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É Proibido Chorar!: Como A Sociedade Abafa Esse Processo de Cura Natural

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(Esse texto, escrito pela Marta Taquá Estela, nos mostra sua presença firme e amorosa para apoiar sua filha de quase 4 anos a extravasar emoções estagnadas. Marta utiliza essa história para questionar porque o choro incomoda tanto e como a sociedade tenta abafá-lo. Para entrar em contato com a Marta, escreva para marta_estela@yahoo.com e conheça o trabalho dela de produção de wrap slings  (carregadores de bebês) na página do facebook chamada Amor de Pano.)

É Proibido Chorar!: como a sociedade abafa esse processo de cura natural

Quando comecei a ler sobre Criação com Conexão a seguinte prática fez bastante sentido para mim, na relação com minha filha: quando perceber que a criança dá sinais de desconexão, manter um limite e ajudar a criança a lidar com ele, extravasando suas emoções para criar a conexão novamente.

Meu companheiro e eu estamos construindo essa prática com nossa filha mais velha, de quase 4 anos (a mais nova está com 9 meses), às vezes com mais sucesso no que diz respeito a nossa própria conexão, outras com menos.

O que eu não sabia era como essa prática é assustadora e até proibida aos olhos do entorno social. Realmente eu não imaginava como isso chocaria pessoas. Moramos em uma cidade distante da nossa família e em recentes visitas aos familiares pude perceber olhares horrorizados, transtornados, comentários julgadores e até pedidos desesperados para que paremos com isso, que esse choro não é normal (o que é normal, então? os nós na garganta que sinto quando percebo que desaprendi a chorar?).

Um acontecimento extra-ambiente familiar me marcou mais fortemente. Estava com minhas duas filhas na lanchonete de um SESC quando a mais velha pediu para eu comprar uns 3 salgados de uma só vez. Eu disse que compraria um de cada vez, que quando ela acabasse de comer um, se ainda tivesse fome, eu compraria outro. Ela logo negou minha proposta com voz chorosa e batendo o pé. Eu entendi o sinal e mantive o limite de 1 salgado por vez. Ela chorou muito, gritou. Eu me mantive com ela, bem tranquila, tentando olhar em seus olhos, carinhosa, falando pouco, sem me importar com o que os outros estariam pensando. Na verdade, nem percebia os outros. Ela pediu colo, pediu abraço e continuava chorando muito forte. Então uma funcionária da limpeza se aproximou: – Você não quer sentar ali com ela? – Não, obrigada – respondi rapidamente e continuei me conectando com minha filha. A funcionária não saiu de perto. Eu abraçava a filha de olhos fechados e ela chorava. – Está acontecendo alguma coisa? – ela perguntou. Quando abri os olhos para responder que estava tudo bem, vi que mais duas funcionárias tinham se juntado a ela, formando um semi-círculo a minha volta. Eu senti muito fortemente que aquela situação não era bem-vinda.

Claro que o choro era alto e o barulho poderia incomodar. Mas não estávamos em um restaurante silencioso com música ao vivo. Estávamos em um SESC da periferia, em um fim de semana quente de férias escolares. O lugar estava muito cheio e muito barulhento. Não era o som que incomodava, mas o choro aflorado, em si.

Pouco tempo depois minha filha disse tranquilamente que queria só um pão de queijo. Comeu feliz com os primos e depois pediu mais um. Durante esse tempo brincou com eles, sem nenhuma trava, sem nenhuma disputa pela cadeira ou pelo copo de suco.

Desde então estou realmente surpresa com a reação do entorno ao ver a mim e ao meu companheiro permitindo o choro e segurando o limite. Sabia que a reação mais comum ao choro de uma criança é o “não chore”, ou o “já passou”, ou então o “pare já com isso”. Mas não sabia que era inaceitável, proibido, o chorar e o gritar. Me pergunto, então: A que vem servir essa proibição? Quais suas consequências, seus desdobramentos? No âmbito individual, pessoal, vejo muitas doenças, muitas travas emocionais, muitas couraças físicas, muita sombra, muito desconhecimento de si! E no âmbito social e político? Essa proibição certa desde o início da infância traz que consequências? Como se porta uma sociedade composta por indivíduos que não sabem chorar e não podem gritar?

