Apego seguro

Um Bom Choro Pode Promover o Apego Seguro

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Este artigo é um ótimo resumo do primeiro livreto que estou traduzindo sobre Criação com Conexão. Se você quer ser avisada (o) sobre o lançamento dos livretos, clique AQUI e preencha seu email e seu nome (opcional)

O artigo original em inglês foi escrito pela Patty Wipfler e pode ser lido neste link. Ele fala sobre a importância do nosso papel de pais e mães em ajudar nossos filhos a extravasar emoções que estejam dificultando sua vida, e como podemos fazer isso. A tradução foi feita pela Aila Nunes e revisada por mim.

A Aila é psicóloga e psicoterapeuta Junguiana (fale com  a Aila através do Facebook dela) e quis colaborar comigo para trazermos o máximo de informações do Hand in Hand Parenting para a lingua portuguesa. Se você sabe traduzir do inglês para o português e quer participar dessa força tarefa, entre no site do Hand in Hand Parenting, escolha um artigo que te interessa, traduza e mande para eu revisar e publicar. Você estará ajudando milhares de mães, pais, avós, cuidadoras e educadores a terem acesso gratuito. Se você quiser, posso colocar o link da sua página no artigo que você traduziu.

 

Um Bom Choro Pode Promover o Apego Seguro 

A maioria de nós, pais, queremos, mais que tudo, que a nossa presença seja como um elixir que elimina os aborrecimentos de nossos filhos. Queremos que o nosso toque, o nosso aconchego e nossas palavras doces curem suas dores.

Nosso filho chora por que seu aviãozinho de papel foi esmagado, e nós colocamos o braço ao redor dele e lhe dizemos que vamos fazer outro. Ele funga e aos poucos se acalma.

Ou nossa filha faz uma birra por causa de um balão de festa que voou e não pode ser pego, e nós a seguramos no colo, se debatendo em protesto, e damos um monte de explicações até que ela fique quietinha, mas não necessariamente alegre.

Ou nenhuma das crianças quer dormir na própria cama, então nos deitamos ao lado de cada uma delas, noite após noite, satisfeitos por podermos evitar suas lágrimas, mas desejando secretamente que pudéssemos ter uma horinha para nós mesmos.

Nós sabemos que crianças precisam desenvolver um apego seguro com seus pais para prosperar. Então, quando estão chateados, nós nos aproximamos deles, exatamente como deveríamos. Levamos nosso toque, nossas palavras, nossas formas de acalentar e, algumas vezes, uma distração ou duas para ajudar. Queremos protegê-las das adversidades.

 

Um momento difícil pode quebrar o senso de conexão do seu filho com você 

Mas, se observar cuidadosamente a criança que você acabou de acalentar ou silenciar, vai perceber um longo período de confusão emocional depois que você intercedeu para redirecionar as emoções dela. Ela não estará pronta para brincar. O balão perdido ou o avião de papel esmagado continuam em sua mente. E depois de mais 6 meses se deitando ao lado de seus filhos à noite, eles ainda não conseguem ir dormir sozinhos. Parece que a coragem para adormecer sozinho não está nem perto de chegar.

Isso acontece porque, todo dia, pequenas coisas danificam o senso de segurança de seu filho. A dor que ele sente prejudica o sentimento de conexão com você. Quando ele está chateado, ele se sente sozinho e bastante vulnerável.

Algumas vezes, um pequeno incidente pode trazer à tona sentimentos de momentos anteriores difíceis, que seu filho ainda guarda.

Quando o irmão menor pisa no seu avião de papel, ele fica enfurecido. Ele experimenta uma onda de ressentimentos relacionados àquelas semanas e meses que se seguiram ao nascimento do irmão. Então, tem que lidar com uma montanha de sentimentos que são difíceis de administrar. Sentimentos que não puderam ser expressos continuam operando dentro dele e prejudicando seu senso de conexão a qualquer hora. Esse é o famoso “do nada”. Exemplo: “Ele mordeu o amiguinho do nada”. Nunca é “do nada”.

 

Acalmar seu filho não dá conta de lidar com os sentimentos acumulados que ele carrega.

Acalmar e distrair seu filho pode comunicar, “Eu não acho que você possa lidar com esses sentimentos que está tendo.” E mais, “Eu (mãe, pai, avó) me sinto tão mal. Eu não quero que você tenha que passar por isso.” Parar o choro ou a birra de seu filho, inibe processos naturais de cura – choro, birra, perspiração & suor, e risada – que fazem com que as emoções negativas sejam extravasadas e não fiquem estagnadas, sendo ressentidas horas, dias, semanas e meses depois. É muito importante permitir que o episódio de extravasamento emocional se complete. Caso contrário, ele continuará a se sentir vulnerável, preso no acontecimento, incapaz de brincar bem.

