Alfie Kohn, autos de Unconditional Parenting

Amor de Mãe e Pai, Mas Com Algumas Condições

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Esse é o segundo artigo do Alfie Kohn que traduzo. Desta vez ele discute não só os problemas gerados com o uso dos castigos, como também ao usarmos reforços positivos como elogios ou prêmios. Clique aqui para ler o original em inglês. Antes de entrarmos no texto, gostaria de fazer algumas considerações, com base nos comentários que recebi ao traduzir o primeiro artigo, “Péssimos Conselhos da Supernanny”:

  • Isso é apenas um artigo publicado em um jornal de grande circulação e não publicado em um periódico científico. Para um tratamento mais profundo do tema, com mais dados científicos, exemplos e alternativas leia o livro Unconditional Parenting (em inglês). Eu ainda não consegui os direitos para traduzir e publicar o livro em português.
  • Esse artigo não diz que o uso do castigo leva as crianças a se tornarem ditadores, monstros, desajustados sociais. Se você recebeu castigos quando criança e deu “certo” na vida, que bom. Mas isso não prova que castigos são uma boa opção.
  • Esse artigo ou o livro Unconditional Parenting não sugerem uma educação permissiva. Permissividade não é a alternativa ao castigo. A alternativa é o uso de limites de forma clara e amorosa.

Boa leitura! Aguardo os comentários!

[Essa é uma versão expandida de um artigo publicado com o título “Quando o ‘Eu te amo’ de um Pai ou uma Mãe, Significa ‘Faça o que estou mandando’.” Para conhecer mais detalhes sobre esse tópico, veja o livro ou o DVD Unconditional Parenting.]

Há mais de 50 anos, Carl Rogers disse que eram necessários três ingredientes para que uma psicoterapia fosse bem sucedida. Os terapeutas deveriam se apresentar de forma genuína não se escondendo atrás de uma máscara de profissionalismo. Eles deveriam entender perfeitamente os sentimentos dos clientes. E deveriam suspender qualquer julgamento de forma a demonstrar “apreço incondicional” por aqueles que estavam buscando ajuda.

Esse último ingrediente é a chave – não apenas por ser difícil, mas principalmente pelo o que diz a respeito de como fomos educados. Rogers acreditava que os terapeutas precisavam aceitar seus clientes de forma incondicional para que os clientes pudessesem começar a aceitar a si próprios. Muitas pessoas reprimem ou não aceitam partes de si próprias pois seus pais colocavam “condições de merecimento” de cuidado: ‘Eu tem amo, mas apenas quando você se comporta bem (ou quando vai bem na escola, ou quando impressiona outros adultos, or quando fala baixo, ou quando é magra, ou quando está bem arrumada…)’

Portanto, amar nossos filhos não é suficiente. Precisamos ama-los incondicionalmente, pelo que são e não pelo que fazem.

Eu, como pai, sei que isso é difícil e acredito que está ficando cada vez mais desafiador nos dias de hoje pois a maioria dos conselhos sobre como criar os filhos vão na direção oposta. Na verdade, recebemos dicas de educação condicional, que aparece de duas formas:

  • aumente a atenção quando os filhos se comportam bem, e;
  • retire a atenção quando se comportam mal.

O apresentador de TV, “Dr. Phil” McGraw escreve em seu livro “Family First” que as coisas que as crianças precisam ou gostam devem ser oferecidas de maneira contingente, transformadas em prêmios para serem dadas ou suprimidas para que elas “se comportem de acordo com nossos desejos.” E ele continua dizendo que “uma das moedas de troca mais poderosas para a criança é a aceitação e a aprovação dos pais.”

Da mesma maneira, Jo Frost do programa “Supernanny”em seu livro que tem o mesmo título diz, “As melhores recompensas são atenção, elogio e amor,” e essas coisas devem ser evitadas “quando a criança se comporta mal…até que ela diga desculpas,” e aí sim o amor pode ser oferecido novamente.

Como vocês podem ver não são só autoritários antiquados que promovem a educação condicional. Muitas pessoas que nunca encostariam um dedo em seus filhos optam por disciplina-los usando o isolamento forçado, que  comumente chamamos de “colocar de castigo”. Ao mesmo tempo “reforço positivo” ensina as crianças que elas são amadas – e amáveis – apenas quando fazem o que consideramos certo.

Isso levanta a possibilidade que talvez o problema com o elogio não seja o fato de ser usado de forma incorreta, ou de ser oferecido de forma tão fácil como sugerem os conservadores. Talvez, o elogio seja apenas uma outra forma de controle, análoga à punição. A principal mensagem de todas as formas de educação condicional é que as crianças precisam merecer o amor dos pais. Rogers avisou que uma dieta rotineira disso e as crianças eventualmente precisarão de um terapeuta que possa oferecer a aceitação incondicional que elas não receberam quando eram crianças.

