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Discussão entre irmãos

Eu que tava brincando com a bola!: apoiando a dissolução de conflitos entre crianças

Domingo de manhã. Estamos todos na casa de meus pais tomando café da manhã. As crianças já saíram da mesa e foram brincar. Então meu filho mais novo (quase 4 anos) chega choramingando na cozinha:

Filho: “Eu quero brincar com a bola e ela não deixa”(se referindo a irmã, que tem 6 anos)

No dia anterior os avós levaram os netos para passear, compraram uma bola e deram de presente para os dois. A bola então era dos dois.

Ao ouvir meu filho decidi intervir. Em primeiro lugar contive meu impulso de “resolver” afirmando silenciosamente que meu papel não é esse. Meu papel é de criar um ambiente propício e seguro para que eles se relacionem diretamente, dissolvam o conflito e criem soluções onde os dois saiam ganhando.

Fui até a sala, sentei no chão, chamei os dois.

Filha: “Eu peguei a bola e quero brincar sozinha”

Eu: “Estou ouvindo que ela pegou a bola e quer brincar sozinha.”

Filho: “Ela me deu uma coisa que eu não queria em troca da bola”

Eu: “Ele está dizendo que você deu uma coisa que ele não queria e pegou a bola.”

Eu estava apenas repetindo o que eles estavam dizendo pois acredito que em alguns casos isso ajuda que eles se escutem, e além disso me ajuda a estar no presente.

Nessa hora, me veio uma vontade de julgar minha filha, pois fiquei imaginando a cena dela convencendo meu filho a trocar a bola por qualquer besteira e como ela é mais velha e bem persuasiva conseguiu. Senti vontade de proteger meu filho. Mas novamente afirmei que meu papel não era esse e me mantive neutro.

Percebi que minha filha, que estava com a bola, começou a brincar com a mesma enquanto estávamos conversando. Então pedi para que ela parasse de brincar enquanto estivéssemos conversando. Ela não parou. Pedi para ela me dar a bola. Ela não quis dar. Eu estava presente e com clareza de que meu papel ali não era puni-la ou ensina-la a prestar atenção. Então minha reação foi de pegar a bola dela. Ela deu risada e tentou recupera-la. Eu não deixei e fiquei repetindo: agora estamos conversando. Depois de tentar tirar a bola de mim, de uma maneira brincalhona, ela aceitou e se sentou. É mais importante o estado emocional e a fluidez interna do que a ação, pois se eu tivesse tirado a bola dela com raiva, ou pra mostrar pra ela quem manda, a situação seria completamente diferente. A conversa continuou:

Filha: “Eu estava brincando com a bola antes e parei para ir pegar um livro e aí ele pegou a bola. Mas eu estava com ela primeiro”

Filho: “Mas você largou a bola e eu queria brincar”

Filha: “Mas eu ia voltar para brincar com a bola”

Filho: “Mas eu quero brincar!”

Nesse momento eles já estavam falando um com outro porém ainda estavam argumentando, cada um em sua posição, querendo ganhar do outro. Esse padrão: “é meu! Não, é meu!” durou mais alguns minutos até que os dois silenciaram.

Então eu perguntei: “Alguém tem alguma idéia do que fazer?” Mais alguns segundos em silêncio e então com um ar de alegria:

Filha: “E se nós brincássemos juntos?”

Eu: “Como?”

Filha: “Eu jogo pra ele e ele joga pra mim!”

Filho: “É. Ou, ela bate sozinha a bola no chão e eu fico contando com o contador!”

Eu: “O que vocês acham?”

Nem responderam. Já estavam de pé brincando juntos.

Dentro do paradigma do poder, “resolver” significa que eu como adulto devo me posicionar como policial, apurando os fatos, seja através das confissões deles, seja através da minha observação do que ocorreu. Então devo passar a atuar como juiz e, baseado em leis (conceitos morais) pré-determinadas, proferir o meu veredito e fazer cumprir.

No paradigma da potência buscamos nos responsabilizar completamente por nossas vidas e resolver nossas questões com as outras pessoas de maneira direta, sem a intervenção de um terceiro que decidirá por nós e que na maioria dos casos criará uma situação onde um ganha e outro perde ou em outros momentos, onde os dois perdem.

Nesse caso, após a minha intervenção, os dois ficaram brincando alegres por um bom tempo. Eu estava me sentindo muito energizado. No paradigma da potência, todos saem da situação com um aumento da própria potência, o que corresponde a uma alegria sem objeto exterior. Alegria gerada de dentro.

Eles experimentaram que é possível dissolver a situação diretamente, sem precisar terceirizar para um adulto a solução. Acredito que, na medida em que forem crescendo, não precisarão mais do adulto nem para criar o ambiente seguro e propício para que essa conversa exista. Eles próprios criarão esse campo.

Acredito que eles saíram dessa experiência com mais confiança neles mesmos, em sua capacidade de sair de uma situação estagnada e então criar uma nova realidade.

