Pai e filho

Diálogo Imaginário Entre um Pai e Seu Filho Com Síndrome de Down

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(Esse texto foi escrito pelo Guga Dorea, um pai que participa do Grupo Conexão Pais e Filhos. O texto mexeu muito comigo, e me fez refletir sobre como estou criando meus filhos. Fiquei me perguntando: Quando crio espaços para eles variarem, pra serem singulares, para estarem em fluxo? Obrigado Guga!”)

DIÁLOGO IMAGINÁRIO ENTRE UM PAI E SEU FILHO COM SÍNDROME DE DOWN

Por Guga Dorea

Quando o Thiago havia acabado de nascer escrevi esse diálogo imaginário ao refletir sobre qual é o olhar que nós pais, não deveríamos ter em relação à criança com a síndrome de Down ou outra das chamadas deficiências. Hoje ele está com 17 anos, tem a sua própria personalidade e, obviamente, algumas dificuldades, como todos nós.

Tenho notado, entretanto, que o diálogo criado por mim, naquele rico período do nascimento de meu filho, continua de pé em se tratando de nossa realidade. Como um pai que sempre olhou o filho e não a Síndrome ou o Cromossomo 21 a mais, optei por revê-lo e compartilhar com todos que vivem ou viverão o mesmo dilema, ou ainda com outras pessoas ou pais que não conseguiram superar preconceitos existentes dentro de nós mesmos.

Como deve ser a percepção de um bebê com a Síndrome de Down no momento em que ele veio ao mundo? Em um primeiro instante, pode até parecer irrelevante, e mesmo sem sentido, começarmos dessa forma um debate sobre a inclusão social nos dias de hoje, sobretudo porque quem discute e define quais são os melhores meios para atingir tal fim é o mundo adulto, supostamente consciente do que escolheu para os filhos em suas vidas cotidianas.

Mas como forma de exercitar a nossa imaginação, insistirei nessa reviravolta, propondo ao leitor que siga comigo em uma viagem por uma possível subjetividade e sensações de uma criança “Down” em seu primeiro contato imagético com o mundo de fora. Começo aqui um exercício de pensamento ou, como queiram um diálogo fictício, porém muito mais real do que podemos imaginar:

 

Bebê: Não estou compreendendo bem. As primeiras palavras que eu escutei foram: “que frustração, o filho dos meus sonhos, que tanto idealizei nesses noves meses de gestação, não veio? Não veio? Então quem sou eu? O que tem de errado comigo?

Pais: Ainda não sabemos, mas o problema é que daqui para frente teremos que super protegê-lo desse mundo que não o entenderá. Mas antes teremos que ter força suficiente para aceitá-lo de fato.

B: Nossa, não me darão nenhuma chance? Ou será que eu terei que ser outra pessoa para ser aceito? Acho que é isso. Vocês já estão dizendo qual é o caminho certo a ser seguido. Senão, terei que ficar aqui escondidinho e no máximo terei a solidariedade dos outros. No máximo, eles e vocês mesmos serão tolerantes com a minha possível demora em entender as coisas e me tratarão como um coitadinho que está se esforçando.

P: Nós seremos tolerantes sim, mas você terá que se superar e conseguir viver uma vida a mais normal possível.

B: Ah! Então para que eu seja aceito tenho que entrar no que vocês estão chamando de normalidade. Que vida é essa e como eu devo fazer?

P: É isso mesmo. Em toda a história da humanidade sempre houve a sua normalidade. É a regra do jogo. Quem não aceita essas regras é visto como negativamente diferente.

B: Porque diferente? Diferente em relação a quê e a quem? Existem então os meus iguais? Nesse mundo que eu estou chegando, cada pessoa só vive entre os seus iguais?

P: O que sabemos é que você não é igual a nós. É por isso que nós, pais, estaremos sempre correndo atrás do tempo, criando expectativas e não poucas vezes nos frustrando com o seu desempenho. Você não terá o mesmo tempo, a mesma velocidade e inteligência das crianças normais. Então, se quiser ser incluído deve se apressar para entrar no jogo e, se possível, ganhá-lo.

B: Agora estou começando a entender. Como vocês mesmo dizem, para que eu seja incluído tenho que ser o máximo possível igual a vocês. O difícil vai ser aprender a ser igual e não mais diferente de vocês. Só tenho uma perguntinha: vocês todos são iguais? Não há diferença alguma entre vocês? E se vocês já são normais e perfeitos, então não precisam mais mudar?

P: Boa pergunta. É que nós crescemos aprendendo que existe essa separação rígida entre as pessoas. Aí veio você que está do outro lado desse binômio e nos deixou atordoados, sem chão e sem saber o que fazer. E quanto mais velho você for mais difícil vai ser. A escola vai dizer que você não acompanha. Muitos vão dizer que você aprenderá mais em uma escola só para você. Isso porque nessa escola saberão como lidar com o seu problema e você estará entre seus iguais. Nosso medo é que você não avance e não mude e fique preso às suas raízes.

B: Não compreendi também o que é esse transformar que vocês estão falando. Mesmo não me normalizando como vocês desejam, tenho muito a ensinar para vocês. Tenho toda a minha cadência, meu ritmo, meus desejos, interesses, necessidades e dificuldades. Se vocês não me derem uma chance de mostrar a minha potência de vida e investir nela há grandes chances de minha existência se tornar muito triste, minha auto-estima pode cair muito e aí me tornarei mesmo um deficiente. Aí vocês dirão que a culpa é do defeito que vocês insistem em dizer que eu tenho. Tenho uma suavidade própria que pode gerar em vocês novas formas de conceber a existência e as relações de afetos e desejos. Eu não sou o vazio, o nada.

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