Mas será que Rogers estava certo? Antes de jogarmos fora os métodos tradicionais fora, seria bom termos evidências. E agora nós temos.

Em 2004, dois pesquisadores israelenses, Avi Assor e Guy Roth, juntaram-se a Edward Deci, um expert americano em psicologia da motivação, e perguntaram a mais de 100 estudantes universitários se o amor recebido dos seus pais quando eram crianças  dependia do quão bem iam na escola, do fato de treinarem bastante algum esporte, de serem educados com outras pessoas, ou de suprimirem emoções de raiva e medo.

Aqueles que receberam aprovação condicional eram mais predispostas a agir como os pais queriam. Mas a obediência tinha um alto custo. Em primeiro lugar, essas crianças tinham a tendência a serem ressentidas e gostarem menos dos pais. Em segundo lugar, elas diziam que agiam muito mais de acordo com uma “forte pressão interna” do que a partir de “um sensação real de escolha.” Além disso, a felicidade que sentiam após serem bem sucedidos em algo durava pouco e vinha acompanhada de um sentimento de culpa ou vergonha.

Em um outro estudo, Assor e seus colegas entrevistaram mães de crianças já crescidas. A educação condicional também se mostrou danosa para esse grupo. Essas mães que, quando crianças, sentiam que só eram amadas quando atendiam as expectativas dos pais, tinham a sensação de terem menos valor agora que eram adultas. Porém, apesar desses efeitos negativos, essas mães geralmente utilizavam o mesmo tipo de afeto condicional com seus próprios filhos.

Em julho de 2009, os mesmos pesquisadores, e mais dois colegas de Deci da Universidade de Rochester publicaram duas réplicas e extensões do estudo de 2004. Dessa vez, os sujeitos eram adolescentes de 14 e 15 anos mas agora foi feita uma distinção entre receber mais atenção e afeto quando as crianças faziam o que os pais queriam e a retirada de atenção e afeição quando não faziam o que os pais queriam.

Os estudos descobriram que tanto o condicionamento positivo quanto o negativo eram prejudiciais, porém de maneiras diferentes. O condicionamento positivo as vezes funcionava para que as crianças se esforçassem mais em tarefas acadêmicas, mas a custo do indesejado sentimento de “compulsão interna.” O condicionamento negativo, por sua vez, não funcionou nem no curto prazo; simplesmente aumentou os sentimentos negativos desses adolescentes pelos seus pais.

Esses e outros estudos nos mostram que elogiar as crianças por terem feito algo bom não é uma alternativa interessante à retirada de amor ou a punição quando fazem algo errado. Ambos são formas de educação condicional e ambas são contraprodutivas.

O psicólogo infantil Bruno Bettelheim, que reconheceu prontamente que essa forma de educação via condicionamento negativo conhecida como castigo pode causar “sentimentos profundos de ansiedade,” ao mesmo tempo a endossou por esse mesmo motivo. “Quando nossas palavras não são suficientes, a ameaça de retirada do nosso amor e afeição é o único método comprovado para provar para a criança que é melhor ela obedecer aos nossos pedidos.”

Mas os dados sugerem que a retirada do amor não é efetiva para conseguir obediência e muito menos para promover o desenvolvimento moral. Mesmo que conseguíssemos que as crianças nos obedecessem (por exemplo usando reforço positivo), vale a pena arriscar os possíveis problemas psicológicos de longo-prazo? O amor dos pais deve ser usado como uma ferramenta para controlar as crianças?

Há questões mais profundas vindas de um outro tipo de posicionamento. Albert Bandura, o pai da escola de psicologia conhecida como teoria da aprendizagem social declarou que o amor incondicional “resultaria em crianças sem direcionamento e difíceis de se amar” – declaração essa que não tem suporte em estudos empíricos. A ideia de que as crianças que são aceitas pelo que são não terão direção ou não serão amáveis diz mais a respeito da visão obscura sobre a natureza humana carregada pelas pessoas que fazem esse tipo de alerta.

Na prática, de acordo com uma impressionante coleção de dados feita por Deci e outros pesquisadores, a aceitação incondicional realizada por pais e por professores devem ser acompanhadas por “apoio a autonomia”, por exemplo:

  • explicar a razão dos pedidos,
  • aumentar as oportunidades da criança participar em decisões;
  • encorajar sem manipular, e
  • colocar-se no lugar da criança, tentando imaginar como ela entende as situações

Essa última atitude é muito importante para educarmos incondicionalmente. Muitos pais vão  protestar dizendo que é óbvio que amam seus filhos de forma incondicional. Mas o que importa é como as crianças enxergam isso – se elas se sentem amadas mesmo quando fazem alguma besteira ou quando não são bem sucedidas em algo.

