Festa de Criança??????

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(Esse texto foi escrito pela Luiza São Thiago que participa do Grupo Conexão Pais e Filhos e tem um trabalho bacana com plantação de hortas orgânicas com crianças na KayPacha Horta Infantil. Pedi autorização da Luiza para publicar esse texto aqui pois ele descreve muito bem algumas das minhas angústias com relação à esse modelão de festa que tem dominado o universo infantil: comida nada saudável / música ruim e alta / “animadores” mal preparados e mal pagos.)

Festa de Criança????

(por Luiza São Thiago)

Comida tóxica (meu ponto de vista para salgadinhos fritos, refrigerante e doces), decoração sem amor, ninguém ouve ninguém, ninguém olha ninguém e o pior: os animadores.

Criança precisa de “animação”? (arrisco dizer que não)

Ok, vamos entreter.

Mas como?

Estive 5 horas agora com meu filho em uma destas festas.

Uma dupla de animadores ficou durante 5 horas, sem pausa, sem descanso , sem respirar, passando um jogo após o outro. Todos os jogos de competição e de colocar a energia lá no alto. Tudo era adrenalina. “Desenho mais bonito ganha prenda”, “quem chegar primeiro ganha prenda”, “quem sentar primeiro ganha prenda”, “ponto para as meninas”, “ponto pros meninos”.

Quando deu 3h dessa loucura, claro, as crianças começaram a se machucar; cada uma caindo pra um lado. Ficam focadas no cara do microfone prometendo prendas e perdem o contato consigo, com o seu próprio corpo, com o cansaço, com sua energia.

Olhei para o meu filho e me assustei: estava pálido, olhos fundos, totalmente desvitalizado. Ansioso, com a mão no peito faltando ar pra respirar. Cheguei perto e “Filho, observa que todas essas brincadeiras são competição, não tem nada para vocês fazerem em conjunto, nada pra compartilhar. Também não tem serenidade, a ideia é colocar muita ansiedade, a energia fica o tempo todo alta. Se quiser ficar aqui, fica. Mas eu te sugiro você sentir o seu corpo e respeitar o limite dele.Depois, se sentir que dá, vc volta. Mas sente antes.”

Saiu, foi jogar totó num lugar mais calmo. Todos os meninos vieram atrás dele. Queriam sair da loucura também, mas parecia impossível ter outra escolha no meio daquela euforia.

30min depois, o animador grita no microfone “Tá faltando menino, tá faltando menino”. Eles ficam ansiosos, precisam preencher aquele buraco! E voltam, todos. A brincadeira era “ganha os 5 desenhos mais bonitos”. Meu filho ainda ficou um tempo olhando aquilo de longe. Saí do totó, cheguei perto dele e perguntei “Você acha q faz sentido competir por desenho? Eu acredito que cada um tem um modo de se expressar. E todos os modos são lindos, não tem modo mais feio”. Ele pensou… “É verdade. Eu vou lá, vou desenhar, mas não vou competir.”. E aí ele conseguiu ir em outra frequência, pintou por gostar, não pra competir. Fui junto com ele e fiquei lá desenhando por desenhar (e ainda ouvi do animador: “Ué, porque você está aqui? vc nao teve infancia nao?” só sorri e voltei a desenhar); desenhei do lado dele; só pra ele ter outra referência de energia. E aí falei com o animador na maior paz “Vc acha que desenho precisa de competição? Todos são lindos não são? ” Ele concordou e não fez mais.

Pra fechar, “guerra de chantilly” – hein???

Fico pensando em uma perspectiva de adolescência – não vejo diferença entre a energia dessa festa de criança e essas festas/noitadas de adolescentes que bebem todas, pegam geral e voltam pra casa sabe-se lá como, ou muitas vezes nem voltam.

Me dá vontade de proibir essas festas pra ele. Sou do time que curte mais estar de verdade com poucos e bons amigos, comida caseira e saudável, decoração feita com amor, na serenidade.

Mas hoje fiquei pensando que estar nesse tipo de festa de hoje é uma oportunidade de trabalhar o “estar consigo, o estar na sua energia”, a despeito do que está a volta. O isolamento é mais fácil. O não se perder de si quando o entorno é tentador é mais difícil.

Queria ouvir vocês. Costumam ter esse tipo de festa? Como conduzem seus filhos nelas?


