Criança apanhando

Palmada não Educa: três princípios para ajudar na conexão com os filhos

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Durante minha férias, algumas situações me chamaram a atenção e me levaram a refletir sobre a conexão entre pais e filhos. São situações corriqueiras que podem acontecer com qualquer um de nós. Coloco-as aqui não para que fiquemos nos chicoteando, mas para que consigamos sair do piloto automático e tentar outras formas de nos relacionarmos com nossos filhos. Espero que esse texto sirva de base para você refletir individualmente e/ou para conversar com seu companheiro ou sua companheira. Ao final do texto apresento 3 princípios que podem nos ajudar a evitar o uso das palmadas e outros tipos de punição.

Situação 1:

“Papai por que você diz toda hora para eu tomar cuidado pra não me machucar e agora você está me machucando de propósito?”, disse ao pai uma menina de 4 anos, enquanto ele dava “palmadinhas” em seu bumbum.

O pai parou imediatamente. Perdeu o rumo. Sentiu que o que estava fazendo era absurdo. Entendeu que, de certa maneira, ao dar as palmadas estava “ensinando” que:

  • Deve-se obedecer àqueles que tem mais força ou poder do que você, caso contrário sofrerá consequências;
  • Só gosto de você quando você faz o que eu acho certo;
  • É certo abusar do seu poder para conquistar algo que você queira.

Situação 2:

Outro pai me contou que o filho de 1 ano está mordendo a filha de 4 anos e que nas últimas duas vezes ele deu um “tapinha” na boca do filho para que ele aprenda. O que será que ele está aprendendo?

  • Se você for violento não deixe seu pai descobrir, ou vai apanhar;
  • Seu pai não gosta que você morda, mas dar tapas é permitido (já que o pai deu um tapa na sua boca);
  • Quando você extravasar uma emoção, pode apanhar.

Situação 3:

Uma mãe, cujas filhas tomam umas palmadas do pai, as chamava e dizia que não poderiam entrar em um determinado lugar. As filhas não obedeceram. Depois de pedir mais de 5 vezes a mãe teve que ir buscá-las e comentou: “Por que é tão difícil com minhas filhas? Por que elas não obedecem?”

Refletir sobre estas situações me ensinou algumas coisas sobre educação e criação de filhos:

  • Bater é mais comum do que eu imaginava;
  • As crianças sentem e sabem que estão sendo agredidas, mesmo que seja uma “palmadinha” e que a intenção seja educar.
  • Pais e mães têm muita dificuldade de estabelecer limites e acabam optando pela punição;
  • Maridos e mulheres estão muitas vezes em posições opostas no que diz respeito a como educar os filhos;

Alfie Kohn, autor de Unconditional Parenting, apresenta alguns problemas da punição:

  • Mau comportamento e punição não são opostos que se cancelam, mas sim pólos que se reforçam;
  • Punição não leva a criança a refletir sobre o que fez, por que o fez ou sobre o que deveria ter feito.

E continua, explicando porque não fazemos diferente:

  • Tratamos nossos filhos dessa forma condicional pois, em primeiro lugar, fomos tratados assim quando crianças. É preciso esforço, disciplina e coragem para refletir sobre o que deve ser mantido e o que não serve mais. Isso é difícil pois demanda uma capacidade de criticar o que nossos pais fizeram conosco, ao mesmo tempo em que mantemos uma atitude amorosa para com eles;
  • É mais fácil usar táticas para controlar as crianças, pois trabalhar em outros tipos de soluções requer mais de nós e, pior, muitas vezes nem sequer sabemos o que pode ser feito diferente. Além disso, punição e recompensa funcionam no curto prazo. Tal como em outros casos, os efeitos cumulativos do uso dessa estratégia não aparecem imediatamente, mas sim no longo prazo, quando já pode ser tarde demais.
  • Temos medo da crítica de outros adultos. Nossa sociedade tende a aceitar mais um pai que controla e pune do que aquele que tenta se conectar.

Segundo Alfie Kohn, não existe uma receita, um passo a passo, um manual de instruções dizendo o que fazer e falar em cada situação. Ele oferece 13 princípios para que encontremos nossa própria forma de educar nossos filhos.

Deixarei aqui os três primeiros, para que possamos iniciar um diálogo:

1- Reflita: reveja constantemente suas próprias ações, especialmente aquelas das quais não gosta. Não se acostume com elas, dizendo que são o melhor para seus filhos. Mas não se chicoteie. Pergunte frequentemente: “é possível que o que acabei de fazer tenha mais a ver com minhas necessidades, medos e a forma como fui criado do que com o que é melhor para meu filho?”

