Uma História de Conexão Verdadeira Com Minha Filha

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Temos um casal de amigos com filhos da idade dos nossos, 5 e 3 anos. Hoje, domingo, eles nos convidaram para jantar fora, mas decidimos não ir junto:  eu estava cansado e minha esposa com uma espécie de virose. Minha filha disse que queria ir e esses amigos disseram que a levariam numa boa. Ela ficou super animada. Tomou banho, escolheu uma roupa especial para ocasião e quando eles buzinaram ela disparou para o portão. Saíram de casa por volta das 19:00 e voltaram as 22:30. Minha filha já conhecia o restaurante e, apesar de não gostar da comida, adora ir lá para brincar com as crianças, inclusive com a filha do dono. O restaurante é pequeno e não há espaço preparado para crianças. Mas as crianças adoram o lugar.

Fiquei com meu filho mais novo aqui em casa, tentando pelo menos dar um espaço para que minha esposa pudesse descansar enquanto a virose (ou o que quer que ela tivesse) tomasse seu curso. Meu filho dormiu e eu fui  ler e responder emails. Estava difícil. Eu estava cansado e os emails demandavam muita atenção.

Em certo momento, tive um insight. Uma ideia surgiu na minha consciência com tal força, certeza e clareza que não havia possibilidade de não acatar: “Quando minha filha chegar, vou fechar o computador e dar 100% de atenção a ela. Vou me reconectar com ela. Não vou ter expectativas que ela me conte como foi o jantar e muito menos que ela vá dormir. Vou perguntar o que ela quer fazer e aproveitar para absorver cada detalhe do seu rosto, dos seus movimentos, da sua voz.” É isso que a Criação com Conexão prega e eu queria muito praticar! Os 150 emails iam ter que esperar. O trabalho ia ter que esperar.

Ela chegou. Agradeci aos meus amigos e me despedi. Ela entrou em casa e subiu as escadas já chamando pela mãe. Por uns 10 segundos, a parte racional do meu cérebro tentou recuperar o controle e fez com que eu mantivesse o computador aberto e ainda lesse alguns emails. Mas lembrei da importância de confiar na minha intuição e fechei o computador. Quanto mais confiamos na nossa intuição, mais disponível ela fica para nos ajudar a tomar decisões alinhadas com o fluxo de vida, com a potência.

Olhei nos olhos da minha filha e perguntei: “O que você quer fazer?”. Ela me olhou nos olhos e disse: “Quero comer ovo mole!”. Com a maior empolgação fui preparar. Perguntei se ela queria torrada com manteiga para mistur com o ovo e ela disse que sim. Enquanto eu preparava ela me contava que brincou muito no restaurante. Ela era uma princesa, o amigo era um cavaleiro, uma amiga era a rainha e a outra a bruxa. Sem eu perguntar nada, contou que comeu apenas um pedaço de peixe empanado e um tipo de sushi chamado hot-roll.

Depois de preparar o ovo perguntei onde e como ela queria comer. Ela pediu para eu dar na boca dela. É claro que ela já come sozinha, mas naquela hora não era isso que importava. Eu estava mostrando para ela que naquele momento ela estaria na liderança e eu não estaria ali para ensinar, para controlar nada. As crianças passam a maior parte da vida tendo que obedecer as regras criadas e impostas pelos adultos: hora de comer, hora de dormir, hora de ir para escola, o que comer, como se vestir, etc. Eu queria que ela sentisse por alguns minutos a capacidade de estar em controle total sobre sua vida. Eu já faço isso há muito tempo com meus filhos e, ao contrario do que muitas pessoas pensam, isso não os transformou em reizinhos mandões. Muito pelo contrário! Quanto mais momentos desses eu incluo na semana deles, mais tranquilos eles ficam. Esses momentos aumentam muito a capacidade de conexão entre eu e eles. Essa conexão é fundamental para que o cérebro deles funcione da melhor maneira. Uma pessoa que se sente conectada, segura, amada, apreende melhor o mundo, se relaciona melhor com as pessoas e toma melhores decisões.