(Aproveito para abrir esse espaço para outras pessoas que queiram escrever artigos sobre suas experiências com os filhos. É só enviar um email para marcelo@conexaopaisefilhos.com com o assunto “artigo para o blog” e o texto que quer publicar. É importante lembrar que o texto não pode ter sido publicado em outro lugar na internet pois o Google e outros buscadores punem os sites que copiam ou repetem conteúdo. Abraços, Marcelo.)

18 respostas
  1. Larissa
    Larissa says:

    Sou partidária da mesma ideia. Meu filho teve todos seus aniversários no salão do condomínio onde eu morava. Docinhos, bolos e cupcakes feitos por mim. Decoração tb. Pula-pula e piscina de bolinha. Salgadinho, cachorro quente…e muito espaço pra correr. Dps mudei-me para uma casa, onde as festinhas dele e da minha filha são no quintal de casa. Alugo brinquedos, e deixo-os a vontade para brincar….no máximo uma música pra dançar..coisas de criança! Ninguém se estressa…amigos íntimos, sem muita muvuca. Todas tem sido um sucesso…simples como brincadeira de criança!

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  2. Tatiane Mosca
    Tatiane Mosca says:

    Adorei o texto! Ainda tenho um bb de 4 meses mas essa questão de ostentar em si é algo que sempre me aflige. Não importa a classe social, a loucura tá geral! Além da comelança excessiva, dos gastos que na minha opinião são desnecessários, ainda tem a questão do lixo! Fico chocada com a quantidade de lixo gerada numa “pequena festa”infantil! Há pouco tempo uma conhecida fez uma festinha para a filha em “formato piquenique cooperativo”, e foi a melhor festa infantil que fui na vida! Ninguém levou presente, cada um levou uma comida ou bebida que as crianças tb poderiam comer (sucos,bolos, chás), o bolo de parabéns foi integral feito pela mãe, a decoração eram cartazes de cartolina com fotos contando um pouco da história da família, todo mundo sentado na grama, pés descalços, uma mãe ajudando a cuidar ou brincando com os filhos das outras mães…uma delícia!!!! Amei, sem ostentação, com muita simplicidade e alegria! As crianças se divertiram!!!

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  3. eliane almeida
    eliane almeida says:

    Adorei o texto!!
    Meu filho tem 5 anos
    No aniversário de 4 anos ele msm optou por fazer a festa na praia, disse quero viajar, e fomos, encomendados um bolo de cenoura bem simplismo, na única doceria do local, suco de uva integral, cantamos parabéns na pousada à noitinha, eu ele e meu esposo, aí saímos pra caminhar e levamos o bolo e ele doou para alguns moradores de rua ,dizendo:
    Olha só ,eles adoraram, comeram tudinho…
    Tivemos momentos muito felizes, fizemos novas amizades, e curtimos tanta coisa diferente!!
    E ele disse que quer viajar no próximo aniversário, vamos convidar uns amiguinhos dessa vez!!

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  4. Luana Müller
    Luana Müller says:

    Já escrevi dezenas de vezes sobre esse assunto no blog. Sobre os animadores em questão, me lembrei do Show da Xuxa. Ainda copiam aquilo, gente?
    Animador desse naipe eu ainda não vi, felizmente.
    Chocada com esse relato! Quanta sabedoria dessa mãe!
    As festas que faço têm sim atividades levemente supervisionadas, mas sem característica competitiva. A maior parte do tempo elas brincam por elas mesmas, não precisamos nem dar ideia…

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  5. Viviane
    Viviane says:

    Eu sinceramente não conheço ainda nessa face da terra de meu Deus algo mais animado do que criança…Não vejo o menor sentido contratar alguém para animar uma festa infantil…Eu tenho uma filha de 3 anos e estou cada dia mais convencida que esses modelos convencionais não fazem sentido, porque eles não aproveitam, a gente fica presa demais em cumprir uma série de rituais que nem consegue conversar e curtir absolutamente nada…Nesse ano eu não fiz festa grande para minha filha, em cima da hora decidi reservar o salão do prédio e fazer um bolinho e chamei os amiguinhos e priminhos pra cantar Parabéns. Comprei uns enfeites e ela passou a tarde comigo me ajudando a montar um painel de Parabéns…Era uma alegria só, coloquei nela a fantasia que usou no Carnaval pra receber os amiguinhos…ela ficou tao feliz e curtiu tanto que na hora do Parabéns dormiu!!! Sem problemas os amigos cantaram e festejaram do mesmo jeito…Valeu pela alegria do processo, tudo simples, tranquilo, sem neuras…
    O que eles precisam na verdade são de pessoas dispostas a estar junto, sentar no chão, contar histórias engraçadas, ou até mesmo elaborar um oficina criativa para que eles possam produzir alguma coisa legal…Tem tantos vídeos na internet que ensinam a fazer esse tipo de atividade e nem custa tão caro, muitos materiais são recicláveis, que você pode ir juntando durante um tempo com a ajuda dos vizinhos e amigos…Criança gosta de liberdade de brincar com tinta, com lápis e papel e exercitar a criatividade…só precisam de pessoas dispostas a fazer isso…Claro que dá um pouco de trabalho e faz um pouco de bagunça mas se vc se preparar pra esse propósito tenho certeza que o resultado vai valer a pena. No meu caso valeu muito