 

Escutar, ao invés de acalmar, muda tudo!

Quando você deixa seu filho expressar seus sentimentos, escutando atentamente, você o ajuda a superar a adversidade, ao invés de ajudá-lo a evitar o sentimento que a  adversidade provoca. Vocêo ajuda a aumentar sua confiança.

Sim, ele precisa do seu amor, oferecido através da gentileza em seus olhos, sua voz estável, e talvez através de um toque, apesar de que crianças fazendo birra se beneficiam mais de um pouco de espaço pra que possam sentir que estão livres para se debater. Você pode lhe dizer algo como “Estou cuidando de você” a cada poucos minutos. Você vai ver que seu filho provavelmente irá chorar mais forte quando você falar gentilmente, desde que esse falar seja espaçado por momentos de silêncio. Quando ele sente o seu apoio, isto acelera o seu processo de cura. Isto intensifica os sentimentos dele, e ele os extravasa mais rapidamente.

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Se você continuar prestando atenção, ele irá te mostrar as emoções mais intensas, e desfazer o sentimento de adversidade, até não mais senti-lo. Quando ele terminar, estará radiante e pronto para seguir em frente, sem se sentir intimidado pelas dificuldades.

Se a dor for grande – o vovôs e mudou para longe, ou a sua professora favorita está doente e ele não quer ir para escola – alguns bons choros podem ser necessários para esvaziar o poço de sentimentos que estão lá e restaurar a confiança de seu filho. Mas em todo choro que é gentilmente apoiado, ele aprende que pode lidar com momentos difíceis. E aprende que você irá apoiá-lo enquanto ele lida com a lembrança e as emoções de eventos desfavoráveis.

 

Não conserte, e não acalme.

Quando seu filho estiver passando por um momento difícil e vocês e aproximar dele, não se ocupe em consertar a situação. Sim, você poderia fazer outro avião de papel em apenas um minuto, mas os sentimentos dele é que estão em questão agora. É preciso fazer uma recuperação emocional! É preciso enfrentar e superar uma adversidade. Fazer um novo avião de papel não ajuda em nada nesse processo. Isto irá deixá-lo com um desapontamento armazenado, que se manifestará novamente na próxima vez que seu irmão menor fizer alguma coisa inesperada. Você poderáver isso na tensão que vai se formando toda vez que o irmão se aproxima de um de seus brinquedos. Ele não superou o episódio anterior. Não terminou o seu choro.

E sim, você poderia aconchegá-lo em seus braços e acalentá-lo para que ele se acalme, mas os sentimentos mal resolvidos que não são expressos e extravasados irão entulhar a vida dele com pequenos medos, irritações e implicâncias. Esses sentimentos irão aflorar porque é difícil carregar sentimentos guardados. Eles desorganizam o comportamento de uma criança. Eles interferem na capacidade de se divertir e na proximidade com outras pessoas.

Dê atenção e afeto, enquanto a criança realiza seu trabalho de cura.

Confie que sua atenção carinhosa é uma força curativa poderosa. Confie que se você escutar com amor, ele irá sentir.

Ajude-o a perceber o que aconteceu. “O João amassou seu avião.” Ou, “Posso pegar o aviãozinho amassado para que você possa vê-lo?” Ou, “É chato ver o avião amassado.” Não fale sobre seus sentimentos. Se você diz, “Ah, esse João! Estou muito brava com ele!”, está desqualificando a habilidade da criança em lidar com o que aconteceu e trabalhar suas emoções. Você está dizendo “Eu estou chateada com essa situação”, e aí coloca seu aborrecimento acima do aborrecimento dele.

 

Você também precisará de alguém para te ouvir, então fale sobre suas reações para outro adulto.

É claro que você, tanto quanto seu filho, precisa ser ouvida quando coisas difíceis acontecem. Nós, pais, experimentamos sentimentos difíceis em relação às adversidades que nossos filhos enfrentam. Gostaríamos que a vida deles pudesse ser perfeita, e quando eles ficam chateados, isso aciona preocupações enormes em nós. Construir uma “Parceria de Escuta” irá te ajudar a entender como trocar períodos de escuta com outra mãe/pai, para que você possa trabalhar e extravasar seus próprios sentimentos, provenientes de eventos adversos, e recuperar sua alegria na prática de criar filhos.