Enquanto dava a comida pra minha filha, estávamos um olhando nos olhos do outro com uma facilidade enorme. Foi um momento mágico, de pura empatia. Eu falei: “É gostoso receber comida na boca?” e ela disse “É muito gostoso.” Eu falei: “Faz tempo que ninguém da comida na minha boca” e ela sugeriu com a maior naturalidade: “Por que você não pede para sua mãe?”

Depois de comer, sem eu falar nada, ela disse: “Vamos subir e aí você me conta uma história longa, uma curta e outra longa?” Eu falei que sim e então subimos e deitamos num sofá que fica entre o quarto das crianças e o nosso num pequeno corredor. Muitas vezes fico estressado na hora de colocar minha filha na cama, pois ela nunca quer ir dormir e sempre inventa mil coisas para ficar acordada. Nesse dia, eu estava completamente relaxado. Não importava se ela ia demorar 2 horas para dormir. Eu tinha clareza de que nossa conexão era mais importante do que ela dormir em determinada hora ou de determinada forma. Ficamos recostados, um ao lado do outro, abraçados e ela disse: “Me conta a história do Jipe Dourado?” Comecei a contar e, como sempre, ela foi corrigindo ou complementando as partes que eu esquecia. Depois de 5 minutos percebi que ela estava piscando duro. Ela então falou: “Papai, se eu fechar os olhos você pode continuar contando a história. Continua contando para você mesmo. Aí, quando você acabar, pode me pegar e colocar na cama.” Concordei e continuei. Quinze segundos depois ela estava dormindo. Continuei contando a história para mim mesmo. Não senti que estava perdendo tempo. Não estava preocupado com eficiência.

Terminei a história e a coloquei na cama. Ela não acordou, não pediu água, não pediu para ir ao banheiro. Nada. Virou de lado. Eu a cobri dei um beijo e sai do quarto.

Eu estava muito feliz com essa conexão profunda que estabeleci com minha filha. Foi uma relação direta entre duas pessoas. Eu sentia que a entendia completamente e que ela me entendia também. Consegui sentir o que é ter um encontro que potencializa as duas pessoas. Percebi como esses momentos são raros na nossa vida. Percebi que basta apenas confiar na vida, na intuição, para ter esses encontros com mais frequência e assim aumentar a potência de vida. Quando sentimos o gosto do que é viver de verdade, queremos mais. A sensação é de despertar de um estado de catatonia. De ver cores onde antes víamos cinza. De ouvir música onde antes ouvíamos barulho. De se conectar ao invés de se esbarrar em contatos utilitários. Enfim, de viver de verdade.

33 respostas
  1. Jessica Fontes
    Jessica Fontes says:

    Nossa que legal. Cada vez estou aprendendo mais com estes blogs, adorei a historia deste fato. São moementos que as vezes achamos que as crianças não sentem falta,mas pelo contrario elas precisam e muito desta conexão com os pais.

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  2. André Gibran
    André Gibran says:

    Cara, que legal! Acabei de conhecer seu blog e estou achando muito bacana! A maneira como você escreve fez como se eu me sentisse trocando experiências. Show. Também tenho uma filha. A minha tem cinco anos e eu me pega pensando nisso de quando em quando.
    Esses momentos são os ,melhores!
    Abraço

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  3. Vanessa
    Vanessa says:

    Lindo relato, muito inspirado!
    Estou buscando essa conexão com meu filhote, mas confesso que a correria do dia-a-dia tira meu foco muitas vezes, mas estou insistindo!

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  4. Prisco
    Prisco says:

    Bonito relato Marcelo, parabéns por este momento tao único com sua filhinha…Eu entendi perfeitamente o que você sentiu pois tive momentos semelhantes com meus filhos, principalmente o mais velho de 4 anos, quando resolvi “deixar de lado o mundo” e viver somente eu e ele aqueles momentos únicos, aprendendo coisas inimagináveis. Acho que essa é a chave do sentido da vida, conseguirmos nos conectar inteiramente e trocarmos o que mais importa, ou a unica coisa realmente importante, o amor. Abraço.

