mae e filha no colo

“Flore”, Mamãe!: ajudando minha filha a se reconectar

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Esse texto foi escrito pelo Diogo Sasaki e relata lindamente como um pai e uma mãe presentes conseguiram entender a real necessidade da filha, sem classificar seu comportamento como manha ou birra, fazendo com que ela colocasse sentimentos ruins para fora e voltasse a viver na sua plena potência, com amor e carinho. Diogo é homeopata. Se quiser entrar em contato com ele, escreva para: diogo.homeopatia@yahoo.com . Diogo participa do grupo Conexão Pais e Filhos, um grupo facilitado pelo Marcelo Michelsohn, que se reúne semanalmente por videoconferência e trabalha a transformação para um novo paradigma. A participação no grupo não é gratuita, mas é inclusiva (cada um contribui com o que quer e pode). Para solicitar sua participação no grupo clique em Grupo Conexão Pais e Filhos.

  “FLORE”, MAMÃE!

Quando recebi o convite para escrever aqui, fui tomado por uma sensação de alegria e aceitei o desafio sem ter a menor idéia de como seria. Agora, tentando começar por algum lugar, lembrei de quando descobri que seria pai. Fui literalmente tomado por uma avalanche de sentimentos: felicidade, esperança, sensação de plenitude, amor, medo, insegurança, dúvidas… e também não tinha a menor idéia do que viria pela frente!

Como criar um filho?

Fui criado num ambiente de muita responsabilidade e logo entendi o tamanho daquela tarefa.

Hoje a Manuela tem 1 ano e 10 meses e eu descobri que esse processo de criação de um filho é vivo e dinâmico, que é um processo de criação de si mesmo, que não tem uma forma porque vai sendo criado na medida em que caminhamos por ele e é sempre novo a cada dia. Não existem fórmulas porque somos seres únicos, e portanto nos relacionamos com o mundo de maneiras sempre inéditas e através de experiências diretas, que não podem ser vividas ou reproduzidas por outras pessoas.

Vindo de um padrão escolar, passei algum tempo em busca de respostas ou fórmulas prontas. Obviamente não encontrei as respostas que procurava, mas acabei chegando à uma combinação que me pareceu muito boa e comecei a apostar nela. Logo de cara percebi que as crianças nos observam e aprendem por imitação. E que elas imitam tudo, nossas caras feias, nossos padrões, nossas manias, nossas palavras, nossos gestos, nossos julgamentos, enfim tudo. Descobri que, para ensinar minha filha a cumprimentar as pessoas, basta eu cumprimentá-las. Não preciso ficar pedindo que ela faça também. Logo ela percebe que isso gera um sorriso vindo da outra pessoa e começa a praticar esse “jogo do sorriso”. Dá “Bom dia” à todos que encontra e recebe sorrisos bem maiores que eu.

Conclui então que para chegar ao que eu acreditava ser uma boa criação, precisaria de duas coisas:

  1. Estar Presente com minha filha.
  2. Estar disposto a me trabalhar, olhar para as minhas dificuldades, quebrar os meus padrões, respeitar as individualidades, vibrar coisas boas…

Logo que cheguei a esta conclusão encontrei o Conexão Pais e Filhos, me identifiquei muito e, apesar de não encontrar fórmulas para criar minha filha, aprendi algumas técnicas que ajudam a deixar esse processo mais fluido e prazeroso.

Uma das técnicas que aprendi foi usar o “Brincar” como uma forma de me conectar com ela (e comigo mesmo). Na verdade eu adoro esses momentos e fico em dúvida qual de nós dois gosta mais. Mas também funciona como uma ferramenta, e me ajuda a observá-la e senti-la melhor, além de abrir um espaço para que ela possa me contar coisas, me mostrar dificuldades, enfim nós acabamos criando um espaço de silêncio interno, presença e muito Amor enquanto brincamos.

Outro dia eu estava brincando com a Manu no sofá entre as almofadas, hora pulando, hora me escondendo e curtindo muito quando ela pediu para eu me esconder. Logo que eu me escondi ela disse (já com um tom de reclamação e querendo chorar):

-NÃO papai!!! Escondi!!!!

Como se eu não tivesse feito exatamente como ela queria. Senti que ela precisava era extravasar e não que eu me escondesse de outra maneira. Ouvi aquilo como um pedido de ajuda num momento em que ela sentiu minha presença amorosa, minha disponibilidade e buscou um motivo qualquer para poder chorar.