 

Quando sentimentos emergem, temos dois trabalhos complementares

Quando seu filho tem um aborrecimento, ele tem um trabalho a fazer. O trabalho dele é liberar a emoção que está borbulhando dentro dele. Você não pode calar ou racionalizar essa emoção  para que ela desapareça. Somente seu filho pode dissolver esses sentimentos dolorosos. Felizmente, ele foi criado com uma capacidade inata para dissolver grandes sentimentos. Ele irá chorar, fazer um escândalo, tremer, suar ou se lamentar. A risada também tem um profundo efeito curativo. Crianças são especialistas em se livrar de aborrecimentos. Elas não ficam remoendo. Eles vão direto ao ponto!

O seu trabalho é dar apoio e afeto, e você é capaz de fazer isso com excelência. Simplesmente escute. Ofereça sua total atenção. Deixe de lado sua agenda, seus planos, e suas preocupações. Empreste sua confiança a seu filho, enquanto ele se sente severamente injustiçado. Faça tudo que puder para entender o quanto aquele momento é difícil para ele. Ofereça-lhe respeito, como se ele estivesse apresentando um recital ou lendo para você um poema sobre seus sentimentos mais profundos. Seu choro está vindo da profundeza do seu ser. Receba tudo. Sua conexão carinhosa e estável irá penetrar nele, substituindo os sentimentos negativos à medida que estes são extravasados. Por mais que ele pareça ter perdido o controle naquele momento, ele sairá mais forte por ter varrido tudo aquilo pra fora de seu organismo, sob a sua afetuosa proteção.

 

Quando você escuta, você empodera seu filho.

A sua escuta pode reverter as complicações emocionais de seu filho. Pode restaurar seu senso de segurança. Escutar seu filho faz de você um parceiro nesse trabalho de curar a dor, e depois seguir em frente juntos.

 

Veja um exemplo de como isso funciona na prática:

Eu sou uma mãe solteira e tenho criado meu filho de 5 anos sozinha desde que ele estava perto dos 3 anos. Nós somos extremamente conectados e nunca ficamos separados um do outro, fora minhas 8 horas diárias de trabalho, é claro.

Então, surgiu uma oportunidade para ele ir acampar no final de semana com alguns amigos, cinco horas ao norte de onde vivemos. Ele estava extremamente animado com a ideia, assim como eu, pois precisava de tempo para descansar e me reanimar. Alguns dias antes do dia que ele deveria partir, eu estava lendo para ele nossa historia de dormir preferida, quando ele começou a me fazer perguntas sobre o passeio. “Quanto tempo eu ficarei longe, mamãe?” ele perguntou. “Dois dias e duas noites”, eu respondi. “É muito tempo! Você não pode ir comigo?” ele perguntou, com uma ponta de desespero em sua voz. Eu podia sentir o que estava vindo – ele queria desistir. Seus medos de me deixar e ficar longe estavam vindo à tona.

“Não, querido, eu não posso ir, você vai sozinho e vai ficar tudo bem.” Eu mantive minha resposta calma. “Não! Eu tenho que ir? E se um dos meninos me empurrar de uma ribanceira?” Seus olhos se tornaram desesperados e eu podia ver que seus maiores medos estavam vindo, eu gostando ou não.

“Sim, querido, você tem que ir. Você ficará bem e em segurança. Não tem ribanceiras lá, apenas água e árvores. Você vai se divertir”, eu respondi. “Não!!!!! Por favor, não me obrigue a ir! Não me deixe! Você quer que eu vá embora!!!” Ele estava começando a chorar muito, e tinha agarrado minha cabeça para me manter perto.

“Não, querido, eu não quero que você vá embora. Eu amo ter você comigo. Mas vai ser tão divertido e você estará de volta com a mamãe em dois dias. Eu vou pensar em você todos os dias. Tudo bem você sentir medo.” Ele chorou por mais um tempo e então caiu  em um sono profundo.

Happy-Campers

Na manhã seguinte ele acordo descansado e renovado. “Mamãe! Eu vou acampar! Eu vou me divertir tanto e só ficarei longe por pouco tempo!” Ele estava leve e feliz. Trabalhar seus sentimentos com segurança realmente o ajudou a se preparar para ir. Quando o dia chegou ele me abraçou e se despediu, pulou no carro dos amigos, e lá se foi.