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  6. Mônica
    Mônica says:

    Adorei o texto. Venho observando com olhos críticos as brincadeiras competitivas de animadores infantis. Em vez de entreter, causam angústia, choro e decepção na criança que não conseguiu vencer. Fico imaginando o que ainda está por vir. As pessoas estão perdendo a noção do que é saudável.

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  7. joana de paula
    joana de paula says:

    Excelente texto, as festas parecem mais competições também entre adultos, quem faz na casa de festa melhor, ou apenas a praticidade de ter tudo feito por alguém. Eu gosto de festa a moda antiga, onde a gente escolhe o tema junto, prepara a arrumação, a comida é feita em grande parte em casa. Com certeza temos como ter comida gostosa e saudável sem frituras e refrigerante. No primeiro ano do meu filho fizemos uma festa, como todas as outras, em casa, com comida caseira, opção para os vegetarianos e apenas sucos, foi um sucesso! quem não bebe suco, tomava agua. Também abolimos bebidas alcoólica para os adultos, afinal a festa é para as crianças. No ano seguinte fomos numa festa que também só tinha suco, falei com os pais que legal e eles disseram que tinham copiado da nossa festa! As vezes as pessoas escolhem esse formato barulhento, estressante por não pensar em outra coisa, por falta de tempo, e talvez por falta de conecção com uma vida mais simples!

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  8. Valéria De Diana
    Valéria De Diana says:

    Realmente essas festas são para quem pensa em “ter” e não “ser”. Tenho pavor de festas em buffet, tanto que nunca levei minha filha que faz 2 anos no mês que vem. No primeiro aniversário a família queria festa, então fizemos um “chá da tarde” no sitio de uma das avós, toda familia parcipou da preparação, cada um levou alguma coisa que fez ou cuidadosamente comprou, Foi tranquilo em meio a natureza, sem musica, a alimentação tambem foi voltada ao natural, pães, biscoitos caseiros (feitos pela “bisa”), sucos… Esse ano vai rolar um piquenique em um parque (porque a Helena adora um “paque”), com os poucos amiguinhos da escola e um ou outro fora dela. Acho que em lugares naturais, tudo flui melhor, e o melhor a decoração já está lá…rs (árvores, grama, sol,…)

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  9. Telma Carolina
    Telma Carolina says:

    Enorme gratidão.Gosto de fazer festas pequenas e sem frituras para nossos filhos porque não comemos fritura nem refrigerante. Tenho vergonha de oferecer aos meus convidados algo que todos sabem que não como.
    Somado a isso, sou mae de uma garotinha com síndrome látex fruto. Em outras palavras: ela tem uma grave alergia a látex e alguns frutos com traço de látex, como banana. A ultima vez em que foi a uma festa, fez asma mesmo não tocando em balões e por isso não a levo mais.
    Haverá uma depois de amanhã e estava chateada com o pensamento ” ela está perdendo parte da infância “. Mas não, né? É só outra infância…

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  10. Paula Quintão
    Paula Quintão says:

    Não vou mais a festas sociais, simplesmente não consigo lidar com o fato de tanta artificialidade e tantas pessoas que não prestam atenção umas nas outras. E isso porque em nossa infância ainda podíamos nos reunir para brincar juntas e cantar o parabéns quando os pais do aniversariante chamassem. Durante os aniversários tínhamos um contrato vivo de cooperação, liberdade e brincadeiras, e na hora do parabéns, aí sim, estávamos cercados pelos adultos.

