Adultos Autônomos, Crianças Autônomas: um ‘causo’

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Semana passada presenciei uma cena inusitada. Estávamos hospedados no sitio da Ana Thomaz e ao acordarmos decidimos que era dia de fazer faxina. Ana mora com o marido e as duas filhas, não tem empregada doméstica nem faxineira. Depois de fazermos nossas aulas de Técnica Alexander e tomarmos café da manhã, começamos a limpeza da casa. Depois de umas duas horas a filha mais velha da Ana que tem quase 8 anos veio perguntar sobre o almoço: “Mãe, posso preparar uma macarronada pra gente comer?”.  Ana concordou e complementou: “Não deixe as crianças menores perto do fogão quando a água estiver fervendo e me chame se precisar de ajuda.” Voltamos para a faxina. Depois de algum tempo Ana foi chamada para ajudar a escorrer a água do macarrão. Alguns minutos se passaram e minha esposa me chamou: “Vem ver essa cena!” E foi essa imagem que eu vi:

Criancas comendo sozinhas 001

Quatro crianças, uma de 7, duas de 5 e um de quase 3 anos almoçando sozinhos a comida que a mais velha tinha preparado! O de quase 3 estava em cima da mesa, pois não conseguia alcançar a comida confortavelmente de outra forma. Eles colocaram a mesa, se serviram e estavam comendo sem a interferência de adultos.

Minha percepção do que é autonomia se expandiu muito naquele momento. Percebi que as crianças são capazes de muito mais do que imaginamos. Percebi que posso dar mais espaço para que elas experimentem.

No dia seguinte resolvi esperar ao invés de ir oferecendo o café da manhã para meus filhos. Em determinado momento minha filha disse que estava com fome. Perguntei o que ela queria e ela pediu um ovo. Perguntei como ela queria fazer e ela disse que preferia ovo mexido. Perguntei se ela gostaria de fazer e ela concordou. Fiquei ali para ajudar com o que ela precisasse. Ela pegou a frigideira, colocou manteiga e puxou uma cadeira pra perto do fogão. Eu ensinei como acender o fogão que era automático. Ela hesitou um pouco mas conseguiu. A manteiga derreteu, ela quebrou o ovo, misturou com uma colher de pau até chegar no ponto que queria. Eu ajudei a raspar o ovo da frigideira em seu prato. Ela foi pra mesa e comeu na maior satisfação. Geralmente quando eu preparo ovo pra ela, ela reclama que está sem sal, mas dessa vez ela nem colocou sal e não deu um pio. Ficou tão feliz que no dia seguinte quis fazer novamente.

Em uma conversa posterior sobre estes episódios, Ana trouxe para a minha atenção o fato de permitirmos o surgimento da necessidade, de maneira que a criança sinta em seu corpo a fome e a partir disso busque o alimento. Se ela vive em um ambiente no qual os adultos cozinham, inevitavelmente vai ter curiosidade sobre o preparo dos alimentos. Se ela vive em um ambiente no qual os adultos plantam e colhem, vai se interessar por esse processo também. E assim cria-se uma conexão forte com uma das principais atividades da nossa vida: a alimentação.

Há dezenas de livros, artigos, blogs sobre como fazer as crianças comerem. Dão dicas de como distrair, ou de como explicar, ou de como dispor os alimentos no prato. Uma série de artifícios usados com a finalidade de fazer a criança engolir aquela comida. Comida que apareceu na frente dela como uma passe de mágica e com a qual ela não tem relação quase nenhuma.

Acredito cada vez mais que esse processo de conexão com os filhos é antes de tudo um trabalho em nós mesmos. Eu sempre estive muito desconectado desse processo de alimentação, especialmente da produção e do preparo. Me orgulhava de pelo menos ir fazer as compras e de comprar orgânico quando possível.

Desde que vi a cena da macarronada, aprendi a fazer pão e hoje preparei um almoço inteiro pra mim. Entendi que ao invés de querer que meus filhos tenham uma boa relação com a comida, eu tenho que cuidar da minha em primeiro lugar. E não estou caindo na cilada de mudar a minha relação com a comida com o objetivo que meus filhos mudem a deles. Isso pode ser um bônus, mas não está sendo buscado. Faço pois faz sentido agora pra mim.

De quebra minha filha disse: “Pai, você é o melhor padeiro do mundo!”.