É comum acumularmos emoções estagnadas dentro da gente, o que nos torna pessoas ressentidas e pouco criativas. E o choro é um recurso que nosso corpo utiliza para colocar estas emoções para fluir, é como um grito que sai através de nós quando levamos um susto. O grito nos ajuda a extravasar, a colocar para fora toda aquela emoção gerada pelo susto.

Percebendo o momento, eu olhei nos olhos dela e disse: Filha agora não vou me esconder! O que foi suficiente para ela começar a chorar, chamando pela minha esposa que estava no quarto. Ela chorava, gritava, suava, chamava pela mãe e tentava sair dali, o que eu não permiti, colocando meu braço e bloqueando sua passagem. Eu permaneci olhando nos seus olhos e escutando o seu choro, estava  me sentindo bem por estar ali, com a sensação de estar ajudando e dizendo à ela, através do meu olhar, o quanto ela é amada. Tentando manter um ambiente em que ela se sentisse segura para chorar e espernear.

Este é um processo de escutar o choro. Nós colocamos um limite, neste caso a minha recusa em continuar brincando e o meu braço impedindo a passagem, serviram como um limite contra o qual ela poderia “descarregar” frustrações ou outras emoções que estavam  precisando sair. Nós adultos também somos assim, precisamos estar em um ambiente seguro e com pessoas capazes de nos acolher e não nos julgar para conseguirmos chorar ou extravasar nossos sentimentos e emoções.

Passados alguns minutos, minha esposa veio em nossa direção e eu pensei: Que pena, estávamos indo tão bem! Mas desta vez não me senti irritado com a atitude dela (como normalmente acontece). Olhei nos seus olhos e perguntei: Estava difícil pra você escutar lá de longe? Ela fez que sim com a cabeça, pegou nossa filha no colo e sentou.

Neste momento a Manu disse (novamente em tom de choro e reclamação):

-Levanta mamãe, tozinha!!! (apontando para a cozinha) e com isso transferiu para a mãe, que também chegou ali com muito amor, a tarefa de continuar o processo. Minha esposa disse que não iria para a cozinha e que ficaria ali sentada com ela no colo, o que desencadeou mais uma enxurrada de choro e protestos.

Eu fiquei por ali, ainda presente e vazio, em silêncio, sentado no chão e mantendo um contato visual com a Manu, que chorou por mais alguns minutos e aos poucos foi se acalmando e parando de soluçar.

Ficamos os três sentados, em silêncio por mais um bom tempo, quando de repente a Manu saltou do colo da mãe, foi até o quintal, apanhou uma flor no jardim e trouxe:

-Flore, mamãe!

Entregando a flor e enchendo o momento de alegria, leveza e Amor… Quase como um agradecimento pela ajuda que havia recebido.

Enfim, tive vontade de escrever este texto para tentar dividir com vocês minha alegria de estar neste processo tão lindo de crescimento que a paternidade e a maternidade nos oferece. E quão bom tudo isso pode ser para o casal. Quando conseguimos olhar para os nossos parceiros com a mesma empatia, aceitação, respeito e amor que sentimos olhando para os nossos filhos, surge um “lugar” novo, onde a gente pode se relacionar de forma inédita também com nossos parceiros.

Na tentativa de oferecer à minha filha a possibilidade de crescer e se desenvolver de forma livre e com menos interferência, permitindo que ela seja quem ela É e não quem eu gostaria que ela fosse, tenho trabalhado muito meus padrões de comportamento, tenho olhado para os meus “botões vermelhos” que quando apertados me levam sempre a reagir da mesma forma enraizada há anos dentro de mim. E isso tem me ajudado a agir mais e reagir menos. Tenho convicção que se eu tivesse olhado para a minha esposa com um olhar de desaprovação pela aproximação dela, eu teria quebrado o fluxo daquele momento. Quando a gente consegue estar no presente e vazio, é mais fácil fazer uma leitura do que está acontecendo ao nosso redor. E dessa forma eu pude sentir que ela estava interferindo simplesmente porque estava difícil ouvir de longe e que aquela atitude era uma forma de respeitar à si mesma, e não um desrespeito comigo. Então acolhi também a minha esposa, que foi até la e terminou o processo lindamente. Provavelmente muito melhor do que eu teria feito sem a presença dela.

E no final, depois de estudar formas de ajudar a Manu no seu processo de educação, tenho chegado a conclusão que sou eu quem precisa ser educado e não ela. Que o processo de criação de si mesmo acontece o tempo todo de uma vida e que não há nada melhor do que ter uma criança por perto para nos guiar por estes caminhos.