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  5. Teresinha Nolasco_Bolhinhas de Sabão para Maria
    Teresinha Nolasco_Bolhinhas de Sabão para Maria says:

    Mas que sensibilidade dupla: a de escrever esse texto tão bonito e real e a de sentir a necessidade de conectar com sua filha e fazer isso de fato…
    Vivi todas as cenas por aqui.. e só tenho a dizer que concordo com tudo que você disse. Verdade! Eles tem que obedecer tanta coisa.. como é bom deixa-los dominar a situação vez ou outra e assim acalma-los ao contrario de torná-los reizinhos (como vc disse que muitos pensam)..

    Lindo lindo… Vou agora fechar meu lap e ficar perto da minha pequena..
    Mas antes vou publicar esse texto na pagina do Bolhinhas… Outras pessoas precisam ler essa pérola..

    Beijos e um grandioso TODO dia dos pais!

    Teresinha Nolasco – Mãe da Maria

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  6. Clara
    Clara says:

    Marcelo, tudo tão verdadeiro. Reflexão para o resto do mês: ” Percebi que basta apenas confiar na vida, na intuição, (…) e assim aumentar a potência de vida. Quando sentimos o gosto do que é viver de verdade, queremos mais. (…) De se conectar ao invés de se esbarrar em contatos utilitários. Enfim, de viver de verdade.”. Obrigada!

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  7. Olivia
    Olivia says:

    Sem palavras Marcelo….Também me emocionei, e continuo emocionada…Esse que ê o Convite da Vida com certeza, viver ela plenamente, presentes e conectados…sem expectativas..abertos para sermos preenchidos com sua magia por inteiros!!

    Deixo também minha profunda gratidão pela suas partilhas e lembretes para nossas consciências – pura inspiração!

    E ê tao lindo sentir o que desdobra deste tipo de conexão…ontem eu tive um dia muito presente com a minha filha, e o ‘resultado’ foi ela estar feliz, plena e tranquila o dia todo, dormir bem e acordar feliz..e eu também…o coração preenchido e a alma lavada! Gracias a la Vida! E a esses seres que vieram nos ensinar (lembrar de) Tanto! <3

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  8. Juliana
    Juliana says:

    Marcelo, é muito bom quando você compartilha os momentos de conexão com seus filhos, é inspirador! Obrigado e faça mais vezes pra gente não esquecer de praticar.

    Responder
  9. Isabel
    Isabel says:

    Olá
    Amei a maneira sincera de suas palavras. Me emocionei, também estou sempre buscando conhecimento e práticas que facilite essa conexão.
    Abraços.

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  10. Luna Lambert
    Luna Lambert says:

    Marcelo, sempre grata por seus textos.
    Fui uma vez a um encontro com Ana Thomaz e amei o que ela diz. É sempre muito bom poder ler tuas reflexões, muito alinhadas com as propostas dela, e que me lembram de ficar atenta! Na correria do dia-a-dia, muitas vezes, esquecemos dessas coisas. Seus textos tem contribuído muito para me conectar novamente, sempre, constantemente, rs.
    Abraços,
    Luna

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  11. Luiz Torres
    Luiz Torres says:

    Grato pela partilha, Marcelo!
    Linda conexão.

    Lembrei-me de um dia em que cheguei de viajem à noite e meu filho, à época com mais ou menos um ano, quis ficar comigo além da hora usual de ir para a cama dormir. Infelizmente, por falta dessa conexão, não deixei o tempo tão livre quanto ele queria, embora eu tenha ficado triste em entregá-lo à minha esposa para irem para o quarto. Felizmente, sua partilha me mostrou que meu incômodo naquele momento foi autêntico e que devo dar mais ouvidos a esses sinais.

    Grande abraço.
    Luiz.

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  12. Helena
    Helena says:

    Eu tô chorando depois de ler isso. E mais: juro que consegui assistir a este momento de vocês mesmo sem estar ao lado. Eu vi a Luna brincando e comendo peixe e ovo, pedindo pra contar as histórias e consertando e me lembrei: da última vez que contei história pra ela, ela disse pra eu continuar contando pra mim mesma, mas a desobedeci. Não farei isso da próxima vez. Perdão a falha da tua tia Lelê, Luna. É possível que eu tenha deixado de aprender algo sobre mim e o sobre o mundo…

    Responder

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