Cachoeira da conexão

Conexão Com a Natureza, Conexão Com Meu Filho

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Há algumas semanas, comecei a me sentir distante do meu filho de 3 anos e meio. Não sei bem por quê. Eu trabalho em casa e fico com ele muitas horas por dia, mas eu não estava realmente com ele. Percebi que nossa relação parecia muito utilitária: ajudar na hora das refeições, levar para cá e para lá e só. Nem banho estávamos tomando juntos.

Sim, algumas vezes, eu percebia que ele estava precisando extravasar alguma emoção estagnada e o ajudava, colocando limite e ouvindo seu choro, seus gritos. Em meio ao choro, ele chamava pela mãe. Isso é normal. Nenhuma criança, e quase nenhum adulto, quer voluntariamente chorar, mesmo que seja para extravasar emoções estagnadas. Ao extravasar essas emoções, revivemos as cenas e os sentimentos que aconteceram. Revivemos dores, raivas, tristezas, decepções. Mas revivemos em segurança, com a presença de um adulto carinhoso, não julgador. E, assim, essas emoções podem ser extravasadas para que voltemos a funcionar no máximo de nossa potência. Consegui ajudá-lo a extravasar e notei como ele ficava mais tranquilo, ativo, conectado, vivo.

Mas alguma coisa estava faltando: a conexão pela brincadeira, pela presença cem por cento para o que ele queria fazer, mesmo que fosse por alguns minutos. Reparei que as brincadeiras que fazíamos em casa sempre incluíam minha filha mais velha, que tem quase 6 anos. Ou seja, eu não estava dando exclusividade ao meu filho, e isso estava nos distanciando.

Essa semana fomos apresentados a uma linda cachoeira por uma família muito querida e que tem uma relação muito especial com essas águas. Uma cachoeira generosa, que nos acolheu e nos renovou. A queda deve ter mais ou menos 2 metros de altura. Ela é bem larga. Para se chegar até a queda, há uma piscina com chão de areia, que vai ficando mais funda muito lentamente. As crianças podem brincar com tranquilidade.

Percebi que já no caminho para a cachoeira comecei a me sentir mais conectado comigo mesmo. Estar na natureza tem esse efeito em mim. Ao me conectar comigo, senti um grande desejo de me reconectado ao meu filho. Ao chegarmos, ele pediu para entrar na piscina. Dei a mão para ele, e fomos caminhando. A água estava gelada. E, à medida que ele foi entrando, começou a sentir frio e pediu para voltar. Eu o levei de volta para um banco de areia. Olhei para ele e perguntei se gostaria que eu o levasse no colo perto da cachoeira. Ele disse que sim. Veio no meu colo, e fomos devagarinho. Ao chegarmos perto da queda-d’água, ele disse, com um sorriso no rosto: “Está pingando em mim.”. Eu perguntei se ele queria sentir a cachoeira com a mão, e ele disse que sim. Peguei sua mão e coloquei na cachoeira. Ele sentiu a força da água. Depois de um minuto lá perto, ele pediu para se afastar. Fomos ao banco de areia novamente. Olhei nos olhos dele e disse que eu iria entrar na cachoeira. Ele ficou numa boa. Fui até a cachoeira, entrei e deixei que aquela água me limpasse. Foi uma delícia. Fiquei alguns minutos, tendo sido transportado para outro estado de consciência.

Depois, fui para trás da queda e fiquei ali sentado em uma rocha conversando com um amigo. Olhamos um para o outro e nos lembramos do vídeo que havíamos visto há pouco: uma entrevista do ator Ricardo Darín, na qual ele explica para um entrevistador perplexo por que recusou um papel em Hollywood. Darín dizia algo como: “Do que mais preciso? Tenho uma família linda, tenho amigos, já tenho uma condição financeira excelente”. Olhei para o meu amigo e falei: “Do que mais precisamos?”. Ele disse: “Nada”.

Nessa hora, vi através da cachoeira meu filho lá longe, sentado em umas pedras. Então, me conectei com ele e senti que estava me chamando. Fui nadando até ele e disse: “Filho, eu entrei numa caverna, atrás da cachoeira. Você quer vir?”. Fiquei com um pouco de receio de ele não gostasse, pois ultimamente passamos por situações em que várias crianças entraram em piscinas e ele não quis ir. Mas ele disse que queria. Veio no meu colo, e caminhamos lentamente até a cachoeira. Chamei meu amigo que estava lá dentro e pedi para que pegasse meu filho. Olhei para meu filho e disse: “Vou te entregar para o M. Tudo bem?”. “Tudo”, ele respondeu. Depois que o entreguei, fui para trás da cachoeira também. Ajudei ele a se sentar na pedra. A água respingava sobre o corpo dele, e ele estava feliz. Meu amigo disse para ele olhar para o lado das pedras, para ver como haviam pequenas cavernas lá dentro, e ele ficou encantado. Logo depois, pediu para sair. Saí com ele no colo e o levei até as pedras. Estava frio. Ele pediu uma toalha, que enrolei em volta do seu corpo. Ele se sentou.