    Hoje o cenário das festas cheias de enfeites encomendados, monumentos de balões e animadores descontrolados só me faz pensar que a dureza das festas dos adultos (o engessamento, o excessivamente programado e a ausência de contato olho no olho, aquele contrato de cooperação, liberdade e brincadeiras) invadiu também as festas infantis. Vivemos entre adultos tão doentes de propósito e tão cheios de expectativas que somos incapazes de dizer não a esses arranjos.

    Eu digo não. E acho lindo ler um texto como esse que é um verdadeiro despertar. Só assim podemos nos aproximar do lado mais humano e menos plastificado, do lado mais improvisado e menos pré-determinado.

    Grande abraço e muitas celebrações cheias de balões enchidos na boca e bolos feitos no forno de casa.
    Paula Quintão.

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  11. Lesly Monrat
    Lesly Monrat says:

    É Luiza e Marcelo, cada dia mais loucura, e depois reclamamos do mundo! É tão fácil ser diferente, mas é preciso ter disposição! Deixo aqui um exemplo de festa simples, porém altamente significativa para o aniversariante e convidados. Trata-se da festa de dois anos do meu filho, que foi num sítio, cercado de animais, natureza e brincadeiras ludicamente saudáveis. E algo assim sai deveras mais barato! Abraços a todos.
    Aniversário sensorial: http://www.porquenaomamae.com/2014/06/aniversario-sensorial.html

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  12. Elisângela
    Elisângela says:

    Boa noite Marcelo!!!
    Muito bom o texto! Acabo de confirmar a nossa ida aqui de casa em mais uma festa de aniversário de um amigo do Miguel… ainda me estranho com as novidades, confirmar presença…salões de festa cheios de atividades…
    Meu pequeno tem 5 anos, faz 6 mês que vem e criamos ele simplesmente… como criança mesmo!
    Somos adeptos da criação com apego intuitivamente até os 3 anos e após já com conhecimento e estudo sobre o assunto. Aqui as festas estão cada dia mais cheias de loucuras como essas, grandes salões caríssimos, com buffet e pompa, quase um casamento, uma festa de debutante… para crianças de 3,4,5,6 anos! Exatamente assim, comidas nada saudáveis, muito açúcar,muito barulho! Miguel não gosta, fica assustado, detesta gritaria, máscaras, quer brincar com os amigos. Sempre termino indo embora ou com ele no meu colo observando ou com medo dos animadores fantasiados! Somos taxados de chatos, enjoados, ou hippie! rs As festinhas dele sempre fazemos em casa, mas como sair fora dessa pressão? Esse ano ele me pediu para fazer em um salão, mas do nosso jeito. Enfeites feitos por nós dois, os melhores amigos, as frutas que ele adora, os brinquedos dele, os livros de história para eu contar… Nenhum salão aceitou! Vamos fazer no clube que somos sócios, na parte gramada, ao lado do parquinho, ao ar livre contrariando algumas mães e familiares que torceram a boca para a “festinha simples” que queremos, pode? Pior que pode, me sinto uma ET no meio disso tudo e meu filho também.

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    • Joana Bernardino
      Joana Bernardino says:

      Bem colocado, Elisângela. As festas infantis se transformaram em mega eventos. Já fiz, já cedi mas sinceramente também não gostei. Ano passado minha filha fez 6 anos e fiz uma festa simples, em casa. Quase ninguém apareceu. Mas quem apareceu se divertiu à beça!! Esse ano vou fazer simples de novo, também no clube que frequentamos. Quem aparecer vai se divertir, garanto. Quem não aparecer, paciência!!

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    • Vanessa Tavares
      Vanessa Tavares says:

      Nossa, que bom ter lido este texto e os comentários. Me sinto a “estranha” quando tento fazer todo tipo de coisa “do meu jeito”. Em novembro meu filho completa 5 anos e quero fazer novamente em um parque da cidade, como fiz nos aniversários de 1 e 3 anos. Claro que pouca gente compareceu, mas foi uma tarde tão agradável… Pessoas sentadas nas toalhas na grama, tocando violão, sentindo o vento… Frutas a vontade. Acho muito mais agradável. Só tive alguns problemas de logística, mas acho que desta vez aprendi com os erros e estou mais segura. Não tenho dinheiro para alugar um lugar e quero que seja um lugar em que ele se sinta acolhido. Sempre vamos juntos a este parque e ele se identifica bastante. Que bom saber que não sou a única que tenta coisas mais saudáveis!

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