 

10 respostas
  1. Rafaela
    Rafaela says:

    Olá Diogo!

    Encontro-me em uma busca semelhante à sua. Tenho uma filha de 2 anos e 9 meses e venho buscado auto-conhecimento e conexão com ela. Hoje, depois de uma tarde inteira na casa da avó e longe de mim e do pai, ela chorou muito assim que cheguei e dei banho nela. Levei-a para o quarto e ela começou a se morder. Pedi que não se mordesse e ela me batia, foi muito difícil.

    Depois de muito tempo, a minha mãe entrou no quarto e a pegou no colo, assim, ela se acalmou.

    Fiquei muito perdida e triste no momento em que me agrediu e se mordeu. Ao ler esses depoimentos me fortaleci. Percebo o apoio emocional que nós precisamos para seguirmos fortes.

    Agradeço o seu depoimento.

    Responder
  2. Lucia Luckmann
    Lucia Luckmann says:

    Olá Diogo!

    Gostei muito do seu texto e de sua contribuicão aos pais (e avós, como meu marido e eu) para ajudarem suas criancas queridas, desta nova geracão, a extravasarem seus sentimentos e a crescerem bem, sem bloqueios inúteis.
    Parabéns!

    PS: Mas tenho apenas uma dúvida: como reagir se dentro deste extravasar sentimentos, acontecerem agressividades e sentimentos momentaneos de rejeicão aos adultos que as cercam?
    Como reagir a isso?

    Responder
    • Diogo
      Diogo says:

      Oi Lúcia, tudo bem? Não sei se entendi muito bem sua questão, mas é comum a criança querer sair da situação. Nem sempre queremos mexer com emoções ou questões que estão guardadas dentro de nós. Bom, se isso ocorrer, acho importante tentarmos nos conectar e perceber o que estamos sentindo diante do que está acontecendo.
      Se esta reação da criança desperta em nós adultos alguma turbulência, algum sentimento, acho que é justamente para este ponto que devemos olhar e tentar trabalhar em nós esses sentimentos que observamos. Neste caso, se não estamos confortáveis com o que estamos sentindo, penso que o melhor seria parar e fazermos isso em outro momento.
      Mas se, apesar da reação da criança, nós continuamos tranquilos, nos sentindo bem, percebendo que podemos ajudar, acho que é uma boa oportunidade para colocar novamente outro limite e continuar escutando o choro amorosamente. Por exemplo: poderíamos olhar nos olhos da criança que está tentando sair dali e dizermos: “Agora nós vamos ficar aqui”. Ou, se a criança está reagindo com agressividade, podemos dizer ” A gente não bate nas pessoas.” Talvez isso a ajude a continuar extravasando.
      Não sei se era isso que você tinha perguntado, mas ae não foi, fique a vontade para fazer novos comentários…
      Um abraço
      Diogo

      Responder
  3. Michelle Folgoso Kubo
    Michelle Folgoso Kubo says:

    Diogo que gostoso ler esse texto. Muitos desses momentos acontecem ate hoje aqui em casa comigo e eu nem me dou conta. Agora, depois de ler, posso tentar reinventar. Valeu!!!! Flores e muitas outras flores pra vcs três.

    Responder
    • Diogo
      Diogo says:

      Mi querida…. Tenho descoberto caminhos e formas de me relacionar com a Manuela que são um presente para nós.
      Saudades…
      Bjos a todos por aí….
      (Adoramos as roupinhas, rsrs, obrigado!)

      Responder
  4. Marcia
    Marcia says:

    Diogo, grata por compartilhar. Creio que revemos as nossas próprias experiências com o desabafo ou relato do outro e no meu caso, aprendo sempre mais lendo, sentindo a experiência de outros pais… Algumas vezes não fui capaz de perceber o pedido de auxílio da minha pequena formulado exatamente e no mesmo contexto em que sua filha o fez… E o interessante de todo o processo é ser capaz de esvaziar-se daquele “traje de julgamento” que tanto nos impede de ver o real. Grata por compartilhar de forma tão clara e tão simples o processo de extravasamento.
    Uma pérola para mim!

    Responder
  5. Andreia Souza
    Andreia Souza says:

    Olá amigos! Como vocês… Eu também a cada dia estudo mais de mim… Para compreender melhor minha Clarisse e poder auxiliar., e também ser auxiliada por ela…que Hoje com 4 aninhos vem florindo minha vida e deixando tudo com muita alegria com seu sorriso encantador!
    Adorei o texto! Parabéns Diego!

    Responder

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