Carl Rogers nunca disse isso, mas eu aposto que ele gostaria de ver menos demanda por bons terapeutas se isso significasse que mais pessoas experimentaram a sensação de serem aceitos incondicionalmente.

(Copyright © 2009 por Alfie Kohn. Publicado no “The New York Times ” em 15 de Setembro de 2009 com o título Parental Love With Strings Attached e traduzido por Marcelo Michelsohn com autorização do autor. Esse artigo pode ser baixado, reproduzido e distribuído não sendo necessário pedir autorização desde que essa nota seja incluída na íntegra. É preciso pedir permissão para reproduzir esse artigo em um trabalho publicado ou para uso comercial. Por favor escreva utilizando a página de contatos do Alfie Kohn.)

10 respostas
  1. Tissiana
    Tissiana says:

    Que texto interessante, Marcelo!
    Material para reflexão!
    Em relação a esse “apoio à autonomia”, como na prática conseguimos motivar sem manipular, sem utilizar o reforço positivo?

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  2. Leticia
    Leticia says:

    “O amor dos pais deve ser usado como uma ferramenta para controlar as crianças?” Essa é uma reflexão importante que tem tudo a ver com a formação da auto-estima das crianças. Dorothy Briggs no seu livro ‘A auto-estima do seu filho’ observa: “Todos nós sabemos que as crianças precisam de amor (…) não obstante, numerosas crianças cujos pais se interessam profundamente por elas não se sentem amadas. Como isso pode acontecer?” Mais adiante: “Quando não há ligação entre os erros e o valor pessoal, esses erros tornam-se menos arrasadores. E então a criança pode considerá-los como áreas em que poderá melhorar e não como atástrofes pessoais; eles poderão ser enfrentados e resolvidos.”

    Responder
    • Leticia
      Leticia says:

      Marcelo parabéns pelo seu trabalho de divulgação de uma outra forma de educação, que assim possamos ajudar a surgir uma nova geração que faça o mundo melhor!

      Responder
  3. Joana
    Joana says:

    Marcelo, excelente texto! Obrigada! Eu não tenho filhos ainda, mas leio todos os seus posts. Eu acho que eles me ajudam a entender questões da minha própria educação e o porquê de alguns medos que sinto até hoje. Eu fui capaz de me transformar ao longo da vida e entender muita coisa, mudar, me tornar uma mulher feliz e segura, mas ainda tenho um longo caminho a percorrer para encarar todos os meus medos. E essas experiências com seus filhos, os pensamentos que você compartilha me fazem entender melhor a mim mesma e o ser humano. Também me fazem entender o papel de mãe, que eu pretendo exercer um dia. E, como eu sempre achei, é um privilégio criar essas criaturinhas, temos que ter muito cuidado e muito amor para deixá-los aflorar. Eu recebi muito amor, mas só amor condicional. E eu sei o quanto isso é prejudicial.
    Muito obrigada pelas suas inspirações! Feliz Natal para você e sua família!

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  4. Cristiane
    Cristiane says:

    Olá! Parabéns pelos textos, seus e de outros trazem boas reflexões!
    Ainda estou tentando restabelecer a consciência quando algo vai contrário ao que desejo com minha filha. Ela está bem demandante com 2 anos e meio, mas penso que é importante expressar-me naturalmente. Então as vezes fico com raiva dela e faço alguma coisa como gritar, por exemplo, depois peço desculpas e digo que fiquei nervosa e estava com raiva… O que fazer na hora do caos, meldels????

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  5. Nice
    Nice says:

    Adorei o texto! Tenho conseguido fugir do condicionamento negativo na criação dos meus filhos, mas é tão difícil fugir do condicionamento positivo! Como fazer isso na prática?!

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  6. Natalie
    Natalie says:

    Poxa, de novo muito pertinente. Me pergunto todos os dias como convencer meu filho a ir escovar os dentes sem ameaçá-lo ou dizer que assim a mamãe fica feliz e ele é um bom menino. Tantos detalhes!

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  7. Marcia Elias
    Marcia Elias says:

    Olá Marcelo! Já no início do texto estava pensando se estes sentimentos gerados eram somente em relação com os pais ou também com outros adultos que convivem com nossos filhos. Minha filha vai para o infantário desde 6 meses e hoje ela está com 4 anos sempre com a mesma educadora, ou seja, ela é uma figura muito importante na vida da Mariana. Tenho “medo (s)” que haja alguma “manipulção” dos sentimentos da minha filha, mas ela não sabe contar ou que ela esteja vivendo sozinha e se sentindo inferior. Não vejo ela inibida de ir para a creche nem nada, as x acho que é minha a história… Abraços e Feliz Natal

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