Eu fiquei em pé olhando para ele. Após alguns minutos, senti que ele estava bem relaxado e entregue. Perguntei se ele queria vir no meu colo para descansar. Ele veio sem pestanejar e deitou sua cabeça em meu ombro. Comecei a caminhar com ele, me conectando com seu corpo e ao mesmo tempo com o ambiente majestoso onde estávamos. Comecei a entoar uma melodia que me veio na hora. Ele então começou a acariciar meu braço. Estávamos completamente conectados. Senti uma gratidão enorme por existir e poder viver esse tipo de experiência. Senti que estava tudo certo, que aquele momento estava certo e que os momentos de desconexão também estavam certos. Não há erro, não há falta, não há falha na vida.

Depois de algum tempo, ele levantou a cabeça do meu ombro, e senti que queria descer do colo. Desceu. Todos nos arrumamos e fomos para casa. À noite, ele adormeceu ao meu lado enquanto eu lia um livro para minha filha.

(Se você quiser se aprofundar nos temas de criação com conexão, educação pela potência, limites, brincar entre outros, temos um grupo que se reune virtualmente toda semana. É um grupo inclusivo, porém não é gratuito. Você contribui com quanto quiser mensalmente. Ao entrar no grupo você já terá a sua disposição mais de 40 horas de videos de encontros gravados com os mais diversos temas. Para entrar no grupo solicite uma autorização aqui: https://www.facebook.com/groups/conexaopaisefilhos/)

 

4 respostas
  1. karol
    karol says:

    Obrigada pelo texto!

    Encontrei essas dicas agora que estou fazendo a adaptação escolar do meu filho. Estou sentindo uma desconexão grande. E uma culpa. Irei agir diferente. Obrigada pelas dicas.

    Responder
  2. Dúnia La Luna
    Dúnia La Luna says:

    Marcelo, que experiência linda e que alegria saber desse portal pra vc também.
    Ele é real para as pessoas que estão mais despertas… Não é só molhar a pele, é abrir a alma, o coração…
    Vc sentiu a conexão que eu sempre sinto comigo quando estou nessas águas. Esse tem sido meu lugar de rito e trabalho ha 5 anos morando aqui. Sinto as águas daqui como meu verdadeiro Lar!
    Que possamos sempre compartilhar esses momentos cada vez mais e espalha-lo as pessoas.
    Bem vindo ao meu mundo! rsrsrs

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  3. Rô Rezende
    Rô Rezende says:

    Emocionante, Marcelo. Terminei de ler com os olhos marejados. E a sua descrição de como se sentia é exatamente o que procuro, é o que me faz feliz, meu santo graal, por assim dizer rsrs… O que para mim é um sinal de que estou no caminho certo! Gratidão!

    Eu vejo as conexões e desconexões como uma dança, encontros e reencontros.

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  4. Patricia Alvarez
    Patricia Alvarez says:

    Olá Marcelo, amei seu texto, especialmente quando valoriza os momentos de desconexão, pois às vezes fico com a impressão que amar e cuidar bem de nossos filhos é estar conectado o tempo todo com eles, e esse texto me mostrou que não se trata disso. Para poder ter um momento de conexão intensa, acho que às vezes é preciso passar por um tempo de desconexão com a criança, mas de conexão com outras coisas, que depois vão favorecer nosso encontro com nossos filhos, como aconteceu com você e a cachoeira. Tive uma experiência recentemente com minha filha de 3 anos, que sempre relutou muito para entrar no mar, o que me incomodava, pois eu amo o mar, e queria muito que ela tivesse prazer nesse encontro com a praia (lugar que gosto muito de ir). Na verdade nunca tive clareza do que ela não gostava, se era das ondas, do frio da água, da imensidão do mar. Sei que sempre quando levava ela até o mar, ela chorava muito, se agarrava no nosso pescoço e até se escondia atrás das cadeiras de praia quando falávamos que íamos no mar. Até que fomos passar 3 dias, apenas nós 3, em uma praia linda, de águas calmas, rasa, cristalina, sem ondas. No fim da tarde quando o dia se despedia, depois de um passeio de pedalinho, o inesperado aconteceu: ela entrou por conta própria no mar. Meu companheiro estava dentro dagua, eu arrumando nossas coisas na areia, e quando vi, ela tinha deixado os brinquedos na areia e estava indo sozinha, ao encontro do pai que estava na dentro dágua. Foi bonito de ver. Ela entrou sem medo, sem ninguém insistir, chamar, convidar. Entrou quando ela quis. Isso me ensinou que preciso respeitar o tempo dela, que não é o meu tempo, não é o tempo do meu desejo.E que preciso deixar espaço e tempo livre para que ela possa agir livremente, sem um direcionamento meu do que ela deve fazer. Por isso hoje acredito que a desconexão com a criança e a conexão com outras coisas (estava arrumando a bolsa) também tem sua função na relação com os filhos.

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