7 respostas
  1. Andressa
    Andressa says:

    Chorar… Chorar… Chorar …
    Um ato de colocar para fora um sentimento que não podemos “digerir”!
    Um ato de coragem, que nos expõe a uma fragilidade, uma entrega a dor…
    E preciso estar bem resolvido internamente, para um ato desse, em público, mesmo que o público seja bem reduzido a apenas uma pessoa!
    A família, a sociedade em geral nos reprime, com expressões do tipo: não chore! Seja forte! Você agüenta! Não foi nada! Não fique assim!
    Não estamos acostumados ao som do choro!
    Mas e preciso repensar, será que a solução e não ouvir ao som incomodo? E sufocar um sentimento?

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  2. Patricia
    Patricia says:

    Um tempo atrás vivemos situações parecidas com meu menino mais novo, na época com 7 anos, num período especialmente desafiador e agressivo. Nosso procedimento era semelhante, manter firme o limite e deixar que ele se expressasse. O que começava com ira/gritos/descontrole físico desaguáva em um mar de lágrimas nos meus braços, e finalmente se transformava em entrega e calma. Uma vez passamos por este processo num shopping – era uma segunda-feira à noite, estava muito tranquilo. Mas duas mulheres se sentiram tão incomodadas a ponto de intervir… Primeiro uma segurança veio me perguntar (piscando pra mim!) se eu queria que ela chamasse o Conselho Tutelar. Daqui a pouco outra mulher se aproximou e disse pro meu filho que ela era do Conselho Tutelar e que iria levá-lo se ele não parasse!! Parece que chorar é um pecado mortal, um crime, especialmente em meninos. Mas eu nunca me importei com o que os outros pensavam ou diziam (meu marido se incomodava e sofria mais por isso…); persistimos e hoje temos um garotinho de 9 anos muito mais maduro, que sabe lidar melhor com seus sentimentos e frustrações.

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  3. Patricia
    Patricia says:

    Tenho pensado muito sobre o choro recentemente devido a uma perda na família. Vivenciando o luto percebi na pele que as pessoas não estão preparadas para escutar o choro do outro por que justamente nossa cultura não nos permite aceitar esse comportamento como uma canalização de nossas emoções. Trata-se justamente de um mecanismo natural para lidar com a emoção e que nós é podado por uma cultura que diz que somos que ser fortes e tolerantes a dor. Com essa ideia, nós não educamos os nossos filhos para lidar com as emoções, chorando…

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  4. Roseli
    Roseli says:

    Eu confesso que tenho dificuldades para lidar com o choro do meu filho, mas não por ele e sim pelo modo como as outras pessoas tentam interferir em nosso esforço de entender os motivos dele. Geralmente conto até três para não ser grosseira com a pessoa que está incomodada, mas às vezes não me contenho e acabo chutando o balde. Penso que as mulheres, ao menos algumas eu percebo no olhar, tem uma sensação de querer ajudar, ou de pena, ou de tentarem se colocar no lugar da mãe, se lá… Outro dia me peguei olhando furiosa para uma mãe que, para conter o choro de seu filho de no máximo 3 anos (!), espancava o pobre menino até que ele acabou por se calar :(. Não sei se ela achou que meu olhar era de reprovação a ela ou (!) ao choro do menino. Enfim, estamos todos aprendendo, ou melhor, desaprendendo a lidar com as reações de uma criança não é mesmo?!

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  5. Rô Rezende
    Rô Rezende says:

    “o que é normal, então? os nós na garganta que sinto quando percebo que desaprendi a chorar?” – essa frase resume tudo para mim!

    mas sobre as travas dos outros: é tão difícil aceitar o choro alheio quando nem o nosso aceitamos. Nós não estamos preparados para lidar com a correnteza de emoções que um choro traz.

    Triste, né?

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