2- Reconsidere suas demandas: pode ser que o problema não seja a criança não querer atender sua demanda, mas sim a própria demanda. Antes de buscar soluções para conseguir que seu filho faça o que você quer, veja se o seu pedido faz sentido, especialmente para a faixa etária dele. (ex: crianças pequenas vão deixar cair comida da colher ao comerem sozinhas. É muito bom que elas tentem comer sozinhas desde cedo, mas não é adequado insistir que elas não derramem a comida)

3- Mantenha o foco no longo prazo: tente se lembrar do que você quer para seus filhos. Se quer que eles cresçam e se tornem adultos intelectualmente curiosos, éticos e contentes com eles mesmos, usar estratégias como punição ou chantegem não vai ajudar.

Boas reflexões e boas conversas. Usem os comentários ou o meu email, Marcelo@conexaopaisefilhos.com para me contar como você usou esse texto. Grande abraço e até o próximo.

11 respostas
  1. Mimi
    Mimi says:

    Sempre quis ser uma mãe que não batesse. Só que não consegui. Pq no começo, ele não questionava. Eu dizia combinado e ele respondia, no automático, combinado. Só que as crianças descobrem o não. E nós não estamos preparados para isso. A sociedade, e consequentemente nós mesmos, nos cobramos que nossos filhos nos “respeite”. Queremos que nossos filhos tenham calma diante da frustração, mas perdemos a nossa quando eles não agem como gostaríamos. Hoje, estou tentando ser a mãe que sempre quis. Não é fácil. As vezes, ainda caio nos velhos hábitos. O caminho de volta é bem mais difícil. Não condeno que bate, mas não quero isso pra mim nem para os meus filhos. Estou tentando ser a mãe que sempre quis ser. Porque por mais que tenha divergências, por mais que me chatei com pessoas conhecidas e desconhecidas, não as agrido, então por que me permito fazer isso com meu filho? Umas das vezes que caiu a ficha foi quando fiz um gesto brusco perto dele, está pegando algo, e ele levantou os braços para se proteger. Lembrei que uns meses antes uma cena parecida tinha ocorrido e na época eu n
    tinha ficado surpresa da inocência dele em não tentar se proteger. Aquilo mexeu comigo. Sofro muito quando lembro do que me permiti fazer. Não o agredi fortemente, mas agredi. Uma palmada que seja. Partiu de mim que deveria ser a maior referência de carinho. Hoje, percebo mais claramente que isso só o deixa vulnerável. Passa a ser normal apanhar. Fico pensando, que se uma criança apanha em casa, ela começa a achar que as pessoas podem bater nela. Então, minha dica é não inicia esse processo. Mas caso você esteja nessa linha, mas por se sentir sem orientação, do que por qualquer convicção educativa, sempre é tempo de recomeçar. Por mais que eu sofra por lembrar, acho que é a melhor forma para evitar a repetição. Con certeza, ser mãe e pai é um aprendizado diário. E ninguém disse que seria fácil.

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  2. Rafaela Noronha
    Rafaela Noronha says:

    Eu tenhos dois fihos, um menino de 3 anos e uma menina de 1 ano e meio, ERA uma mãe que usava as palmadas (violência) pensando que estava educando meu filho, pois a pequena ainda ñ tinha entrado na dança, um dia me deparei com um caos na minha casa, na minha vida e na minha cabeça, não conseguia controlar meus filhos, aí no ápice do desespero comecei a fuçar a internet atrás de uma receita mágica…. comecei a ver palavras diferentes que antes ñ conhecia como eucação positiva, conexão, apego, maternagem… e só ai percebi que a “educação” que estava usando ñ estava fazendo bem pra mim e principalmente pras pessoas que mais amo nessa vida. São tantos os blogs que falam sobre o assunto que achei que eu estava vivendo em uma bolha, por ñ conhecer sobre essa forma positiva de educar os filhos. Enfim o texto acima só veio reforçar os meus novos princípios quanto educação… sei que o caminho e árduo e exige conhecimento, mas pelos meus filhos como mãe tenho o dever de buscar sempre melhorar…mais do que ninguém sei que o carinho, atenção, e respeito a limitações do outro, são o melhor caminho para que uma criança possa se desenvolver e se sentir amada! Parabéns pelo texto, pelo blog.. enfim obrigado por nos ajudar a compreender as diversas formas de se conectar!