Bônus :-)

(Se você não conhece a Ana Thomaz, comece por esse video: http://youtu.be/tNYgHDkpxcg e depois continue por sua conta e risco. Esse caminho pode levar a uma mudança de paradigma!)

14 respostas
  1. Lara
    Lara says:

    Lindo momento de aprendizado !
    Me lembro sempre do papel que minha avó materna exercia (minha educadora preferida) junto dos seus muitos netos, que povoavam seus quintais. Eram muitos, de vários tamanhos, cores… Ela sempre nos convidou a fazer o brinquedo e a brincadeira, mas, não me lembro da presença constante dela do nosso lado. Costumo dizer que ela ficava sempre atrás da porta, olhando pela fresta… rsrsr…Não me lembro se quer de um brinquedo comprado que ela tenha me dado, mas, me lembro de diversos momentos simples que ela criou. Ela confiava naquela trupe de crianças. Sem muito estudo ela soube, através da natureza, perceber o que era essencial e, saiu plantando amor em muitos corações.
    Lindo ver o quanto podemos aprender com as crianças, elas são Mestres.
    Deixar SER, experimentar, aprender à medida de cada uma… Adultos, não prejudiquemos tanto nossas criancinhas, deixemos fazer ovos mexidos, tenhamos a preciosidade do TEMPO que é necessário para esperar, para deixar SER.
    Muito obrigada por este momento Conexão Pais e Filhos,
    Lara

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  2. Joe
    Joe says:

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  3. Marta taquá Estela
    Marta taquá Estela says:

    Oi Marcelo! A gente se conheceu no sítio da ana, ha uns anos, quando minha filha joana e o seu filho tinham por volta de 1 ano. Eu e moisés nos impressionamos com o fato de vc correr descalço! Adoro seu blog, é uma boa referência!!!

    Hoje de manha eu estava quebrada, tinha dormido mal a noite e estava sozinha com Joana (quase 3 anos, agora) em casa. Fiquei cochilando na sala enquanto ela brincava entre a sala e a cozinha. Ela pediu para comer arroz com feijão (pois é, as vezes ela gosta de almoçar no cafe da manha), eu esquentei, pus no prato e voltei a cochilar. Quando levantei vi que ela tinha pego uma banana, uma faca, cortado a banana em fatias e misturado a banana ao arroz e feijão, ao gosto dela. Já tinha comido tudo, só restavam umas 2 ou 3 rodelinhas. E nem me acordou para pedir!! Fiquei bem surpresa!

    Um beijo, um abraço forte!
    marta, moises e joana (e o nenem da barriga que está chegando!)

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  4. maria gut
    maria gut says:

    Marcelo gosto muito de seus textos, eles sempre acrescentam alguma coisa. Eu moro na Nova Zelândia há quase 1ano . Na minha casa reformamos um pedacinho do jardim para poder ter horta, e é incrível poder observar o interesse das crianças desde preparar a terra, molhar, acompanhar o crescimento, colher, preparar e comer! Incrível como minha filha de 5 anos rapidamente se interesdou por preparar coisas no fogão também, porque ela já ajudava no preparo, mas agora diz: eu quero cozinhar, fazer tudinho”. 0 mais novo de 2 e meio também quer mas faz do jeito dele. Ele é o padeiro oficial porque sovar a massa é um dos passatempos preferidos!
    E a propósito tenho muita saudades da Ana, minha amiga, minha doula e mãe daquelas meninas maravilhosas, de quebra um mágico!
    Beijo pra todos vocês e vou continuar sempre lendo seus textos!!

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  5. Andy de Santis
    Andy de Santis says:

    Demais esse post Marcelo! Amanda adora se aventurar na cozinha, tem um programa muito bom na TV Cultura chamado Tem criança na cozinha. São crianças ensinando crianças, muito bom.

    A notícia que mais me deixou chocada sobre autonomia de crianças foi de uma amiga que esteve na Suécia passando férias. Ela disse que lá as crianças de 4 anos já vão à escola sozinhas!!! Eu fiquei abismada, claro, mas ela me disse que o processo começa desde o primeiro dia de aula. Os pais fazem 100% do caminho com elas no primeiro dia. No segundo, eles fazem 80% e elas completam sozinhas. No terceiro, fazem 60%. Até o dia em que elas saem de casa, juntam-se com as outras crianças da vizinhança, formam um grupo e lá vão todas felizes à escola. Claro que não vivemos na Suécia, mas podemos ampliar muito a autonomia que oferecemos.

