ótimo” e fechei a porta. Depois de uns 2 minutos comecei a ouvir meu filho dando risada. Voltei lá. Abri a porta e minha filha disse: “Agora ele está rindo.” Eu falei: “Agora é hora de dormir.” E fechei a porta novamente. Essas minhas entradas no quarto eram movidas por curiosidade e não controle. Tá bom, ainda havia um pouco de controle lá.

Depois de 15 minutos fui dar uma espiada e cada um estava em sua cama, dormindo profundamente. Não sei e nunca saberei o que minha filha falou para meu filho. Não sei porque eles resolveram dormir na mesma cama e depois porque resolveram ir cada um para a sua. Não preciso saber. Mas sei que foi a primeira noite da vida do meu filho na qual ele dormiu sem que um adulto estivesse presente “fazendo” ele dormir. Isso me encheu de felicidade e reforçou a crença de que devo confiar cada vez mais neles. E cada vez mais em mim. Não no meu eu controlador, mas no intuitivo, conectado e potente.

 

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6 respostas
  1. Larissa
    Larissa says:

    Que lindos! Não deu um aperto do tipo: “eles estão crescendo!?” 😉
    Me lembrei de um dia (depois aconteceu outras vezes) que cheguei em casa, as crianças já estavam dormindo, e fui dar uma espiada antes de deitar (como sempre faço, aliás): cheguei no quarto e meu filho estava deitado na cama da minha filha, os dois abraçados, dormindo… chorei… e fiquei emocionada pela relação que eles têm e pela relação de “irmãos”, que pode ser tão linda! É muito bom ver o quanto eles se cuidam, se resolvem quando se sentem seguros! beijos

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  2. Natalie Catuogno Consani
    Natalie Catuogno Consani says:

    Marcelo, texto ótimo, como sempre. Mas fiquei com uma dúvida: você menciona que se sentiria permissivo caso oferecesse cantar mais uma música. Existe alguma orientação que você conheça que seja objetiva sobre limites e permissividade? Ou é uma questão de parâmetro de cada pai/mãe/família? Pergunto porque isso é um tema ainda em suspenso por aqui. Eu acho que posso ser permissiva, pois negocio quase tudo com meu filho e cedo bastante antes de colocar o limite. Claro que não faço isso porque quero ser permissiva, mas por entender, quando a situação se dá, que essa negociação é válida como respeito ao ponto de vista dele e ao desejo dele que, naquele momento, pode ser realizado. Exemplo: meu filho (que tem 2 anos e 3 meses) gosta de brincar com cremes. Ele lambuza bem as mãos e passa o creme nos móveis, dizendo que está limpando o móvel. Eu não gosto muito disso, porque dá um certo trabalho limpar depois. Deixo que ele faça, mas procuro limitar a extensão da área utilizada. Ele sempre tenta ampliar esse limite, pedindo que eu deixe “só mais aqui”. Geralmente, eu deixo, reforçando que é só naquele pedaço extra e explicando novamente porque não pode em todos os lugares. Ele respeita. Acha que posso estar negociando demais? Abraços e obrigada

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  3. Natalie
    Natalie says:

    A hora de dormir é meu maior desafio com meus filhos. Vivo querendo que eles durmam cedo ( porque eu durmo cedo e preciso de um pouco de sossego antes de dormir) mas várias vezes me pego por 1h “pondo eles para dormir”. O menor tem 7 meses e o maior tem 2a6m. Tentei uni-los nesse momento mas a bagunça do maior acorda o menor. Se separo, tb não consigo por o pequeno para dormir que fica dando inúmeros despertares no meu quarto enquanto estou com o outro “fazendo dormir”. Alguma luz? Antes de escrever esta msg pus meu bebê 4x para dormir e ele despertou e enquanto meu marido está a 40 minutos contando histórias e o maior: “a mamãe… Eu quero a mamãe”.

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  4. Kalidja
    Kalidja says:

    Bom dia. Muito bom esse texto, mas me surgiu um questionamento: e se ao invés de se ajudarem a dormir os dois tivessem iniciado uma crise de choro, qual seria a sua abordagem?

    Parabéns pela página

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    • conexaopaisefilhos
      conexaopaisefilhos says:

      Bom dia. Que bom que você gostou do texto. É difícil saber o que eu faria em uma situação hipotética mas, emprincípio, se eles começassem a chorar eu voltaria imediatamente para o quarto, descreveria a cena: “Vocês estão chorando.” e colocaria o limite de forma clara e sem raiva: “Agora é a hora de dormir.” E ficaria esperando para ver como a situação se desenrolaria. De forma nenhuma eu deixaria meus filhos chorando sozinhos no quarto.

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  1. […] alguma coisa estava faltando: a conexão pela brincadeira, pela presença cem por cento para o que ele queria fazer, mesmo que fosse por alguns minutos. […]

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