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  3. Michel
    Michel says:

    Não concordo totalmente. Palmada e castigo servem para educar e demonstra autoridade sim, é claro que tem que ter um motivo importante, a criança tem que ser avisada do porque esta apanhando, tem idade pra isso. Uns tapas na bunda, umas chineladas, isso educa sim, dar-se o respeito e faz lembrar da consequencia do errado que a criança esta fazendo, não deixa traumas (isso é balela), faz um bom cidadão sim. Mas o ideal é que não precise chegar a isso, se existir dialogo, forem bons exemplos em todas as áreas da vida, saberem viver em familia como deve ser, derem amor e carinho aos filhos, …. Haaaa situações 1, 2,3…N, vão sempre existir, é melhor uma criança ter uma justa medida hj do amanhã dar na minha cara e ser um péssimo cidadão. Meu filho apanha sim e nem por isso deixa de me amar, essa sociedade doente e esse governo hipócrita querendo implantar uma “lei da Palmada” e tentar entrar no âmago da família e controlar o que os pais fazem? É por isso que temos essa sociedade imunda.

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  4. Elenira
    Elenira says:

    Obrigada por compartilhar essas reflexões…não conhecia o blog e gostei muito de ler. Sinto que desde quando minha segunda filha nasceu a conexão setornou mais difícil, a demanda se tornou maior…vou pensar em tudo o que li hoje. Obrigada

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  5. Carla
    Carla says:

    Olá Marcelo,
    Gostei do texto e das reflexões. Sinceramente, ainda não consigo pensar em como colocar em prática visto que meus quadrigêmeos estão me deixando maluca.
    Bom, a esperança é a última que morre, certo?!
    Estou lendo o máximo possível e tentando. Sempre tentando.
    Abraço,
    Carla

    Responder
  6. Taisa
    Taisa says:

    Aindao não sou mãe e não sei se um dia serei mas essas reflexões são tão importantes para uma sociedade mais humana e justa. Eu acredito que violência não seja o melhor caminho embora já tenha desejado dar umas palmadas em algumas crianças. Necessária reflexão e auto conhecimento. Gratidão pelo texto!

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  7. Viviane Vidal
    Viviane Vidal says:

    É mto bom ler textos como esse que nos levam a pensar, a refletir. Eu particularmente vivo o dilema entre a culpa e a certeza, tenho certeza que o não bater é o correto e luto mto para aplicar isso em nossas vidas, mas com os filhos crescendo e nos desafiando cada vez mais as vzs as velhas ações vêm a tona e com elas a culpa por não ter conseguido manter o foco na criação com apego e na conexão com os filhos, hoje tenho o Gabriel com 8 anos e a Luna com 5 anos e vejo que qto mais eles crescem mais difícil se torna, mas mais prazeroso é qdo consigo controlar uma situação com diálogo e conexão, será que um dia vou conseguir me livrar do velho hábito da palmada 100% do tempo e com isso não me sentirei mais culpada por não saber o que fazer qdo a situação se torna crítica e o desafio sai do meu controle? Na prática não é fácil…

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  8. Maria Barretto
    Maria Barretto says:

    Querido! Como sempre seus textos vem e excelentes momentos. Estou aqui numa mega momento incruzilhada entre me perder nas minhas necessidades e voltar para o caminho de conexão amor e reaprendendo coisas minhas… Estou super dura com a Tereza q anda me desafiando total, (contexto: José crescendo e ocupando espaço e eu bastante sozinha com os dois e muitas vezes exausta…) enfim deixa eu ver como as coisas rolam aqui depois das reflexos que o texto começou a despertar… José acaba de acordar tenho q ir bj e obrigada de novo!!!!!

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  9. elaine
    elaine says:

    Oi Marcelo,

    Por causa dos seus textos, comprei o Unconditional Parenting e estou lendo… Tanta coisa para pensar e repensar sobre como farei com a Maya. Acho que uma das leituras mais úteis — e provavelmente a mais bem escrita e embasada — do meu processo de virar mãe. É uma pena que este livro não esteja (ainda) disponível em português.

    Elaine

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  10. Simone
    Simone says:

    Nossa, Marcelo, essa questão da reflexão tem feito mto parte da minha vida. Parar pra pensar se a necessidade é minha ou da Lana tem feito uma revolução na minha (e na nossa!) vida. Dá um trabalhão, dói pra caramba em alguns momentos, mas vai limpando tanto coisas da minha própria história quanto evitando que as mesmas coisas sejam escritas na história da Lana… Obrigada!

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  1. […] sou leitora de Rebeca Wild, da educação ativa, e de Patty Wipfler, da educação pela conexão). Aqui um post dele essencial sobre o tema. Mas todos são ótimos, pois ajudam a entender a educação sob outro […]

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