A parte mais importante desse processo que descrevi não se refere às minhas ações, mas todo o trabalho interno que venho fazendo diariamente há pelo menos 1 ano, para me livrar de crenças e emoções que ainda me prendem ao paradigma do poder e que me fazem reproduzi-lo. Quanto mais sutil for a nossa reprodução do poder, mais difícil de encarar de frente e transformar. Portanto é preciso uma atenção microscópica.

Pode ser que uma situação parecida se repita amanhã. Se eu ficar apegado ao resultado que tive hoje e tentar reproduzir as mesmas frases, a mesma postura e tom de voz, já estou fora do presente. Já estou preso ao passado. Mesmo que seja um passado cujo resultado foi satisfatório. No paradigma do poder, vivemos buscando repetir situações que “deram certo” e aí quando elas dão errado da segunda vez, nos desesperamos, perdemos o chão e dizemos que “isso não dá certo” e que é melhor continuar do jeito mais conhecido e seguro (castigo, chantagem, convencimento). Mas a sutileza está em entender que esse novo jeito é um jeito sempre inédito. A única coisa que se repete é o processo de estarmos no presente e sem estagnação (agindo com base em crenças e emoções do passado). A ação que derivar desse estado fluído será sempre inédita, mesmo que parecida com a de ontem. Nunca será uma repetição, uma busca por um resultado.

Ao embarcarmos nessa nova forma de viver, abrimos mão da ilusão de segurança que o paradigma do poder nos oferece. É preciso ganhar gosto pelo risco, pela surpresa. É preciso recuperar a confiança na vida.

mae e filha no colo

“Flore”, Mamãe!: ajudando minha filha a se reconectar

Esse texto foi escrito pelo Diogo Sasaki e relata lindamente como um pai e uma mãe presentes conseguiram entender a real necessidade da filha, sem classificar seu comportamento como manha ou birra, fazendo com que ela colocasse sentimentos ruins para fora e voltasse a viver na sua plena potência, com amor e carinho. Diogo é homeopata. Se quiser entrar em contato com ele, escreva para: diogo.homeopatia@yahoo.com . Diogo participa do grupo Conexão Pais e Filhos, um grupo facilitado pelo Marcelo Michelsohn, que se reúne semanalmente por videoconferência e trabalha a transformação para um novo paradigma. A participação no grupo não é gratuita, mas é inclusiva (cada um contribui com o que quer e pode). Para solicitar sua participação no grupo clique em Grupo Conexão Pais e Filhos.

  “FLORE”, MAMÃE!

Quando recebi o convite para escrever aqui, fui tomado por uma sensação de alegria e aceitei o desafio sem ter a menor idéia de como seria. Agora, tentando começar por algum lugar, lembrei de quando descobri que seria pai. Fui literalmente tomado por uma avalanche de sentimentos: felicidade, esperança, sensação de plenitude, amor, medo, insegurança, dúvidas… e também não tinha a menor idéia do que viria pela frente! Leia mais

Cachoeira da conexão

Conexão Com a Natureza, Conexão Com Meu Filho

Há algumas semanas, comecei a me sentir distante do meu filho de 3 anos e meio. Não sei bem por quê. Eu trabalho em casa e fico com ele muitas horas por dia, mas eu não estava realmente com ele. Percebi que nossa relação parecia muito utilitária: ajudar na hora das refeições, levar para cá e para lá e só. Nem banho estávamos tomando juntos. Leia mais

princesa no portão

O Prato Azul: ou a escuta do choro como prática de transformação

Cada vez entendo mais que os princípios, práticas e ferramentas que aprendo na Criação com Conexão ou em qualquer outra metodologia não devem servir para substituir antigos hábitos. Trocar um hábito por outro é tentar melhorar o que está ruim. O que quero é ser o criador da minha vida, da minha jornada. Então uso as práticas como pontes de passagem que ajudam a transformar minhas emoções e me possibilitar criar respostas inéditas a cada momento. Nesse texto, compartilho um exemplo de como estou fazendo isso. E te convido a criar seus próprios processos criativos para uma vida mais potente. Se quiser trocar ideias sobre isso e apoiar meu processo de desenvolvimento, experimente o Grupo Conexão Pais e Filhos.

O Prato Azul: ou a escuta do choro como prática de transformação

Hora do almoço em casa. Eu, minha esposa, dois filhos (uma menina de 5 e um menino de 3 anos) e um amigo nosso. Coloco os pratos na mesa e chamo as crianças para comer. Minha filha chega por último. Olha um prato com borda azul no lugar que estava sobrando, olha pra mim e diz em tom de reclamação: “Eu não quero esse prato!”. Eu escuto aquilo. Não sinto raiva nem fico chateado. Antigamente eu ficaria, pois teria certeza de que ela estava me desafiando. Sinto vontade de me aproximar dela e escutar com mais atenção para saber o que está por trás daquela fala, principalmente do tom que ela usou. Olho pra ela e digo calmamente: “Hoje vai ser esse prato”. Leia mais

Apego seguro

Um Bom Choro Pode Promover o Apego Seguro

Este artigo é um ótimo resumo do primeiro livreto que estou traduzindo sobre Criação com Conexão. Se você quer ser avisada (o) sobre o lançamento dos livretos, clique AQUI e preencha seu email e seu nome (opcional)

O artigo original em inglês foi escrito pela Patty Wipfler e pode ser lido neste link. Ele fala sobre a importância do nosso papel de pais e mães em ajudar nossos filhos a extravasar emoções que estejam dificultando sua vida, e como podemos fazer isso. A tradução foi feita pela Aila Nunes e revisada por mim.