    Um beijo!!!

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    • conexaopaisefilhos
      conexaopaisefilhos says:

      É isso aí Andy. Acho que precisamos confiar mais nas crianças, oferecendo um contorno e criando na medida do possível um ambiente seguro para que elas experimentem o mundo. Beijo!

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  6. Rachel
    Rachel says:

    Oi M arcelo…

    Me lembrei de um episódio de quando eu tinha 9 anos. Eram uito normal ficarmos sozinhos em casa nesta idade, ainda mais morando em uma cidade pequena como São Roque….. Era férias e uma prima minha, também com 9 anos, estava em casa. Minha saiu, talvez ir ao banco, era algo que demoraria no máximo 01 hora. Recomendou que nao mexessemos em nada, deixou tudo que talvez quisessemos a vista e ao alcance…mas queriamos e fizemos mais !!!!! deu vontade de comer biscoito com cobertuda de chocolate. Enfim, nos metemos a mini chef…fizemos a gororoba, fizemos a calda. Chamei a vizinha para acender o forno para nós, e quando minha mae chegou, estava tudo pronto.Estava tudo um fiasco, mas ´nós duas comemos e adoramos nosso invento. Minha mãe achou lindo. Meu tio (irmao da minah mãe e pai da minha prima ) proibiu anna laura de passar ferias em casa novamente kkkkk. Conclusão para vida adulta: Anna Laura hoje além de dentista, é doceira. Atende buffet com docinhos maravilhosos, atende festas infantis, casamentos, nascimentos,etc.etc.etc….e eu…. amo cozinhar e inventar na cozinha. Bjs

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  7. fernanda niskier cukier
    fernanda niskier cukier says:

    Oi Marcelo, tudo bem?
    Estava com saudades dos seus textos e adorei esse.
    Mas fiquei um pouco preocupada de você deixar a Luna, tão pequena, mexer no fogão. A maioria dos acidentes domésticos acontecem quando as pessoas que mais gostam da criança estão cuidando dela, e a forma mais eficaz de proteger de acidentes é a passiva: travas em remédios, afastar do fogo, tela nas janelas, etc e tal. Sabe, vejo muitos acidentes e acredito neles.
    Achei mesmo incrivel essa história da autonomia, de mesmo pequenos eles serem capazes de mais do que imaginamos. Lá em casa, fez o maior sucesso o ovo mexido do Felipe. Mas talvez, para a criança pequena, que precisa de uma cadeira para alcançar o fogo, que não tem tanta noção de alguns perigos, não seria mais seguro tentar a autonomia em outras atividades? Tipo, abrir o ovo no copo, colocar o sal, passar manteiga no pãp, fazer o nescau… Mil coisas sem expor a este perigo do fogo?
    De qualquer forma, parabéns, esse seu olhar é incrivel e sempre me faz pensar.
    Beijos, Fê

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    • conexaopaisefilhos
      conexaopaisefilhos says:

      Oi Fernanda! Com certeza devemos ter prudência. Acho que a maioria dos acidentes acontecem pois nem o adulto e nem a criança estão realmente presentes no que estão fazendo. Muitas vezes achamos que estamos presentes, mas nossas mentes estão em outro lugar. Pra mim, esse momento com a Luna foi um ótimo exercício de presença. Eu estava observando cada movimento que ela fazia como se fosse em câmera lenta. Não estava pensando no email, no trabalho, no passaporte, etc. Vale lembrar que Luna já faz muitas coisas na cozinha desde que era menor e por tanto o ovo foi mais um passo em um caminho que já estamos construindo há pelo menos dois anos. Obrigado pela reflexão! Beijos!

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  8. Barbara
    Barbara says:

    Estava esperando por mais um post em seu blog, já o li todo. Venho buscando me entender como mãe pra ser melhor para meu filho, e nessa busca aqui na internet, pois o meio em que vivo nada tem dessa forma de educar em que encontrei aqui no seu blog, me abriu a mente e me fez entender tanta coisa dentro de mim…. Nossa!
    Muito obrigada.

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  1. […] me sinto livre e sei que meus filhos sentirão essa liberdade. Assim, quando for a hora, nos libertaremos dessa relação e construiremos uma outra inédita, […]

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