– Uma mãe que Cria com Conexão, em Oakland, California, EUA

 

8 respostas
  1. Natalie
    Natalie says:

    Muito bom o texto e comunicou com uma adversidade que estou passando recentemente. Tenho apenas uma tarde por semana para ficar com meus dois pequenos de 1 e 3 anos. Em vez de serem momentos bons, estão se tornando um suplício diante de intermináveis solicitações do maior. “Mãe, mãe, mãe”. Ele quer que eu faça tudo por ele, por exemplo, sentamos para desenhar ele manda e eu fico desenhando sozinha: muito chato! Sinto que é preciso por um limite nessa situação porque o dia acaba e eu estou esgotada e irritada com as crianças,mas não consigo identificar o momento. Também tenho investido em ” momentos especiais a sós com cada um, mas eles não aceitam a hora que acaba!
    E aí? Alguma luz?
    Um abraço! Parabéns pelo trabalho Marcelo!

    Responder
  2. Laís Marques
    Laís Marques says:

    O artigo é bem interessante..mas fico me perguntando o que fazer quando esta situação de estravazar as emoções é em publico,deixar as emoções fluírem e atender ao pedido do pai de irmos embora,porque depois da birra e difícil ter algum clima de festa .

    Responder
    • Lyla
      Lyla says:

      Oi Lais,

      Se acontece conosco, eu tiro meu filho da evidência (em caso extremo, pego no colo e levo pra longe). Trago ele para um canto mais reservado, longe dos olhares dos outros. Me abaixo pra ficar na altura dele (normalmente sento no chão mesmo… em dado momento ele acaba sentando no meu colo pra falar) e ai conversamos. Digo que o que ele fez ali não estava certo e pergunto a ele o que aconteceu? pq ele fez aquilo daquela forma?
      Eu escuto tudo sem interromper… daí digo a ele “alternativas” para lidar com aquela situação: “vc poderia ter feito isso dessa outra forma”, “se vc não gostou do que ele fez, diga isso a ele”, “vc gostaria que ele fizesse assim com vc?”… enfim.
      Depois que ele se acalma, voltamos pra festa.
      Sair no meio da birra sem resolver as coisas na hora, me parece complicado. Isso acaba valorizando muito o negativo e que talvez possam dar duas interpretações pra criança; uma é de que “é só espernear que posso sair de uma situação ruim” a outra é a de que “o que estou sentindo é feio, errado, por isso estamos indo embora”.
      Ai ai… me empolguei em tagarelar aqui… hahaha… é que tenho lido bastante sobre o assunto e tbém aprendendo a lidar com o meu pqueno (de 5 anos)….
      Bom, nessa situação que vc descreve ai Lais, eu faria assim como contei.
      Será que é uma boa saída? O que vc acha Marcelo??

      abs
      Lyla

      Responder
      • Roberta
        Roberta says:

        Eu gostei da sua forma, Lyla, eu só não apontaria o comportamento como errado, mas isso pelo meu histórico com isso de certoXerrado mesmo rsrs… frisaria a parte de como é difícil lidar com os sentimentos e que nem sempre nossa atitude, comportamento, reação a essa explosão emocional é o que gostaríamos, ou o que a maioria acha adequada, mas que podemos tentar sentir a explosão vindo e encontrar formas de lidar com ela. Mas ai daria as alternativas e também perguntaria sobre as alternativas que a criança vê.

        Gosto muito de fazer um paralelo com as emoções e as sensações no corpo, acho que ajuda a conectar com o físico, com o corpo mesmo e facilita a consciência e a auto-observação!

        Responder

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  2. […] vezes, eu percebia que ele estava precisando extravasar alguma emoção estagnada e o ajudava, colocando limite e ouvindo seu choro, seus gritos. Em meio ao choro, ele chamava pela mãe. Isso é normal. Nenhuma criança, e quase nenhum adulto, […]

  3. […] em algum ponto você explodiu? Pois bem, isso acontecia muito comigo; até eu começar a estudar a Criação com Conexão, desenvolvida por Patty Wipfler. Entendi que a causa da reclamação é uma sensação física e mental de desconexão sentida pela […]

  4. […] Brincamos bastante. Na brincadeira parecia extravasar também. Rindo, chutando a água, correndo na grama. É impressionante pensar que uma criança que estava chorando por tanto tempo, agora estava sorrindo e querendo brincar comigo. Mas é isso mesmo que a Criação com Conexão diz: quando escutamos o choro dos nossos filhos, as emoções ruins saem, e nosso amor entra. […]

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