A Aila é psicóloga e psicoterapeuta Junguiana (fale com  a Aila através do Facebook dela) e quis colaborar comigo para trazermos o máximo de informações do Hand in Hand Parenting para a lingua portuguesa. Se você sabe traduzir do inglês para o português e quer participar dessa força tarefa, entre no site do Hand in Hand Parenting, escolha um artigo que te interessa, traduza e mande para eu revisar e publicar. Você estará ajudando milhares de mães, pais, avós, cuidadoras e educadores a terem acesso gratuito. Se você quiser, posso colocar o link da sua página no artigo que você traduziu.

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Uma História de Conexão Verdadeira Com Minha Filha

Temos um casal de amigos com filhos da idade dos nossos, 5 e 3 anos. Hoje, domingo, eles nos convidaram para jantar fora, mas decidimos não ir junto:  eu estava cansado e minha esposa com uma espécie de virose. Minha filha disse que queria ir e esses amigos disseram que a levariam numa boa. Ela ficou super animada. Tomou banho, escolheu uma roupa especial para ocasião e quando eles buzinaram ela disparou para o portão. Saíram de casa por volta das 19:00 e voltaram as 22:30. Minha filha já conhecia o restaurante e, apesar de não gostar da comida, adora ir lá para brincar com as crianças, inclusive com a filha do dono. O restaurante é pequeno e não há espaço preparado para crianças. Mas as crianças adoram o lugar. Leia mais

Uma Prática Para Melhorar a Conexão Com Seus Filhos

Uma das práticas que eu aprendi com a Paty Wipfler, fundadora do Hand in Hand Parenting, chama-se “Momento Especial”.  É um tempo, 5, 10, 15, 30 minutos, no qual você se dedica exclusivamente a estar com seu filho. No começo, eu achava que isso era uma técnica baseada naquele velho chavão de que “qualidade é mais importante do que quantidade” e que servia para acalmar os pais que passam a maior parte do dia longe das crianças. Mas ao longo de meses de prática, percebi que é algo muito mais profundo e transformador do que isso. Leia mais

Adultos Autônomos, Crianças Autônomas: um ‘causo’

Semana passada presenciei uma cena inusitada. Estávamos hospedados no sitio da Ana Thomaz e ao acordarmos decidimos que era dia de fazer faxina. Ana mora com o marido e as duas filhas, não tem empregada doméstica nem faxineira. Depois de fazermos nossas aulas de Técnica Alexander e tomarmos café da manhã, começamos a limpeza da casa. Depois de umas duas horas a filha mais velha da Ana que tem quase 8 anos veio perguntar sobre o almoço: “Mãe, posso preparar uma macarronada pra gente comer?”.  Ana concordou e complementou: “Não deixe as crianças menores perto do fogão quando a água estiver fervendo e me chame se precisar de ajuda.” Voltamos para a faxina. Depois de algum tempo Ana foi chamada para ajudar a escorrer a água do macarrão. Alguns minutos se passaram e minha esposa me chamou: “Vem ver essa cena!” E foi essa imagem que eu vi: Leia mais

3 Reflexões Sobre O Lindo (e difícil) Trabalho de Criar Filhos

Setenta pais, mães e avós estão participando do primeiro curso on-line “Melhorando a Conexão Entre Pais e Filhos” que iniciei recentemente.  Resolvi compartilhar com vocês alguns depoimentos dos pais (em Itálico) e algumas  reflexões que fiz ao longo dessas últimas semanas. Acredito, mais do que nunca, que precisamos criar uma comunidade de apoio a pais, mães, avós, cuidadores e educadores. O trabalho de criar uma criança é profundamente emocional e faz com que confrontemos emoções nossas que estão presas há muito tempo.  Leia mais

Filhos e a Potência de Vida

Hoje minha filha faz 5 anos. Ontem eu e minha esposa ficamos lembrando do nascimento e contando para ela como foi.

Na noite que rompeu a bolsa, minha esposa estava com tanta energia que depois de quase 8 meses sem ir para a cozinha, fez um banquete. Fomos ver uma comédia ridícula e foi então que tudo começou. O rompimento da bolsa, as contrações, a ligação para o obstetra que nos apoiou a cada instante durante o parto natural (coisa rara). Obrigado João Carlos. Leia mais